[CINEMA] Tully: Paternidade negligente, mães sobrecarregadas e “Afinal, era só pedir”

[CINEMA] Tully: Paternidade negligente, mães sobrecarregadas e “Afinal, era só pedir”

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O longa metragem Tully, que estreia hoje (24 de maio) nos cinemas, conta um breve momento da história de vida de Marlo (vivida por Charlize Théron) e suas dores com a maternidade.

Charlize Théron repete a parceria do filme “Young Adults”, com o diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody, que também trabalharam juntos em “Juno”. O resultado do reencontro do trio é um filme bonito sobre o quanto pode ser dura a maternidade para muitas mulheres. O longa quase consegue o feito de transmitir o real sofrimento e o abandono que muitas mães sentem e experimentam nesse período, mesmo quando vivem com um marido ou companheiro. Quase, pois passados 1h e 46 minutos de filme, onde é possível sentir grande identificação pela protagonista e sua história, saímos do cinema com a impressão de que Marlo acaba sendo culpabilizada por todas as dificuldades vividas por ela nesse período de sua vida.

Marlo é uma mulher de uns 40 anos que está na reta final de sua terceira gravidez. Ela é casada com Drew (vivido por Ron Livingston), cujo trabalho ocupa a maior parte de seu tempo. Apesar disso, a família vive uma vida espartana, sem grandes luxos. Por sua vez, o irmão de Marlo, Craig (Mark Duplass), um bem-sucedido empresário, se oferece para pagar a contratação de uma babá, que ele recomenda muitíssimo.

Tully
Marlo (Charlize Théron)

É a partir desse ponto que Tully ganha força e começamos e entender que essa é muito mais do que uma história sobre maternidade. Obviamente, somos levadas a acreditar que o longa reconhece todas as dificuldades que a maternidade acarreta às mulheres e que está sendo empático com a situação abusiva vivida pela protagonista, principalmente quando mostra as cenas onde Marlo está sobrecarregada com os cuidados dos filhos, da casa e do casamento.

Sem poupar a imagem do marido de Marlo, o filme descreve como um sujeito que está sempre ocupado com seu trabalho e que em seus momentos livres dedica-se a jogar videogame. Drew é constantemente desatento e negligente aos filhos e à companheira, e chega a ignorar o estado físico dela, visivelmente lamentável.

Tully
Marlo (Charlize Théron) e Drew (Ron Livingston)

É satisfatório assistir um filme que trata com respeito as mulheres, que seja por escolha própria ou não tornam-se mães, dobrando suas cargas de trabalho e perdendo suas identidades, em meio a todas as tarefas que (fora convencionado pela cultura paternalista das sociedades desde sempre) ficam sob suas responsabilidades, sem nenhuma divisão ou justiça.

A entrada da babá que dá nome ao filme, Tully (a cativante Mackenzie Davis – “Blade Runner 2049”, “Always Shine“), acontece quando Marlo está esgotada física e emocionalmente, já inclusive colocando a vida de seus filhos em perigo, e por isso decide contratar a babá que seu irmão recomendou e que prometeu pagar. Esse é um trecho mais colorido, alegre e delicado do filme, pois é o momento em que Marlo divide com a espectadora um pouco mais de sua história e os aspectos de sua vida que ficaram para trás, mas que a fazem pensar sobre suas escolhas e para onde a levaram.

Quando nos aproximamos da reta final da sessão, o filme já ganha o nosso coração – de mulher, de mãe, de feminista e de ser humano –, contudo sofre uma reviravolta em sua história e passamos a ter a sensação de que compramos gato por lebre, ou seja, nos sentir enganadas.

Tully
Tully (Mackenzie Davis) e Marlo (Charlize Théron)
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Trecho com spoiler [O final do filme faz uma revelação sobre a protagonista e uma afirmação, que nos leva a crer que Marlo é uma mulher que está sofrendo com algum distúrbio químico causado pela gestação, o que a faz se comportar de maneira diferente da realidade, e que seu marido sempre fez tudo o que pôde para ajudá-la, só não fez mais, pois ela nunca pediu ajuda]. Fim do spoiler

Há dois questionamentos nesse momento do filme. O primeiro foi a triste constatação de que no fim, Tully era mais um filme que poderia ter apoiado até o final a verdadeira questão da maternidade, mas que não teve êxito. Logo depois nos lembramos de um quadrinho feminista francês, que circulou na internet no final do ano passado (veja o quadrinho aqui) e, como num reflexo, disse em voz alta dentro do cinema: “Era só pedir” (nome dado ao quadrinho e que tem uma conotação altamente sarcástica).

Portanto, possivelmente poucas de nós faremos a mesma leitura ou captaremos as mesmas impressões a respeito do longa, mas é importante frisar que o consideramos, em certa medida, machista e elitista, pois parece sugerir que através do dinheiro, a maternidade e as questões de disparidade de gênero – que acontecem inclusive nos casamentos – podem ser superadas e todas poderíamos viver muito melhor se fôssemos ricas. Contudo, o que reduz a questão da desigualdade, em todos os aspectos entre homens e mulheres, a somente uma questão social e financeira, e não ao fato de que essa desigualdade que favorece somente aos homens, só nos coloca a mercê de relações – pessoais, sociais e de trabalho – cheias de violência (verbal, física ou psicológica), brutalidades, desamparo, abusos, baixos salários, rotinas de trabalho extenuantes, tripla jornada, e por aí a fora.

De qualquer forma, apesar de analisarmos os aspectos sociais sobre o filme, em muitos momentos, durante a sessão, conseguimos compreender exatamente o que Marlo estava sentindo. Charlize Théron está impecável no papel dessa mulher madura, que sente todas as ambiguidades e peso de ser uma mulher e transmite toda essa verdade e nosso estigma em sua interpretação.


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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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