Columbine: por que os homens matam tanto e tantos?

Columbine: por que os homens matam tanto e tantos?

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O ataque que hoje é conhecido como “Massacre de Columbine” aconteceu em 20 de abril de 1999, em uma escola situada na área de mesmo nome, pertencente ao pequeno condado de Jefferson County, o quarto maior do Colorado. Vinte anos depois, todas nós já sabemos aparentemente tudo sobre Columbine: dois jovens, Dylan e Eric, entraram em uma escola e, entre tiros e bombas, mataram 13 pessoas e feriram muitas outras. Houve intensa cobertura midiática – o assunto dominou a mídia durante meses – e o ataque inspirou muitos outros nos anos seguintes, inclusive no Brasil.

Neste sentido, podemos nos deparar com alguns pressupostos e indagações naturais ante a obra de Dave Cullen, “Columbine“, com quase 500 páginas, lançada no Brasil pela Darkside Books: por que ler sobre um assunto aparentemente já esgotado? Por que ler um livro que foca em um acontecimento que deveria ser sepultado da memória coletiva e relegado aos anais sombrios de nossa história recente? O livro não serviria como uma inspiração para que alguns outros jovens fizessem o mesmo?

Columbine” traz respostas satisfatórias a todas essas questões. Saiba o que esperar da obra – e pode ler tranquilamente, pois aqui não há nenhuma informação que possa atrapalhar a experiência da leitura.

Columbine: o começo

A escola Columbine, local do massacre que ocorreu em 20 de abril de 1999. (Imagem: reprodução)

Desde o princípio, é notável o esforço de Dave Cullen: mais de 10 anos de pesquisas, milhares e milhares de páginas de arquivos policiais lidas, centenas de entrevistas com vítimas, pais, agentes policiais, psicólogos, membros do corpo discente e docente, moradores e jornalistas – e cada fonte é minuciosamente citada na obra.

Dave Cullen é jornalista e cobriu Columbine desde o início. Portanto, temos um livro escrito por alguém que presenciou o ocorrido e que tem essa visão mais ampla sobre tudo: como jornalista e como testemunha. A principal preocupação de Cullen em “Columbine” é desmistificar fatos tidos como concretos, mesmo depois de tantos anos. Os garotos eram párias e atacaram como uma resposta ao bullying que sofriam na escola? O ataque poderia ter sido evitado? Os pais tiveram alguma culpa? Havia mais alguém envolvido?

O autor começa mostrando Columbine como era: só mais uma escola totalmente normal em uma cidadezinha do interior, com seus alunos e professores. Conhecemos um diretor apaixonado, um professor dedicado e alguns alunos, entre eles Eric e Dylan. Ao longo da obra, Cullen constrói de maneira primorosa a escalada dos dois alunos, de jovens comuns a terroristas. Sem apontar culpados ou motivos reducionistas e imbecis (não, não foi culpa dos jogos de videogame violentos ou das músicas que eles ouviam), o autor traça um panorama de cada assassino, mostra o que os uniu e os motivou a atacar.

O que Dave Cullen aborda em Columbine?

Dave Cullen
O autor de “Columbine”, Dave Cullen. (Imagem: reprodução)

O principal trunfo de “Columbine” é o de mostrar a complexidade do que de fato aconteceu e de todo o contexto depois de tantos anos, quando muitos já têm opinião bem definida. Entre os assuntos tratados em “Columbine“, Dave Cullen investiga o aspecto psicológico dos assassinos – ele traz à tona problemas de depressão, tendência suicida e psicopatia em Eric e Dylan, através de estudos na área e conversa com profissionais que tiveram contato com os dois -, mostra os desdobramentos do ataque (a briga das famílias na justiça por reparação/indenização, a luta por mudanças na legislação de armas), analisa a influência do ocorrido em ataques posteriores e mostra o papel duplo da religião (alguns grupos religiosos trouxeram conforto às famílias das vítimas e aos sobreviventes, outros utilizaram o assunto intensamente como uma forma de autopromoção).

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A parte mais assustadora e as consequências do massacre

Uma das partes mais assustadores e angustiantes de “Columbine” é o relato completo e minucioso, minuto a minuto, do ataque. Acompanhamos cada tiro, bomba e assassinato. Entendemos como cada pessoa foi atacada (com detalhes viscerais), como outras conseguiram fugir e temos um panorama completo do pandemônio causado pela dupla de assassinos. Mas nada disso se encontra no livro de maneira gratuita ou sensacionalista – o autor analisa cada fato e contextualiza tudo na narrativa geral. Além disso, Dave Cullen também esmiúça o modo como a imprensa cobriu o ocorrido: entre sensacionalismo, fake news e falta de ética, pouquíssimos profissionais de comunicação souberam lidar de maneira adequada.

Todavia, ao longo dos anos, o massacre de Columbine inspirou músicas, filmes, documentários e, infelizmente, ataques semelhantes. Desde Columbine, diretamente ou indiretamente influenciados por Eric e Dylan, outros ataques em escolas aconteceram nos Estados Unidos – e outras dezenas de tentativas foram impedidas pelas autoridades. Dessa forma, o FBI chegou a criar um protocolo específico para lidar com este tipo de problema.

Por conseguinte, o autor fala sobre alguns desses atentados, como o de Virginia Tech (o estudante Seung-Hui Cho matou 32 pessoas no campus) e o de Sandy Hook (Adam Lanza matou 20 crianças da escola primária, além de 8 adultos). Mas, infelizmente, de tempos em tempos um ataque do tipo ainda acontece, inclusive no Brasil, onde presenciamos o massacre de Realengo e o de Suzano.

Conclusão: o que você pode esperar de Columbine

Columbine, Dave Cullen
A edição de “Columbine” lançada pela Darkside Books

Columbine” é um livro repleto de informações e detalhes. Mas, diferente de algumas das obras do tipo, a leitura é muito fluída e fácil. Entre momentos tensos, emocionantes e angustiantes chegamos ao final da experiência com uma nova percepção sobre o ocorrido. No entanto, a pergunta essencial ainda permanece sem resposta definitiva: por que homens matam tanto e tantos? Em todos os casos de ataques escolares os assassinos são homens.

Desse modo, por todo o mundo, milhares de homens ainda hoje enaltecem e se inspiram nos assassinos. Não é difícil encontrar pessoas dizendo que entendem os assassinos e que têm vontade de fazer o mesmo (para checar isso basta ler alguns comentários de vídeos relacionados no youtube). Além disso, hoje em dia ainda temos os incels, que formam uma verdadeira comunidade misógina e violenta que constantemente ameaça e ataca mulheres ao redor do mundo. Dylan e Eric não poderiam ser qualificados diretamente como incels, mas foram uma espécie de precursores, ainda que não dirigissem seu ódio unicamente às mulheres.

Por fim, a edição da Darkside Books merece só elogios. Diferentemente das já tão conhecidas e amadas capas cheias de detalhes, relevos e cores – que já se tornaram identidade visual da editora, a capa de “Columbine” reflete bem o conteúdo sério, sóbrio e realista da obra – além de dar o tom sombrio. É uma leitura altamente indicada, que responde muitas perguntas e que, arriscamos dizer, coloca um ponto final sobre o ocorrido.


Columbine

Dave Cullen

480 páginas

Darkside Books

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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