Maresi – As Crônicas da Abadia Vermelha: as meninas machucadas da ilha de Maria Turtschaninoff

Maresi – As Crônicas da Abadia Vermelha: as meninas machucadas da ilha de Maria Turtschaninoff

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Quando pensamos em uma história que se passa em um ilha habitada apenas por mulheres, nos lembramos das histórias das indomáveis e corajosas guerreiras amazonas da fictícia ilha de Themyscira; ou então das mulheres cultas e sábias da ilha de Lesbos, pelo qual a poetisa Safo organizou (por volta de 630 a.C.) a primeira academia de mulheres, permitindo que as mulheres que nasceram nessa ilha pudessem estudar, compor e declarar poesias – atividades que, na época da Grécia Antiga, eram restritas aos homens. As meninas e mulheres que vivem na ilha criada pela autora Maria Turtschaninoff, no livro Maresi – As Crônicas da Abadia Vermelha, publicado pela Editora Morro Branco, são aquelas que assim como nas histórias citadas, encontram no isolamento de uma ilha a permissividade e a liberdade que tanto necessitam, sem as barreiras impostas pelos homens e a opressão de um mundo masculinizado, onde homens ditam o que elas podem ou não fazer.

Assim como Safo desafiou a sua época criando um local onde as mulheres poderiam se encontrar, estudar e questionar por si mesmas, a ilha de Maria Turtschaninoff surge como uma resposta e resistência perante um mundo doente, que vive a opressão contra as mulheres como algo inerente e inquestionável, algo que há muito tempo tornou-se um problema estrutural. Assim como a república de Gilead, na obra O Conto da Aia, de Margaret Atwood, traz um alerta que os direitos conquistados pelas mulheres ao longo da história não são absolutos e podem ser violados, reconhecemos na distopia de Maria Turtschaninoff, uma ilha que todas nós almejamos, aquela onde todas as mulheres possam estudar, trabalhar e serem respeitadas na sociedade. 

Abadia Vermelha

Maresi

No início da história somos apresentadas à protagonista Maresi, cujo o nome marca o título do primeiro volume de As Crônicas da Abadia Vermelha. Maresi era uma adolescente quando chegou na ilha pela primeira vez, após um período conhecido como Inverno da Fome. Ela tinha apenas 13 anos quando precisou sair do seu lar e fugir da fome que cercava a região.

A ilha é um local organizado e protegido pelas irmãs que cuidam das garotas que chegam até lá; um local onde não é permitido a entrada de nenhum homem. “Não há ninguém contra quem temos que nos proteger.” As garotas que chegam nesse local, além de receberem educação e cultura, consomem alimentos cultivados na própria ilha. Para a compra de temperos, tecidos para a fabricação de roupas e outros itens que precisam, a principal fonte de renda advém do cultivo do caramujo-de-sangue, utilizado para a extração das tonalidades da tinta vermelha.

Não há distinção entre as mulheres da Abadia Vermelha, todas usam vestimentas iguais. Elas se vestem com camisas brancas, calças marrons e lenços na cabeça. Os cabelos também desempenham um papel importante na igualdade estabelecida entre elas, nunca são cortados e nunca devem estar presos, pois segundo uma das Irmãs responsáveis pela ilha pela educação das jovens: “Nossos cabelos têm a nossa força”.

A rotina de Maresi muda quando ela conhece Jai, uma recém noviça que chega na ilha. Noviça é o termo designado para as meninas que chegam na ilha e vivem inicialmente em um local chamado Casa das Noviças, dentro da Abadia Vermelha. A ilha possui lugares distintos, como podemos ver nos mapas abaixo, presentes na edição do livro pela Morro Branco.

Maresi

Maresi

Na Casa das Noviças, Maresi é a responsável por ajudar a organizar as tarefas e Jai passa a viver no local. Quando Jai põe os pés pela primeira vez na ilha, vemos uma garota assustada, arredia, que não é muito de conversas, principalmente a respeito da sua vida pessoal, mas ao conviver com Maresi, ela passa a se sentir à vontade ao seu lado e vemos a construção dos laços de uma amizade forte. Maresi leva Jai para passar as tardes em um dos seus lugares favoritos na Abadia Vermelha, a Câmara do Tesouro, uma biblioteca e uma espécie de templo sagrado para Maresi, onde a jovem passa as tardes mergulhada nos livros. A partir desses momentos compartilhados na biblioteca, nos passeios e afazeres na Abadia Vermelha que Maresi descobre as diversas cicatrizes e o peso que Jai carrega. 

Quem são as meninas machucadas?

“Há muitas razões por que uma menina pode vir para essa ilha. Às vezes famílias pobres das terras costais enviam uma filha para cá porque não podem sustentá-la. Às vezes uma família percebe que sua filha tem uma mente aguçada e inquisitiva e quer lhe dar a melhor educação que uma mulher pode ter. Às vezes garotas doentes ou deficientes vêm pra cá porque sabem que as irmãs podem lhes dar o melhor cuidado possível. […] Às vezes um homem rico investe em sua filha, enviando-a para a Abadia e pagando por sua educação. Talvez ele pense que ela não conseguirá um marido porque é feia ou por alguma outra razão.”

Cada menina que chega na Abadia tem uma história diferente para contar. Todas são fugitivas, de alguma forma. Algumas fogem da fome, da falta de educação e da violência cometida pela comunidade ou pelos próprios familiares. Outras fogem do preconceito e do único papel que seus familiares esperam delas futuramente: o de futuras esposas e mães. São meninas machucadas demais para permanecerem em seus lares e sonham com um local onde podem ser elas mesmas: crianças e adolescentes que necessitam de educação, lazer e amparo, para tornarem-se mulheres autônomas e conscientes de suas próprias opiniões e decisões. 

Apesar do livro trazer em destaque mais sobre os trechos da vida de Maresi e de Jai, antes de chegarem a ilha, do que das outras meninas e mulheres que vivem no local, notamos que todas elas nutrem o mesmo sentimento, o de escaparem de algo que lhe foi tomado, impossibilitado ou violado. Também já estamos curiosas para conferir a continuação do livro, chamado “Naondel” (ainda inédito no Brasil) e conhecer as narrativas de outras mulheres no universo de Maria Turtschaninoff. 

Meninas que salvam umas as outras

A obra traz diversos momentos frágeis e marcantes, onde o forte vínculo de sororidade é estabelecido. Vemos meninas e mulheres que salvam umas as outras, mesmo através das conversas, nos desabafos de um passado difícil e marcado pela as diversas manifestações de opressão.

Desde o início da leitura sentimos um incômodo nos acompanha diante da pergunta: será a Abadia Vermelha um local realmente fortificado e seguro dos homens? O romance distópico traz uma ambientação ora composta por momentos leves através dos lazeres e passeios entre as noviças, ora momentos sombrios do medo da violação desse local que elas trabalham por muito tempo para construírem. 

Uma distopia feminista necessária

É impossível lermos Maresi e não lembrarmos de outra distopia que discute assuntos semelhantes como a obra de Margaret Atwood, O Conto da Aia. Ao contrário da obra de Atwood, que apresenta um mundo onde os homens utilizam a distorção de preceitos religiosos e costumes conservadores para controlar os corpos das mulheres e as subjugarem, mostrando toda a atrocidade e violência ao qual as mulheres são submetidas; em Maresi – As Crônicas da Abadia Vermelha podemos até mesmo enxergar como um possível local para onde as mulheres machucadas da república de Gilead poderiam fugir. É interessante observar como duas obras de autoras distintas são capazes de trazer uma ótima experiência literária, ainda mais para aquelas que se interessam por discussões feministas pela ótica da ficção científica. 

Maresi
A autora Maria Turtschaninoff (reprodução)

A importância do conhecimento e da cultura como agentes de mudanças é vigente em Maresi. Se na república de Gilead, de Atwood, as revistas, os livros e obras artísticas eram proibidas, em Maresi vemos como a educação é importante para o restabelecimento do aprendizado que foi negado por fatores opressivos, assim como é mostrado também no excelente documentário Girl Rising (2013).

Educar uma menina é transformar o mundo

Desde o início do livro vemos o sonho que Maresi carrega: o de utilizar da educação que receber ao longo dos anos na ilha para educar outras meninas de sua terra natal cujo aprendizado também foi negado. O sonho de Maresi mostra que educar uma menina é educar toda a comunidade ao seu redor, é proporcionar um agente de mudanças, ainda mais em territórios e locais pobres. O sonho de Maresi é o mesmo pedido que as pautas feministas carregam até hoje, aquele onde todas as meninas possam ter acesso à educação e aprendizado.

“Uma mulher que passou sua infância na Abadia pode sempre encontrar um lugar no mundo.”

É alarmante sabemos que segundo a pesquisa da Unesco, realizada em 2016, 16 milhões de meninas ao redor do mundo, entre 6 a 11 anos, nunca terão acesso a educação, enquanto dois terços dos analfabetos no mundo são mulheres, segundo a diretora da Unesco, Irina Bokova. As meninas e mulheres que passam pela Abadia Vermelha sempre encontrarão seu lugar no mundo, aquele aonde as mulheres são tratadas como pessoas e não como mercadorias, objetos e sujeitos passivos de atos violentos e opressores dos homens. 

As Crônicas da Abadia Vermelha será adaptada para o cinema pela Film4. Ainda não há detalhes da produção, mas estamos torcendo para que a adaptação seja tão boa quanto foi a distopia O Conto da Aia


MaresiMaresi: As Crônicas da Abadia Vermelha

Autora: Maria Turtschaninoff

Editora Morro Branco 

200 páginas

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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