A Parábola do Semeador: nem todas as distopias são iguais

A Parábola do Semeador: nem todas as distopias são iguais

“Comecei a escrever sobre poder porque era algo que eu tinha muito pouco.”

Octavia Butler

Assim como a viagem no tempo foi um tema abordado de forma inovadora pela autora Octavia Butler em “Kindred: Laços de Sangue”, em sua distopia intitulada A Parábola do Semeador – que chega recentemente ao Brasil pela Editora Morro Branco -, a autora não só foi capaz de deixar um marco no gênero literário da ficção científica, como também foi capaz de prever a ascensão do conservadorismo americano com a eleição de um presidente como Donald Trump. Os problemas atuais que os Estados Unidos enfrentam, como o ódio e os ataques as minorias e imigrantes, o abuso de poder e a violência policial são alguns dos temas recorrentes na obra de Octavia Butler. E tem mais: todo esse futuro amargo e cruel será enfrentado pelos olhos de uma jovem garota negra de 15 anos. Octavia não só prende nossa atenção pela genialidade de sua escrita, como se preocupou em apresentar histórias contadas por protagonistas negras. Ela mostrou que mulheres negras podem e devem escrever ficção científica.

A Parábola do Semeador é o primeiro volume da duologia Semente da Terra. Octavia começou a escrever em 1989 e publicou o primeiro livro em 1993. A história começa no ano de 2024, no bairro Robledo, na Califórnia, e mostra o cotidiano da família e dos vizinhos da jovem adolescente Lauren Olamina. Nessa realidade, as casas são cercadas por muros altos; a água é escassa e custa um valor tão alto que as pessoas não conseguem se higienizar adequadamente; pessoas andam armadas nas ruas e as crianças aprendem desde cedo a atirar; mulheres (incluindo crianças) são agredidas e estupradas, além de servirem como moeda de troca através de casamentos forçados. Há também uma espécie de droga altamente perigosa que faz com que as pessoas cometam incêndios.

Em uma matéria no The New Yorker foi mencionado que a distopia mais provável de acontecer seria a apresentada por Butler em A Parábola do Semeador. Octavia, inclusive, nos mostra semelhanças assustadoras com a realidade atual brasileira.

A heroína negra da distopia

A perspectiva da história de A Parábola do Semeador é narrada pelos olhos de uma adolescente negra de 15 anos de idade, Lauren Olamina. Filha de um ministro batista, ela não se identifica com a versão do Deus que seu pai crê e prega na igreja e, dessa forma, a garota ressignifica suas próprias crenças e cria sua própria versão de uma religiosidade. Para Lauren não existe, por exemplo, um deus do gênero feminino ou masculino, ela acredita na importância da criação de comunidades para que as pessoas trabalhem juntas para mudar essa realidade horrível que os humanos causaram ao meio ambiente e que os afetaram diretamente.

Ser pobre é um pecado contra Deus? Nós somos quase pobres. Há cada vez menos empregos para nós, mais e mais pessoas nascem, mais crianças crescem sem perspectiva. De um jeito ou de outro, todos seremos pobres um dia. Os adultos dizem que as coisas vão melhorar, mas elas nunca melhoram. Como Deus – o Deus de meu pai – se comporta quando somos pobres?

Existe um Deus? Se existe, ele (ela? isso?) se importa conosco?”

A Parábola do Semeador

Uma das características de Lauren é sua condição de hiperempatia. Diagnosticada com essa síndrome, a jovem terá que lutar para sobreviver e enfrentar uma realidade onde a violência predomina e, por ser portadora dessa síndrome, Lauren correrá inúmeros riscos. Por sentir as mesmas dores que a pessoa ao seu lado está sentindo, essa síndrome tem o papel de imobilizá-la, de certa forma, e isso pode causar perigo para a sua própria sobrevivência – no caso de autodefesa – ou para a pessoa ao seu redor – se tiver que ajudá-la.

Outra característica marcante de Lauren é que ela nos lembra a protagonista do livro “Maresi”, da distopia de Maria Turtschaninoff, publicada no início de 2018. Ambas são apaixonadas pelos livros e acreditam no poder da literatura como fator essencial para a mudança e evolução da humanidade. Mesmo dentro de uma realidade distópica onde a literatura não parece ter qualquer valor ou relevância, Lauren confia no poder das histórias escritas.

Você sabe qual é a pena para ler nos dias de hoje?”, tal citação (do episódio 11, da 2ª temporada da série The Handmaid’s Tale) entra em contraste com a distopia de Butler. A literatura é vista como algo perigoso nas distopias. Ler é um exercício de reflexão e, por isso, um perigo para o questionamento das imposições governamentais conservadoras ou ditatoriais – aquelas que configuram a permanência da ignorância para exercer um controle inquestionável e preservar a manutenção do poder.

Make America Great Again!

“Harry diz que as ideias dele são assustadoras. Ele diz que Donner (o presidente eleito dos E.U.A no livro de Octavia) vai fazer o país voltar cem anos no tempo.”

Muros protegendo casas, fronteiras entre países, suspensão dos direitos trabalhistas, crítica ao capitalismo, fome, falta de água, machismo: essa é a sociedade americana na qual Lauren tenta sobreviver a todo instante. O ódio e o racismo aos negros e hispânicos é outro fator presente na distopia.

“Eles nunca perdem uma chance de relembrar os bons tempos e de contar às crianças como vai ser lindo quando o país se reestruturar e os bons tempos voltarem”

A Parábola do Semeador

É assustador pensar que uma distopia que foi escrita em 1989 mostra uma realidade semelhante com a situação dos imigrantes e refugiados nos Estados Unidos que vemos hoje em dia. Fronteiras cada vez mais fortes e perigosas. Filhos e filhas de imigrantes separados dos pais e mães. Retrocesso aos direitos reprodutivos das mulheres em alguns Estados.

Outra distopia literária foi utilizada como forma de protesto na era Trump, devido às tentativas de violações aos direitos reprodutivos das mulheres foi The Handmaid’s Tale. Assim como Octavia utilizou assuntos e problemas reais da sociedade (principalmente os ligados a segregação racial) para escrever sua distopia; a obra de Atwood é um alerta aos riscos dos direitos conquistados pelas mulheres. E o que representa para as mulheres americanas presenciar a escolha de um presidente que já manifestou declarações misóginas e acusações de assédio sexual?

Octavia também aborda os riscos de uma sociedade misógina e machista, quando em um momento da história cogita se vestir como “um homem” para conseguir andar sem medo de ser atacada. As ruas da Califórnia distópica de Butler são aquelas que as mulheres (como na atual realidade) andam com medo de serem assediadas e violentadas. Elas são o alvo maior em sua realidade distópica. Precisam sobreviver da forme, das necessidades básicas e da violência dos homens.  

A violência policial, o racismo e a relação com a realidade brasileira

Octavia Butler aborda na obra o medo recorrente da população negra diante dos policiais americanos. Em algumas situações, Lauren alerta personagens para jamais confiarem nos policiais na busca por ajuda. O abuso de poder e a crítica à militarização como “restauração da ordem” também são assuntos refletidos concomitantemente ao longo de A Parábola do Semeador.

“Eu não conseguia parar de imaginar quantos acidentes os guardas malucos causavam com suas armas. Acho que, depois do ocorrido, todo acidente virava um assalto à mão armada e a vítima, um assaltante com tendências homicidas claras.”

A Parábola do Semeador

Em uma realidade distópica, onde a sociedade tenta sobreviver diante de uma crise ambiental, ao mesmo tempo que enfrenta o perigo e a violência e um governo que não mais exerce qualquer proteção, como as pessoas negras e minorias sobreviverão em uma realidade que permanece racista, xenofóbica e misógina? Por isso os negros, hispânicos e as mulheres (que são a maioria dos personagens do livro) correm mais riscos de serem mortos ou torturados do que os brancos. Tais personagens correm riscos duplos: de sobreviver à crise ambiental e aos próprios humanos.

 “O que um grupo de pessoas bem armadas poderia fazer em uma situação insana como essa?”, “[…] alguns descobrirão gostar do novo poder – o poder de fazer os outros se submeterem, o poder de tomarem o que querem – propriedade, sexo, vidas…

A Parábola do Semeador

Nos Estados Unidos a segregação racial é fortemente marcada pela violência dos policiais. Pessoas negras são 2,5 mais sujeitos de serem mortos pela polícia do que brancos. Ano passado vimos a notícia de um vídeo onde um policial americano que disse a uma mulher que ela não deveria ter medo dele porque ela não era negra e ele só matava pessoas negras. Movimentos como Black Lives Matter buscam divulgar e alertar mundialmente através da internet o genocídio da população negra americana.

A realidade atual brasileira não é muito diferente da americana. O número de negros assassinados pela polícia é o triplo de brancos.  A violência letal intencional no Brasil cresce contra negros, segundo os dados do Atlas da Violência 2018. O mesmo levantamento releva de 71,5% das pessoas assassinadas no Brasil são negros. Em maio de 2017, o Brasil foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por não investigar e punir os responsáveis pelas chacinas de “Nova Brasília”, no Complexo do Alemão, em 1994 e 1995. A sentença destacou a violência policial como uma violação de direitos humanos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro.

A Parábola do Semeador questiona o racismo aliado à militarização, o abuso do poder e porte de armas na sociedade americana. Questiona nas mãos de quem à população negra e as minorias estão vulneráveis. Reflete os riscos maiores que essas pessoas correm. Alerta como o futuro pode ser mais amargo e perigoso enquanto não olharmos devidamente para os problemas do presente.

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A simbologia do fogo na obra e a violência de gênero

O fogo é um elemento recorrente na obra. Como já afirmamos, no livro há pessoas que são viciadas em uma espécie de droga que faz com que as pessoas  provoquem incêndios e sintam um prazer sádico nessa prática.

Em um dos contos da autora argentina Mariana Enriquez, intitulado “As Coisas que Perdemos no Fogo” (Intrínseca, 2017), o fogo é utilizado como ato político na resistência de mulheres que, diante do cansaço de serem violentadas e agredidas por homens dentro de seus lares, ateiam fogo em si próprias para mostrar à sociedade que não aguentam mais o descaso do governo no julgamento de crimes de feminicídio e violência contra mulher. Sabendo da alta probabilidade de serem mortas por seus namorados e maridos, elas tomarão o controle dos seus próprios destinos trágicos.

Já o fogo em A Parábola do Semeador pode ser compreendido como a manifestação violenta praticada por pessoas que não suportam imigrantes, refugiados, negros, hispânicos, mulheres ou qualquer raça e etnia. Se no conto de Henriquez o fogo é o ápice do basta das mulheres à violência contra a mulher, na obra de Octavia o fogo é o ápice do sadismo misógino, xenofóbico e racista de uma sociedade que chegou ao ponto de sentir prazer com o sofrimento daquele que detesta.

Causam incêndios para se livrarem de quem não gostam, desde inimigos pessoais e qualquer um que pareça estrangeiro ou etnicamente diferente. As pessoas causam incêndios porque estão frustradas, bravas, sem esperança Não têm poder para melhorar a vida, mas têm o poder de deixar os outros ainda mais arrasados. E o único modo de provar a si mesmo que você tem poder é usando-o.”

A Parábola do Semeador

A maioria das personagens femininas em A Parábola do Semeador vivenciam situações abusivas praticadas por homens e fatores ligados ao gênero feminino. São sobreviventes de homens que estupram e agridem mulheres das mais diversas formas. São fugitivas das violências praticadas dentro de seus lares. Vemos casamentos forçados que são espécies de contratos sexuais em troca de comida e moradia.  

A agressividade e a violência como fator determinante da masculinidade também é questionada por Octavia Butler: “O que há com os garotos mais jovens que faz com que eles queiram sair andando sozinhos e serem mortos? Eles têm dois pelos no queixo e ficam tentando provar que são homens. […] Um compartilhador do sexo masculino, desesperado para esconder sua terrível vulnerabilidade? Compartilhar seria mais difícil para um homem.”

Por que A Parábola do Semeador é tão importante?

Octavia Butler conta uma história que funciona como um alerta para a atualidade. O racismo ainda está fortemente enraizado em nossa sociedade; as consequências do aquecimento global é algo que já vivenciamos; o capitalismo continua trazendo desigualdade social e concentração de riqueza nas mãos de poucos; os crimes de violência contra a mulher ocorrem todos os dias; homens misóginos são escolhidos para cargos importantes; a violência policial contra negros e pobres é algo rotineiro nos jornais; refugiados e imigrantes são tratados como animais enjaulados.

Em A Parábola do Semeador retiramos a lição do poder da empatia para a salvação da humanidade, e quais são as sementes que devemos plantar no nosso cotidiano para melhorarmos o que nós já causamos uns aos outros e ao meio ambiente. Em um mundo onde há escassez da empatia – assim como os recursos naturais para a sobrevivência – a síndrome da hiperempatia de Lauren Olamina cria uma heroína inspiradora.

Estamos curiosas para acompanhar a continuação dessa poderosa jornada de Octavia Butler no segundo volume intitulado “Parable of the Talent” (ainda inédito no Brasil), da duologia Semente da Terra.

A Dama da Ficção Científica

Filha de um engraxate e de uma doméstica, Octavia Butler foi incentivada a ler desde a infância, graças à sua mãe. A autora perdeu o pai cedo, com apenas 7 anos, ficando aos cuidados de sua mãe. A mãe sempre levava livros e revistas que eram descartados pelas famílias brancas para quem trabalhava.

Eu terei que ser uma escritora de sucesso. Meus livros irão para listas de mais vendidos, quer as editoras se esforcem ou não, quer eu receba adiantamento ou não, quer eu ganhe outro prêmio ou não. Então que seja! Eu encontrarei o caminho para fazer isso acontecer. Meus livros serão lidos por milhões de pessoas! Comprarei uma bela casa em um bairro bacana. Eu mandarei jovens negros e pobres para cursos de escrita. Ajudarei jovens negros e pobres a ampliar seus horizontes. Ajudarei jovens negros e pobres a entrarem para a faculdade. Então que seja!” 

Octavia Butler

Já o interesse pela escrita ocorreu quando ela assistiu a um filme de ficção científica chamado “Devil Girl from Mars“, sobre uma mulher demoníaca que vinha de Marte para amedrontar os humanos. Mas Octavia não gostou muito e pensou na época: “Posso escrever uma história melhor!”, e de fato ela não escreveu apenas uma história, mas diversas, no total de 15 livros publicados, além de ser sido considerada a primeira autora negra da ficção científica a ser reconhecida mundialmente, por isso o título: A Dama da Ficção Científica.


A Parábola do Semeador

Octavia Butler

416 páginas

Editora Morro Branco

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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