[LIVROS] A Quinta Estação: A importância da representatividade dentro da ficção científica

[LIVROS] A Quinta Estação: A importância da representatividade dentro da ficção científica

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No fim do ano passado a Editora Morro Branco nos presenteou com o início da trilogia The Broken Earth, da autora vencedora do Hugo Awards, N.K. Jemisin – inclusive demos essa notícia aqui – intitulado A Quinta Estação. Desde que recebemos a notícia de que o livro havia ganhado o prêmio de Melhor Romance estávamos ansiosas por lê-lo, ainda mais por ser obra de uma autora mulher e negra, duas das minorias mais sub-representadas no mundo da ficção científica. 

Adiantamos que não ficamos decepcionadas, mas, ao contrário, nos vimos em uma luta interna entre lermos rápido para chegarmos a algumas das respostas de nossas infindáveis perguntas e não querer nos despedir do mundo incrível e cruel criado por Jemisin.

Toda a história – pelo menos até onde nos foi possível ler – se passa no mundo da Quietude, dominado e governado por aqueles denominados “quietos”, isto é, os que não nasceram com o poder da orogenia. E o que seria orogenia? Bom, alguns indivíduos da Quietude nascem com o poder de manipular a energia termal, cinética e afins para lidarem, primordialmente, com eventos sísmicos.

Tais indivíduos são vistos como perigosos, sendo ou mortos ou obrigados, para sobreviver, a irem para o Fulcro, uma espécie de academia de reclusão e treinamento aos portadores desse poder. Apesar de serem personagens essenciais ao livro, eles apenas fazem parte da incrível gama de vivencias e características criadas por Jemisin, as quais se intrincam e se relacionam de uma tal forma que a história não se torna em nenhum momento cansativa ou banal.

A Quinta Estação
A autora N. K. Jemisin. Foto: Jordi Cotrina (Reprodução)

A cada página e capítulo somos mais tragadas para as profundezas da Quietude, o que, devido à excelente escrita de Jemisin, é infinitamente prazeroso. Apesar de o livro não nos inserir em tais mundos com muitas explicações, apenas nos jogando no início e em meio a uma batalha social e política, não nos sentimos, ao lê-lo, de nenhuma forma perdidas em meio a quantidade de informações dadas pela autora, já que a forma que nos são apresentadas nos esclarecem e mantém o suspense da história.

Além do mais, foi inserido um apêndice que fornece informações mais detalhadas sobre a história da Quietude, seus habitantes, suas formas de governo e sobre qualquer vocabulário estranho ao leitor que possa surgir. Ao lermos, porém, é fácil nos esquecermos de tal ajuda em meio ao fascinante enredo e suspense que nos são entregues.

Apesar de o mundo da Quietude ser um especialmente cruel, discriminatório e dividido por um sistema similar ao de castas, o tratamento disposto por Jemisin às personagens mulheres e LGBT+ é um que deve servir de exemplo aos autores dentro e fora do mundo da ficção científica, bem como a forma descritiva dos personagens de acordo com suas respectivas cores de pele e traços étnicos.

“Costas-fortes são descartados como os sem-comu quando os tempos ficam difíceis.”

A própria Quietude possui um tipo de ser humano ideal (etnicamente falando), havendo discriminações também pela aparência externa e não apenas pela casta a qual a pessoa pertence. Os discriminados, porém, não são descritos por Jemisin com repulsa ou desdém, muitas vezes, inclusive, reconhecendo sua condição de marginalizados e fazendo observações tão coerente quanto dolorosas sobre o fato.

Não nos passa despercebido o fato que, talvez, tal cuidado com a representação de tais grupos se deva ao fato de a autora pertencer a dois dos maiores grupos marginalizados de nossa atual sociedade, sendo, teoricamente, simples para a mesma ter uma percepção maior de aceitação e respeito. Ao receber a notícia da indicação de A Quinta Estação ao Hugo Awards em 2016, a mesma deu esta declaração:

“Eu imaginei quantos de meus colegas fãs de sci-fi, em um ano marcado pela reação reacionária contra a presença e atuação de pessoas como eu no gênero, iriam votar na história de uma mulher negra, de quarenta e poucos anos com dreadlocks, travando uma luta épica contra as forças da opressão.”

Não conseguimos encontrar nenhum ponto negativo para, efetivamente, criticar na obra de Jemisin. Ao contrário, esperamos que tal obra seja tomada como exemplo de representação e escrita àqueles que leem e àqueles que escrevem, continuando o parâmetro iniciado por Octavia ButlerUrsula K. Le Guin e outras autoras de sci-fi para a representação feminina, LGBT+ e racial nas obras de ficção científica.

O mundo da Quietude por vezes não se parece com um ficcional, nos sendo possível reconhecer os sistemas e as questões sociais, raciais, políticas e econômicas presentes em nosso próprio universo, tal qual uma boa ficção científica. A escrita de Jemisin nos leva a um estado em que não queremos sair do universo criado por ela, mas sim descobrir mais a fundo os segredos que esse mesmo universo esconde, o que nos faz esperar com ainda mais ansiedade pelo lançamento do próximo volume da saga em nosso país. Até lá, temos certeza de que a máxima introduzida pela autora está correta: É ASSIM QUE O MUNDO TERMINA. PELA ÚLTIMA VEZ.

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A Quinta EstaçãoA Quinta Estação

Autora: N. K. Jemisin

Editora Morro Branco

560 páginas

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