Esplendor: a sensorialidade de Naomi Kawase

Esplendor: a sensorialidade de Naomi Kawase

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A diretora Naomi Kawase é conhecida por seus filmes sensoriais e sensíveis. Sua nova obra, Esplendor, não foge a essa linha. (Já falamos anteriormente sobre o filme aqui quando assistimos na 41ª Mostra de SP). A história acompanha a jovem Misako (Ayame Misaki), que trabalha fazendo audiodescrição de filmes para deficientes visuais. Nas sessões de teste, ela recebe as opiniões de uma plateia voluntária sobre a adequação do texto. É aí que ela conhece Masaya Nakamori (Masatoshi Nagase), um fotógrafo mais velho que está perdendo lentamente a visão, e é bastante crítico ao trabalho dela. 

Esplendor revolve sobre o tema da empatia e habilidade de comunicação com quem é diferente de si. Através dos personagens que inicialmente entram em embate, mas ao mesmo tempo despertam fascínio um no outro, Kawase evoca as dores das perdas que a vida proporciona, assim como a habilidade de se reconectar com o passado por meio de novas experiências.

Uma das fotografias de Nakamori relembra Misako de um local que visitou com seu falecido pai. O próprio fascínio dela pelo fotógrafo – bem mais velho que ela – sugere sutilmente alguma espécie de compensação pela falta que o pai faz. Quando ela lhe pede que a leve no lugar onde a fotografia foi tirada, o tal beijo que aparece no trailer parece menos atração pelo homem em si, e mais uma tentativa de resgatar o afeto de que ela tanto sente falta.

Esplendor

Já Nakamori, inconformado com a perda da visão, algo realmente custoso para quem trabalha tão diretamente com imagens, não à toa encontra alento numa audiodescritora, alguém que lhe permite enxergar por meio de outros recursos. A aproximação dos dois se dá pelo aprendizado de compreender o mundo por meio de formas não convencionais, utilizando outros sentidos, outras perspectivas. 

O toque é algo sempre presente no cinema de Kawase. Misako toca nas fotografias, quase que tentando sentir a textura da figura captada na imagem; toca nas grades pela rua; fecha os olhos para enxergar a luz do sol de outra maneira e ouvir melhor os barulhos da natureza ao redor. Nakamori também irá se utilizar do toque para finalmente enxergar Misako de uma forma que sua visão deteriorada não mais permite.

Esplendor

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Kawase também utiliza técnicas fílmicas que aproximam as espectadoras dos protagonistas, como câmera subjetiva, mostrando o que eles veem (ou não veem); câmera na mão nos momentos de instabilidade; super closes em seus olhos para captar o máximo de nuance em suas expressões faciais. Não há nada de muito inventivo aqui. Mas o uso dessas técnicas, apesar de convencional, não chega a incomodar. Elas formam uma composição correta e agradável, na maior parte do tempo. A ótima atuação dos protagonistas ajuda bastante na veracidade dos sentimentos dos personagens. Um pouco a mais de “açúcar” e o filme poderia desandar, algo que a trilha sonora quase consegue fazer, sendo presente demais, e tentando direcionar o tom das cenas desnecessariamente.

Há também algumas frases de efeito que talvez procurem deixar um grande impacto, mas que, se encaradas de forma despretensiosa, também não incomodam. Há um quê de honestidade nos filmes de Naomi Kawase, de que ela acredita tanto no que filma, que evoca tanto seu espírito, que é difícil não se sentir tocada por sua delicadeza. Seus filmes são sempre muito sensoriais, trabalhando elementos da fotografia e do som para gerar um repertório emotivo. Mas as histórias nem sempre são tão narrativas quanto em Esplendor, preferindo apostar no não-dito e nas relações implícitas entre os personagens. Talvez as metáforas muito óbvias neste filme tirem um pouco de força dele.

Esplendor

Um dos recursos mais efetivos e elegantes que Esplendor traz é o uso de metalinguagem, ao aplicar à história os mesmos elementos que fazem parte da vida dos personagens – Misako narra literalmente tudo que podemos ver em quadro em algumas cenas em que anda pela rua, como se estivesse audiodescrevendo o filme para nós. O filme dentro do filme que Misako tem que traduzir também faz comentário sobre o próprio filme em que está inserido.

Esplendor é uma obra bastante competente de Kawase. Talvez não a sua melhor, mas ainda assim muito agradável de se assistir. Assim como Misako diz, “eu gosto dos filmes que me dão esperança“, e isso com certeza os trabalhos da diretora continuam trazendo.

Esplendor estreia hoje (10) nos cinemas.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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