O Conto da Aia: o controle e a opressão feminina em uma distopia

O Conto da Aia: o controle e a opressão feminina em uma distopia

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No final deste mês estreará no serviço de streaming Hulu uma série baseada no livro de Margaret Atwood, intitulado O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), de 1985, publicado no Brasil pela editora Rocco. Deste modo, é interessante analisar os principais pontos da obra para compreensão do enredo a ser adaptado e para uma comparação.

O Conto da Aia consiste em uma distopia inovadora que, não somente é escrita por uma mulher, como coloca outra em protagonismo, bem como aborda a relação das mulheres com um sistema ditatorial. É uma obra que revela a opressão cotidiana, ainda que pela metáfora de um governo distópico teocrático,  e o poder que os homens pretendem sobre aquelas que acreditam ser do “sexo frágil”.

[NÃO CONTÉM SPOILERS]

Offred, a protagonista, é uma Aia, mas ela não ocupa esta posição desde o princípio. Ela já foi uma mulher livre, com um trabalho e uma família. Quando o exército cristão toma o poder, as mulheres são as primeiras a serem dominadas, controladas pela sede de poder dos homens. É neste momento que ela se torna Offred, e talvez não venha a ser mais do que “of fred” (“de fred”). Seu passado foi apagado da história. Agora ela é apenas a mulher que anda sob uma capa vermelha e que gerará um filho para um casal da elite.

A história se inicia com a chegada de Offred na casa do Comandante e da sua esposa, Serena Joy. A protagonista relata, então, sua estadia no local e os ritos a que é submetida conforme os dogmas de um regime teocrático ainda em fase inicial. Em um mundo escancaradamente controlado por homens, o casamento é sagrado. Mas, nem todas as mulheres são dignas do papel de esposa. Algumas delas servem à procriação, como Offred, outras servem ao ensino de outras mulheres, as chamadas Tias, e outras servem aos cuidados da casa, as Marthas. Como Aia, Offred deve entregar seu corpo, sua vida, seu silêncio, a um comandante e gerar a prole. E conforme a história avança, a submissão e as memórias de um passado diferente convergem em uma tentativa de buscar um sentido para a vida.

O primeiro grande diferencial do livro está no fato de que, através de digressões, a protagonista revele como a tomada do poder se deu. Ao contrário de outras distopias, que focam na opressão de um sistema já instaurado e relegam a origem deste a rápidas menções, O Conto da Aia reserva inúmeras passagens na abordagem de como houve este processo.

As memórias de Offred, cujo nome original nunca é revelado, destinam-se não somente a explorar os sentimentos da protagonistas como também a revelar os elementos na sociedade que propiciaram a instauração de um sistema autoritário teocrático e de como as mudanças se deram de forma gradativa. Revela, portanto, perigos existentes também nas sociedades democráticas contemporâneas.

Todavia, por óbvio, o maior diferencial de O Conto da Aia é a abordagem realizada em relação ao papel da mulher, a maior vítima deste sistema fictício. O poder que antes era exercido de forma velada pelos homens, escancara-se sob o mito de proteção. A justificativa de uma guerra e de uma entidade cuja crença é imposta aos cidadãos é suficiente para que os homens determinem de que modo querem exercer seu controle. Deste modo separam as mulheres, silenciam-nas, isolam-nas, classificam-nas sob uma moralidade que não seguem plenamente, pois por trás dela praticam atos que recriminam publicamente, exercendo “os direitos tácitos de seres do sexo masculino”.

Offred vem de uma criação feminista. Sua mãe era uma ativista e, embora ela não seja uma militante, a discussão sobre a sua liberdade e seu papel na sociedade sempre estiveram presentes, por exemplo, em seus diálogos com a melhor amiga Moira, uma mulher homossexual, cujo destino é desconhecido pela protagonista.

Então, Offred consegue realizar um paralelo entre as demandas sociais de uma sociedade pretensamente democrática e a opressão do regime do tempo presente. E ainda assim, entrega-se a uma espécie de resistência, juntamente à Aia Ofglen, com bastante receio, sobretudo porque possui uma filha pequena, da qual fora separada quando os novos tempos chegaram.

O Conto de Aia
A autora Margaret Atwood no set de filmagens da série The Handmaid’s Tale, junto com a atriz Elizabeth Moss. (Foto: The Washington Post)

Certamente é um livro poderoso. É uma obra com um olhar feminino sobre a opressão das mulheres e o quão frágeis são os direitos adquiridos ao longo dos últimos anos. Margaret Atwood consegue descrever de uma forma não pesada – embora, por vezes, possa-se ter um sentimento de asco em relação a algumas atitudes dos personagens masculinos – como a opressão é ainda mascarada pelo mito de que às mulheres foi concedido pleno poder sobre suas vidas. Nesta sociedade distópica, não muito diferente da sociedade contemporânea, a mulher é uma escrava das vontades masculinas independentemente de sua posição, seja uma Esposa, uma Aia ou uma prostituta.

A leitura é rápida e instigante, na medida que se deseja conhecer o passado e o futuro de Offred. O livro é bem escrito, mesclando ficção científica com uma profunda reflexão social. E embora os personagens secundários não sejam muito explorados individualmente, não são subutilizados. Todos possuem um papel de importância e contribuem para o resultado da obra: um livro com diferencial, que deveria ter mais reconhecimento do que o que recebe.

“Talvez nada disso seja a respeito de controle. Talvez não seja realmente sobre quem pode possuir quem, quem pode fazer o que com quem e sair impune, mesmo que seja até levar à morte. Talvez não seja a respeito de quem pode se sentar e quem tem de se ajoelhar ou ficar de pé ou se deitar, de pernas abertas arreganhadas. Talvez seja sobre quem pode fazer o que com quem e ser perdoado por isso. Nunca me diga que isso dá no mesmo.”

– O Conto de Aia


O Conto da Aia

Autora: Margaret Atwood

Editora Rocco

368 páginas

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Autora

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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