Hamnet é uma das grandes apostas dos críticos para a temporada de premiações de 2026. O filme dirigido por Chloe Zhao é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Maggie O’Farrell, que também assina o roteiro do longa junto com Zhao.
Hamnet estreou no Brasil durante o encerramento do Festival do Rio 2025, mas tem previsão de estreia em todos os cinemas do país para janeiro de 2026. O filme é protagonizado por Jessie Buckley e também conta com Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn e Noah Jupe.
Hamnet: A vida antes de Hamlet
O longa conta a história dos acontecimentos que teriam inspirado William Shakespeare a escrever Hamlet, uma de suas peças mais famosas. Mas, faz isso principalmente a partir do ponto de vista de Agnes, esposa de Shakespeare e mãe de seus três filhos.
A história apresenta Agnes como uma mulher incomum para a época. As pessoas da região em que vivem a reconhecem como a filha de uma bruxa da floresta e que segue os costumes da mãe.
Agnes, aparece como uma mulher de espírito livre e independente, que recusa certas convenções sociais da época. Daí surge a sua identificação com William, que compartilha do seu desejo por liberdade.
Porém, por ser o filho homem de uma família de comerciantes artesãos, no século XVI, é William quem tem maiores condições para exercer a sua liberdade.
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É nesse contraste que nascem os conflitos entre as personagens e se desenvolve o grande sofrimento que marca a trama. Agnes precisa enfrentar sozinha diversas situações que a levam ao limite. Incluindo encarar a morte de um dos seus filhos.
Portanto, o filme explora sentimentos que fazem parte da experiência humana, desde o amor incondicional, ao luto e o vazio da perda.
O filme de Zhao aborda de forma muito sensível e crua o dia a dia da construção de laços entre pessoas de uma mesma família e o que um profundo trauma pode causar a essas relações.
De forma sensível e direta, o filme de Zhao aborda o cotidiano da construção de laços entre membros de uma mesma família e o impacto que um trauma profundo pode causar nessas relações.
A história aborda diferentes formas de amor — o amor romântico, o amor entre irmãos e o amor pelos próprios filhos. Ao mesmo tempo, revela como essas relações familiares podem ser complexas, imperfeitas e, em alguns casos, marcadas pela violência.
Agnes
A força do filme reside na complexa e hipnotizante personagem Agnes, interpretada pela atriz irlandesa Jessie Buckley, em uma das performances mais impressionantes do ano.
Buckley transmite toda a profundidade e ambiguidade de Agnes apenas com o olhar e o gestual. Em poucos minutos de tela, a espectadora já se vê capturado pela personagem, buscando compreendê-la e decifrá-la.
Esse entendimento e a entrega da atriz são essenciais para a narrativa. Como se trata de uma adaptação de um livro que explora sobretudo sentimentos e monólogos internos, o filme poderia facilmente incorrer em excessos de diálogos expositivos ou em explicações desnecessárias sobre as personagens.
Contudo, o equilíbrio entre um roteiro primoroso, a direção sensível de Chloé Zhao e o desempenho do elenco torna qualquer explicação redundante.
Somos transportadas para dentro daquela família de maneira tão sincera que o momento de maior impacto do filme atinge não apenas as personagens, mas também a espectadora. Buckley libera o elenco como um centro magnético, que informa as reações e as relações à sua volta.

É preciso mencionar também o excelente trabalho de Paul Mescal e Emily Watson, como William e Mary Shakespeare. Ambos funcionam como bases sólidas para a performance de Jessie Buckley, ora complementando, ora contrapondo o magnetismo de Agnes.
Mescal é um coadjuvante à altura, que corresponde a intensidade de Buckley. Além deles, o jovem Jacob Jupe é outro destaque absoluto do filme: sua interpretação de Hamnet não fica atrás nem mesmo diante dos veteranos do elenco.
Do palco à tela
O estilo de filmagem de Chloé Zhao, como em seus trabalhos anteriores, entrega aos atores a responsabilidade de construir a conexão com o público.
Como já mencionado, o roteiro privilegia o princípio do “mostre, não conte” — a caracterização das personagens se dá principalmente pelo que vemos em tela, com pouco recurso a diálogos expositivos.
Zhao posiciona a câmera como uma observadora silenciosa daquelas vidas; ela apenas observa, até que a própria espectadora se esqueça de sua presença.
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A direção de fotografia de Łukasz Żal é outro trunfo do longa. O cinematógrafo é conhecido por trabalhos em Zona de Interesse (2023), Guerra Fria (2018) e Com Amor, Vincent (2017).
Embora esses filmes sejam muito distintos entre si, todos revelam a sensibilidade de Żal em adaptar sua estética às exigências narrativas. Em Hamnet, não é diferente: a fotografia se integra organicamente à narrativa, ampliando sua força emocional.
A construção da imagem faz uma alusão direta à relação entre plateia e palco do teatro. Na maior parte das cenas, o olhar da câmera se posiciona em quadros abertos. Quando o enquadramento se aproxima dos atores, a experiência se torna mais íntima e sensível.
A trilha sonora, assinada por Max Richter, é outro ponto alto do filme: ela conduz a espectadora à catarse, entregando um dos momentos mais catárticos do cinema de 2025.

Hamnet antes de Hamlet
Hamnet constrói uma narrativa por trás da criação de um dos textos mais emblemáticos da língua inglesa, Hamlet.
Enquanto Maggie O’Farrell se baseou em pesquisas sobre a vida familiar de William Shakespeare, a história que inspirou o filme é, antes de tudo, uma ficção especulativa. A partir dessa liberdade criativa, a autora aborda temas como amor, liberdade, família e luto — e a adaptação dirigida por Chloé Zhao respeita e dá continuidade ao trabalho de O’Farrell.
Assim como Hamlet, Hamnet parte de uma história de perdas para refletir sobre o nosso lugar no mundo, sobre a vida e os afetos que nos ceram. Mas, principalmente, é um filme sobre como a arte tem o poder de canalizar os sentimentos mais difíceis e promover caminhos de cura.





