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Nós: o terror que explora a jornada de autodescobrimento

Lançado no início de 2019, o segundo thriller psicológico de Jordan Peele “Nós” (ou “Us”, em inglês) é uma das diversas e impressionantes esnobadas das tradicionais premiações do cinema norte-americano. Afastando-se do extremo fator racial que o antecessor “Corra!” se banhou em 2017, dessa vez a obra do diretor aposta em fatores próprios do imaginário da população dos Estados Unidos. A obra “Nós” ainda se apoia na atuação brilhante – para além do elenco certeiro e talentosíssimo – de Lupita Nyong’o.

O filme pega emprestado questões de natureza psicológica há muito questionadas pela humanidade, como “o duplo” e a própria jornada de descobrimento do indivíduo, e as coloca sob uma lente ainda considerada pouco profissional e não levada muito a sério: o terror. A verdadeira natureza humana é – por mais perturbadora que seja – explorada e dissecada ao longo da trama. Porém, o filme ainda oferece um bom mistério capaz de nos manter presas à tela e ansiosas a cada cena.

Talvez por ter sido lançado em março de 2019, ou por ter proximidade a blockbusters como “Vingadores: Ultimato”, o filme ainda não é muito lembrado e citado pelo grande público. Tem, ainda mais que seu antecessor, uma percepção mais indie e alternativa, a qual se propõe a apresentar uma faceta escondida de nós mesmos e dos Estados Unidos. Quanto a isso, o filme abre com uma proposta de pensamento à telespectadora: para o que os túneis subterrâneos em solo norte-americano servem? A qual, adiantamos, não é exatamente respondida ao fim da trama, mas ao invés disso planta novos questionamentos no público.

Filmes de Terror como sessão de terapia

Em um TEDx Talks de 2017, o professor assistente Dr. Steve Schlozman, do departamento de psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard propôs a discussão acerca de filmes de terror. Filmes desse gênero cinematográfico, mais do que quaisquer outros, nos ensinam sobre nós mesmas e sobre a espécie humana como um todo. Em menos de 30 minutos, analisou as escolhas que são realizadas nos filmes do gênero, assim como o que elas refletem – e o que incitam – sobre comportamentos e reações reais fora das telas.

Em “Nós”, nossa psicologia pessoal (inconsciente particular) é constantemente utilizada para criar o imaginário em volta da trama. A ideia de nós mesmas sermos as nossas maiores inimigas, um questionamento recorrente na teoria de desenvolvimento da personalidade de Carl Jung, por exemplo, encontra uma nova forma da trama trazida no filme. É possível, dessa forma, observar como os “clones” podem ser lidos – no mundo real – como o arquétipo psicológico da Sombra. Esse aspecto é explorado por Jung, no sentido de ser ela a detentora de nossos pensamentos e ações primitivas, os quais, no caso da trama, não são controlados pelo “self” de uma pessoa.

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Cena do filme "Nós"
Cena do filme “Nós”. (Imagem: reprodução)

Podemos tratar a trama do filme como, na verdade, uma grande metáfora para o desenvolvimento pessoal humano. É interessante enxergar que os “clones” são apenas as próprias pessoas observando-se em um momento de desequilíbrio psicológico, resultante da desconexão da Sombra com o “self”. Porém, podemos ver os “clones” como pessoas por si mesmas – e não como uma metáfora para o “self” utilizada por Peele. Desta forma, percebemos como a exclusão física e social imposta a eles os afastou do convívio com o restante da sociedade e deu espaço ao crescimento indiscriminado de suas Sombras. Assim, as ações deles – apesar de talvez não justificadas – são motivadas, de fato, por questões psicológicas para além da pincelada superficial de retaliação.

“Todo homem tem uma sombra e, quanto menos ela se incorporar à sua vida consciente, mais escura e densa ela será. De todo modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções.”

– Carl Jung

Jordan Peele brinca, a todo o momento, com a questão do descobrimento de si mesmo, seja em pequena ou em larga escala. Para que servem os túneis? Quem os construiu? De onde vieram os “clones”? Quem os criou? Realizando um paralelo com a humanidade é difícil não relacionar tais questionamentos àqueles realizados por nós há séculos. O filme nos mostra nuances de humanidade e monstruosidade, mesmo que não sabidas, em uma verdadeira cadeia de causa e consequência a qual, apesar da tentativa de quebra pelos “clones”, permanece atuante. Ora, são eles quem iniciam a onda de matança retaliatória contra os “da superfície”. Eles estrategicamente se aproveitam do suspense noturno, porém ao longo da trama notamos como tal ação foi integralmente motivada por atos anteriores e externos a eles, assim como por um anseio libertativo pungente. Na reviravolta final do filme, aliás, é que percebemos como tudo resulta de um simples ato individual e inconsequente.

Na onda da proposta terapêutica de se assistir e pensar filmes de terror, dessa forma, como não seria possível ver nos absurdos teatrais uma razão de profundo desconhecimento e descontrole humano? No mais, como não relacionar o resultado a obsessão por grandeza reconhecidamente deturpada e manipulada da humanidade? Para nós, impossível.

Lupita Nyong'o em "Nós".
Lupita Nyong’o em “Nós”. (Imagem: reprodução)

Negritude vs. Terror

Foi em 1968 que lançou-se o primeiro filme de terror protagonizado por uma personagem negra. “A Noite dos Mortos Vivos” apresentava questionamentos humanos e pertinentes a época em que se situa, assim como, de forma inédita, tratava de questões raciais ainda vistas como um tabu, especialmente em um filme. Mesmo assim, o filme é considerado um marco tanto do cinema de terror quanto do protagonismo negro em filmes de grande repercussão e fora dos gêneros tipicamente reservados a atuação negra, como as famosas comédias pastelão ou as tramas de escravidão.

Passaram-se quase 50 anos – sem contar o remake de 1990 de “Todo Mundo em Pânico” – para um filme do gênero e com protagonismo negro ter sucesso e reconhecimento mundiais. O fato, apesar de impressionante, não causa surpresa, afinal já nos é conhecida a restrição cinematográfica imposta a “minorias” étnico-raciais como um todo. Parece, entretanto, que tal realidade se intensifica quando tratamos do terror. O gênero parece ter sido gerado exclusivamente para atender aos ideais de supremacia protagonista branca, repetindo as mesmas tramas e com, basicamente, as mesmas famílias. Foi apenas com “Corra!” que o grande público foi, observando questões macrossociais. Além disso, também foi reapresentado a possibilidade negra em papéis de destaque também em filmes de terror e por fim, pensamos, redirecionado à análise de questões para além da bolha étnica (e branca).

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No caso de “Nós”, entretanto, não há nenhum claro desenvolvimento de temas raciais, mas isso não se mostra necessariamente como um problema. Ainda que tratemos, e reconheçamos, como a questão de raça é intrínseca a atual existência da comunidade negra, é interessante ver como a abordagem não precisa ser absoluta. Indivíduos negros se individualizam e reconhecem-se como além da simples genética fenotípica e genotípica. Talvez seja por isso que Peele decidiu tratar a trama como a história de uma simples família que teve uma noite ruim. Não há necessidade, nem convenhamos espaço, de se retirar as percepções sociais acerca do papel de cada personagem no mundo atual – negativa ou positivamente – do campo subjetivo e trazê-las ao objetivo.

Cena de "A Noite dos Mortos Vivos" (1968)
Cena do filme “A Noite dos Mortos Vivos”. (Imagem: reprodução)

O abordado nessa texto, é só uma de inúmeras interpretações possíveis à trama de “Nós”. Questões de meritocracia, exclusão social e ciência ainda podem ser, da mesma forma, discutidas e trazidas a tona sobre a história. Para nós, entretanto, a questão mental falou mais alto. A profundidade da mente humana, caçando incessantemente a liberdade absoluta, seja interna ou externa, não nos permite ignorar os paralelos utilizados no filme. A proposta de “Nós” é pessoal e direta; busca fazer-nos pensar, mesmo que inconscientemente, no que alguém seria capaz de fazer para conseguir o que quer. Para se ver livre e sob o céu azul, mesmo que para isso tenha que refazer – ou desfazer – a si mesmo.


Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

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LEIA MULHERES LITERATURA

A conclusão triunfante de “O Céu de Pedra” e a nova dama da ficção científica

No fim de 2019, fomos premiadas com o fim da saga de Essun, Alabaster, Nassun, Hoa e muitos outros, em meio ao que antes pode ser conhecido como “A Quietude”. O capítulo final – pelo menos em forma escrita – da trilogia de sucesso de N. K. Jemisin respondeu perguntas e palpites que foram criados e alimentados nos volumes 1 e 2. Além disso, evidenciou a mente criativa da autora em uma trama tão complexa quanto humana, fazendo jus aos prêmios conquistados em razão de seu excelente e inclusivo trabalho literário em ficção científica. Com personagens racial e sexualmente diversas e múltiplas, a autora conseguiu manter a consistência da trama em “O Céu de Pedra“. Do mesmo modo, conseguiu acrescentar elementos suficientes para manter-nos fisgadas e com enorme dificuldade de largar o livro por mais de um minuto.

Nos volumes anteriores da trilogia, embarcamos na jornada de quem agora é Essun. Em “A Quinta Estação” acompanhamos o início de sua fuga – e jornada – até algum espaço no qual possa se permitir sentir segura, longe do Fulcro, dos quietos irredutivelmente intolerantes e, é claro, dos sanguinários guardiões. No primeiro livro da saga, a autora nos convida à vida de Essun. Consequentemente, somos obrigados a enxergar a urgência de sua situação, o que a autora faz introduzindo-nos ao imenso e absurdamente complexo e novo mundo da Quietude e da sociedade segregada, que a construiu e a ocupa.

Indicando a reconhecida diversidade presente ao longo de sua obra, tão logo somos apresentadas ao mundo da Quietude. Nele, nos circundamos de indivíduos de múltiplos e distintos fenótipos, bem como backgrounds e personalidades. A diversidade étnica-racial, e regional, trazida ao mundo literário por N.K. Jemisin nos lembra da importância da existência de autores não-brancos no circuito.

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N. K. Jemisin
N. K. Jemisin (Foto: reprodução)

Já no segundo livro, “O Portão do Obelisco“, somos levadas à uma viagem ao passado de Essun, descobrindo-a quando foi Syenite e Damaya, para tentar entender suas origens – de forma mais clara e profunda da apresentada anteriormente – bem como a estrutura societária dividida em classes sociais e, quando cabe, sensoriais (quietos e orogenes). Foi nesse livro que o tema da diversidade sexual, já presente na trama de Jemisin – através principalmente de Tonkee, talvez a única mulher trans da trilogia – encontrou novas faces e dinâmicas com as quais se firmar, sem, entretanto, tornar-se o ponto principal da história ou mesmo da própria existência das personagens.

Quanto a isso, ressalta-se a importância de não restringir a existência ou a personalidade de alguém – ou de uma personagem – a sua orientação sexual. Tal fato é apenas uma parcela ínfima das características de um ser vivo. E foi isso que Jemisin fez. Apesar de ser demonstrada uma faceta mais humana – e sexual – da protagonista, nem sua história e tampouco seu desenvolvimento se resumiram a isso; fizeram parte de seu amadurecimento, por certo, mas não sobrepuseram sua visão de si – ou dos demais – como humana.

Em “O Portão do Obelisco”, ademais, apresenta-se a faceta de “Essun-mãe” de forma concreta e não somente com o abstracionismo de lembranças e flashbacks da protagonista. Ao trazer à tona não apenas a sobrevivência de Nassun, mas a própria descoberta dela como uma poderosa orogene, bem como a existência de outra criança – Corundum – cria-se um novo dinamismo e dá-se um novo ângulo à trama. Um ângulo que explica quem é Essun e o que ocorreu, assim como o que foi preciso que ela visse e vivesse, para ela abandonar Syenite (e Damaya).

Assim como grande parte daqueles marginalizados pelo sistema governamental dominante e desequilibrado, a protagonista sofreu diversas perdas. Apesar de decorrerem de fatos e situações para além de seu controle pessoal, são consequências de ações determinantes passadas que ainda ressoam na sociedade presente. Desde a infância e até a vida adulta. É sobre este olhar que baseia-se o capítulo final da trilogia.

Damaya, Syenite e Essun, personagens de N. K. Jemisin
Damaya, Syenite e Essun. Arte por spaceteatime.tumblr (reprodução)

Agora, com a certeza da sobrevivência de Nassun e mais ou menos de seu paradeiro, Essun está completamente focada na busca da filha. Entretanto, essa não é a única faceta da trama. Para além do protagonismo absoluto de Essun – e aprofundando-se nos significados do que é um orogene, bem como de sua origem – conhecemos a história antes mesmo da história. Ocorre que, assim como foi indicado nos livros anteriores, existe uma força além do poder dos humanos. Esta força tem o poder de e a influência sobre os eventos que ocorrem na superfície. Ademais, além da inquietante ação paralela – para o mal ou para o bem – dos comedores de pedra (Hoa não é o único, se se lembram bem), o novo mistério revelado através dos relatos passados costuram mais fortemente os fios da trama de forma ainda mais intrincada.

Os sinais são decodificados e as explicações são dadas – assim como a historicidade dos relatos – de maneira pormenorizada. Porém, o fator fantasioso da trama não é perdido. Afinal, apesar de nós, no mundo real, termos diversos folclores e “explicações” espirituais para acontecimentos humanos e naturais, é certo que tudo não passa – isto é, aquilo não explicado pela ciência – de suposições e lendas culturais. No livro, entretanto, a história originária deixa o aspecto folclórico para trás e apresenta-se em um contexto espiritual e empírico.

Ao terminarmos o segundo volume da trama, somos deixadas como uma solução para o fim da estação. Tanto Essun quanto Nassun descobrem, de formas tão distintas quanto traumáticas, que para acabar com o mundo e, simultaneamente, salvar a humanidade, será necessária uma manobra mista de orogenia e magia para trazer a Lua de volta ao eixo terrestre. O que nenhuma das duas sabia, e é isso o acompanhado ao longo das quase 400 páginas de história, é como tal ato seria extenuante ao ponto de acarretar uma mudança inimaginável.

Mapa d'A Quietude, da trilogia de N. K. Jemisin
Mapa d’A Quietude.

Ora, não vamos mentir, havia dicas e possibilidades de ligarmos os pontos , mas ainda assim o fim apresentado em “O Céu de Pedra” foi de tirar o fôlego. O desenvolver das relações humanas, entretanto, foram – como sempre – as verdadeiras protagonistas da trama, a qual se fundamentou (desde o início) na interação inter e intra-pessoal para o processo de criação da história. São as emoções humanas, mesmo que derivadas de seres aparentemente inanimados, que iniciaram e puseram fim a trama. Dessa forma, são elas que continuam a ressoar conosco mesmo após o fim do livro.

Apesar da maestria com que a epopeia sci-fi de Jemisin foi escrita, não pudemos deixar de lado como esta obra pareceu corrida em relação às anteriores. Veja bem, a qualidade de escrita e de construção da autora não sofreu nenhuma queda grave. Entretanto, a quantidade de informações trazidas no último capítulo da saga – em contrapartida às relativamente poucas páginas de história – fez com que a apresentação, a explicação e o fechamento da trama nos parecesse um pouco corrido e “um em cima do outro”. Mas talvez tenha sido esse o objetivo da autora: não nos dar tempo de digerir as informações, visto que seus próprios personagens não tinham muito.

Não há dúvidas de que “O Céu de Pedra” foi um final incrível de uma autora estreante e da qual ainda se conhece pouco do Brasil. N.K. Jemisin guarda o melhor e o mais chocante para o final, mas não abandona a maneira cadenciada e conexa de contar suas histórias. Um dos poucos livros, nos recentes anos, que lemos e ficamos realmente chateadas por não ter mais nenhuma página para devorarmos e imaginarmos a vida e a história dessa nova Quietude (que talvez nem seja mais Quietude). Pois é, temos uma nova dama na ficção científica.


O Céu De PedraO Céu De Pedra

N. K. Jemisin

512 páginas

Editora Morro Branco

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Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.

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CINEMA

Harriet: uma rasa narrativa abolicionista

Harriet“, o filme responsável pela única indicação de uma pessoa não negra a um Oscar de atuação, na edição desse ano da premiação, trata-se do retrato adaptado da história da grande ativista abolicionista norte-americana, Harriet Tubman. Em seu quinto filme como diretora, Kasi Lemmons se propõe a contar a história da famosa ativista dos primórdios do movimento negro, a qual dedicou a maior parte de sua vida à libertação dos corpos escravizados, de 1850 até a sua morte, em 1913.

A proposta, por si só, de realizar uma cinebiografia de uma personalidade tão importante para o movimento negro mundial – e para o movimento pró direitos humanos como um todo – é incrível e digna de expectativa, sendo a escolha da atriz Cynthia Erivo (conhecida por dar vida à Celie Johnson, na versão musical de “A Cor Púrpura”, na Broadway) uma aposta inteligente. A trama é contada de maneira poética e artística, seja pelos momentos musicais ou pela bela fotografia, sendo a duração diminuta de duas horas e cinco minutos, incrivelmente, insuficiente.

“Harriet”- o filme e não a personagem – inicia-se com um conjunto dramático de cenas do passado e do futuro – visto que a protagonista tem visões resultantes de um traumatismo no crânio quando ainda criança – as quais misturam momentos de traumas escravistas, como a venda das irmãs de Harriet, com símbolos premonitórios. Nesse momento, a lenda Harriet Tubman, nascida no condado de Dochester, em Maryland, Estados Unidos, por volta de março de 1822, ainda era conhecida como Araminta “Misty” Ross Tubman. E conforme o filme mostrará mais tarde, a ativista abandonou seu nome de batismo ao alcançar a liberdade na Filadélfia. Portanto, “Harriet” é o nome que marca a sua liberdade, em 1849, quando escapa. 

Canções como ferramentas de fuga e a utilização divina em “Harriet”

Harriet Tubman (esquerda) e a atriz Cynthia Erivo.
Harriet Tubman (esquerda) e a atriz Cynthia Erivo.

Sabe-se que o canto era um elemento importante aos negros escravizados, especialmente nos Estados Unidos, e este se mostra logo no início do filme. Quando segue para sua fuga, Misty (Cynthia Erivo) se utiliza do canto para avisar aos seus familiares que está partindo sozinha, sendo a canção uma forma de codificação entre os negros acerca de planos de fuga e de efetivas execuções de tais planos. Contudo, em nenhum momento do filme o uso do canto para tal fim é explicado; parece, na verdade, que as músicas foram jogadas em meio à trama como um recurso narrativo mal colocado, o qual não aparenta ter nenhum sentido lógico a não ser para mostrar o talento de Erivo.

Em relação à Misty, particularmente, o canto se conecta com sua devoção absoluta à Deus. Devoção esta que é intensamente explorada na trama, sendo lembrada e evocada de maneira que chega a ser cansativa. As visões da protagonista são reconhecidas como sinais divinos por ela, criando-se uma fé praticamente inabalável. Ocorre que, apesar da crença de as visões serem sinais divinos, como pessoa não religiosa que escreve em um site que se propõe laico, é com estranheza e descrença que absorvi tal escolha narrativa de Kasi Lemmons.

Em um filme, mesmo que biográfico, é necessário, por vezes, “embelezar” fatos para torná-los dignos da cinematografia. Mas a fantasia narrativa de “Harriet”, criada para responsabilizar as fugas dos proprietários e dos caçadores de escravos a, unicamente, uma força divina extracorpórea, é desnecessária, para dizer o mínimo. A religiosidade da protagonista, visto que foi uma parte importante de sua vida e criação, tem um papel importante no filme, porém sua utilização foi levada ao extremo e quase levou a trama a desviar-se de sua verdadeira protagonista, Misty.

Cynthia Erivo & Janelle Monae em Harriet
Cynthia Erivo e Janelle Monae em “Harriet”. (Foto: reprodução)

Nesse momento, todavia, após fugas e salvamentos bem sucedidos, o nome Misty havia sido abandonado de vez pelo nome Harriet. A figura tornava-se aquilo que conhecemos hoje: uma ativista e abolicionista negra que dedicou a sua vida à libertação de outros negros escravizados e à garantia do fim do regime escravocrata no sul dos Estados Unidos. Sozinha, fez 13 missões de resgate e libertou 70 escravos. Em meio a Guerra Civil norte-americana, guiou o ataque a uma balsa no rio Combahee, o qual libertou, aproximadamente, 700 escravos.

Diz-se que a verdadeira Harriet bradou “Liberdade ou morte; se eu não posso ter uma, eu terei a outra“, e é esse espírito que moveu a ativista na luta à libertação de negros escravizados por anos, até a sua morte. A Harriet retratada no filme, e este relato não foi encontrado em fontes externas, até ameaça seus companheiros negros com sua pistola para à fuga, o que reforça o imediatismo de liberdade buscado pela protagonista. É curioso ver o desespero armado de Harriet, e com certeza surpreendente, mas não nos cabe ignorar a urgência enfrentada pela personagem nos momentos de fuga, nos quais a morte era a única opção de liberdade mental caso a corpórea falhasse. Harriet estava em uma posição de liderança, ainda vista com maus olhos e estranheza quando ocupada por uma mulher negra, na qual necessitava demostrar força, controle e certeza extremas, não cabendo nenhuma hesitação.

Há forma certa para se fazer um filme histórico?

Elenco e diretora Kasi Lemmons nos bastidores da gravação de "Harriet".
Elenco e diretora Kasi Lemmons nos bastidores da gravação de “Harriet”. (Foto: reprodução)

Foi impossível, ao longo do filme, não compará-lo com o mais recente exemplo de “filem escravocrata”, o vencedor do Oscar de Melhor Filme de 2014, “12 Anos de Escravidão”. Ambos os filmes se passam, em parte, mais ou menos na mesma época, isto é, no período de 1840 a 1850. 

No filme de Steve McQueen, também uma cinebiografia, a contação da história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é feita de maneira mais dramática, carregada e silenciosa. O peso do trauma vivido pelo protagonista – de livre para escravo – e dos demais escravos retratados é construído de forma cadencial e zelosa para garantir que a telespectadora sinta, na medida do possível, as emoções de cada personagem. Nesse caso, não é uma história de esperança e superação, mas de dor profunda e latente desespero por não sabermos o fim real das personagens.

No caso de “Harriet”, apesar do contexto histórico ser igualmente pesado quando consumido, ele parece, de certa forma, mais leve. As grandes cenas de confronto entre Harriet e o mundo, a musicalidade deslocada e a obsessiva e estranha caçada de Harriet pelo filho de seu proprietário legal falecido – parece que só fizeram um papel qualquer para pôr o namorado da Taylor Swift – fazem com que o filme perca, pela forma com que tais elementos foram dispostos na trama, a sua merecida seriedade. Como já fez “A Cor Púrpura”, por exemplo, é possível mesclar a narração de uma história série com leveza e até partes humorísticas sem perder o rumo, mas não foi o caso visto em “Harriet”.

Cena de "A Cor Púrpura" (1985)
Cena de “A Cor Púrpura” (1985). Foto: divulgação

Ao fim do filme, embora as atuações, em particular, não devam ser responsabilizadas, parece mais que assistimos à um vídeo clipe, com o contexto jogado sem muitas explicações e às pressas. O longa é carregado nas costas por Cynthia Erivo; ela, em meio a um elenco diverso e talentoso, foi a única que conseguiu se destacar e se livrar da proposta narrativa fraca trazida por Lemmons. Ao depender de momentos narrativos, e não da trama inteira, o filme parece mais uma série longa demais. Portanto, com uma diretora e roteirista negra, falando de uma heroína negra, é triste ver como a trama parece incompleta e deficiente. 

Os trabalhos primorosos em iluminação, fotografia e sonoplastia passam despercebidos em meio à correria narrativa da trama. Nem mesmo a voz radiante e simbólica de Nina Simone, cantando sobre características presentes nas fugas de escravos, consegue nos trazer de volta ao envolvimento pleno na trama. 

#Oscarsowhite 2020 (mais do mesmo da Academia)

Como dito no início, “Harriet” é o responsável pela única indicação de uma pessoa não branca – já que Antonio Banderas é, sim, branco e europeu – a edição do Oscar de 2020. Não se questiona, por certo, o merecimento da atriz à indicação, mas sim o fato dela ser a única mulher não branca indicada em um ano no qual a diversidade cinematográfica falou mais alto em qualquer sala de cinema.

O ano de 2019, apesar de seus inúmeros desapontamentos, foi o responsável pelo aparecimento de muitas e diversas histórias disponíveis ao grande público. “As Golpistas”, “Parasita“, “Us“, “A Despedida”, “Atlantique“, “Adoráveis Mulheres“, só para citar muitos alguns. Impressiona – ou, na verdade, não – que ainda tenhamos que apontar a falta de diversidade alarmante de grandes premiações norte-americanas e europeias, como o BAFTA. No ano, apenas à “Parasita” foi permitido suprir, apesar de não expressamente falada, a “cota diversidade” das premiações ocidentais, ignorando-se os demais excelentes trabalhos de pessoas não-brancas.

Cena de "Harriet"
Cena de “Harriet”, longa de Kasi Lemmons. (Foto: reprodução)
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À Cynthia Erivo, denunciamos, foi permitida a indicação por estar representando algo confortável aos olhos incolores e conservadores da Academia, isto é, a escravidão de corpos negros. Mesmo que represente uma personagem tão emblemática quanto Harriet Tubman, a trama de “Harriet” ainda se trata de uma narrativa escravocrata que reflete o poderio legal de brancos sobre negros, mas não a vitória propriamente dita destes.

Ora, é mostrado no filme como a fuga e a libertação dos negros só é possível com a ajuda de aliados brancos; isto não é um problema por si só, mas somando-se a dependência religiosa dos feitos de Harriet, vê-se como a autonomia das personagens negras não é respeitada nem plenamente explorada. A indicação foi, repetindo-se os exemplos dos anos anteriores (como a indicação e a vitória de Lupita Nyong’o), uma aposta segura para a Academia de prezar pela unidade étnica em histórias de significado expressivo. Quanto a nós, permanecemos com o mesmo disco arranhado em 2020.


Edição e revisão por Isabelle Simões.
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MÚSICA

Lizzo: sobre se sentir bem pra c#*@lho

No início de 2017, fizemos um texto sobre uma nova – e na época desconhecida do grande público – cantora americana, que misturava ritmos de pop e R&B com letras sobre, basicamente, autoestima e empoderamento. Trazendo uma proposta fundada no amor próprio sobre um biotipo e sobre uma etnia que são mais hostilizados do que celebrados, tal cantora apresenta uma faceta mais real e inclusiva, bem como faz da mulher, e somente dela, o centro da narrativa, em um cenário musical que segue em sua fórmula pétrea de preferência pelo europeu em detrimento do “exótico”. A cantora em questão, como já devem ter notado – ou como irão notar agora – é Lizzo.

O ano de 2019 deve ser o ano da Lizzo. Com um álbum musical que já se tornou atemporal, entrou no seleto grupo de cantoras negras a atingirem o #1 da Billboard (junto com Beyoncé, Rihanna, Janelle Monáe e Cardi B) e também de rappers femininas a alcançarem o mesmo feito (junto com Cardi B, Lauryn Hill, Iggy Azalea, Lil’ Kim e Shawnna). Além disso, a possibilidade de ser indicada para um prêmio Grammy (em uma possível interpretação favorável da regra¹) promete consagrar o atual ano como o divisor de águas da carreira da cantora.

Preta e gorda: Lizzo não pede desculpas para a autoconfiança

Apesar de tais adjetivos, tanto na língua portuguesa quanto na maioria das demais, ainda serem confundidos com ofensas, principalmente por aqueles que acreditam na inferioridade de pessoas que não se adequam ao padrão de beleza eurocêntrico e tamanho 36, isso nunca foi um problema para Lizzo.

Melissa Viviane Jefferson, nascida em Detroit, Michigan, há 31 anos, sempre foi gorda e, bem, negra. Tendo sempre existido em grupos de antiga marginalização, a cantora não teve escolha – assim como muitos iguais a ela, não tem – a não ser se impor, e para a nossa sorte, ela escolheu fazê-lo principalmente através da música.

infância
Lizzo quando bebê. (reprodução)

Lizzo disse em uma entrevista comandada por Sam Smith, outro cantor que também está quebrando barreiras, para a V Magazine que irá lutar:

“Eu vou lutar pelo o que eu fui marginalizada, eu vou lutar por todas as pessoas marginalizadas. Além disso, eu sinto honestamente que não existe algo como hétero (risos). Porque dane-se caixas; eu sou muito grande para ser colocada em uma, de qualquer jeito. Eu sou uma p#@ gorda.” 

A coragem da cantora em não tentar ser o que não é, se aceitando completa e intimamente, é o que a faz tão importante no cenário musical, social e, também, político. O amor próprio é um ato que inicia internamente, mas que se estende ao plano exterior para, finalmente, tocar outras pessoas.

Em um pocket show realizado no meio desse ano, pela NPR Music, a cantora praticamente nos obrigou a olharmos para nós mesmas e analisarmos o modo como nos tratarmos e nos vemos. Afinal, é mais do que comum oferecermos um tratamento carinhoso e compreensivo a outros – sejam nossos amigos, amantes ou familiares – e não garantirmos, no mínimo, o mesmo tratamento para nós mesmas, como se não fossemos dignas de sequer uma pouca simpatia.

Não mais. Lizzo exala autoconfiança e certeza de si de uma forma que é impossível não ser contagiada pelas letras de ordem positiva, embaladas por ritmos envolventes e tipicamente urbanos. Os baixos, os pianos, a flauta, as batidas e, na verdade, todo o conjunto da obra-prima que são as experiências musicais da artista entram em nossos ouvidos e permanecem. 

Lizzo performando "Truth Hurts" no Video Music Awards
Lizzo performando “Truth Hurts” no Video Music Awards desse ano. (reprodução)

Quando ela diz que pode, nós acreditamos que podemos. E depois quando ela faz, nós acreditamos que podemos também. É impressionante ver o tamanho das possibilidades que esta artista, ainda no início de sua carreira, abriu à mulheres negras, gordas e não-héteros que ainda enfrentam um tabu e uma perseguição ainda mais ostensivos do que aquele vivido por suas contrapartes brancas, especialmente se estas forem magras e heterossexuais. 

Apesar de sua óbvia maior relação com a comunidade negra, Lizzo não aceita nenhum tipo de limitação. Em suas músicas, em seu guarda-roupa ou em suas ações, a cantora faz aquilo que lhe parece certo e coerente com as suas crenças, convidando a todos a se juntarem à ela, mas não aceitando se limitar pelos rótulos de ninguém: 

“O movimento body-positive é o movimento body-positive, e nós nos cumprimentamos. Nós somos paralelos, mas o meu movimento é o meu movimento. Quando toda a poeira tiver se ajustado em meio a quebra de padrões, eu ainda estarei fazendo isso.

Não vou mudar de repente. Eu vou continuar contando minha história de vida através da música. E se isso é body-positive pra você, amém. Se isso é feminista pra você, amém. Se isso é pró-negro pra você, amém.

Porque senhora, eu sou todas essas coisas.” – Lizzo em entrevista à revista Allure

Ensaio feito para a Allure, em março de 2019
Foto do ensaio feito para a Allure, em março de 2019. (reprodução)

Autêntico multitalento

Pensamos ser impossível ouvir uma das músicas da artista e ver um de seus clipes e não relacioná-la às históricas divas negras da Motown, que igualmente se portavam com uma confiança absoluta e nos inspiravam a aspirar a tal imagem. A diferença de Lizzo, porém, é que ela não esconde as suas vulnerabilidades em músicas sobre amores perdidos, mas sim as celebra, coisa que vimos, mais recentemente, no hit “Truth Hurts” (atualmente a segunda música há mais tempo no topo da Hot 100 da Billboard, apenas atrás de Fancy de Iggy Azalea e Charli XCX).

Na canção, Lizzo mistura questionamentos à fragilidade masculina (“Why men great ‘til they gotta be great?” ou “Por que homens são ótimos até precisarem ser?”, em tradução livre) com constatações de sua própria pessoa (“Even when I’m crying crazy” ou “Mesmo quando eu estou chorando muito”, em tradução livre) e discursos de superação antológicos, que garantem o status de hit automático à música.

Além da potência em sua voz angelical, a cantora também garante que fiquemos embasbacadas quando ela toca sua (agora) icônica flauta – inclusive acreditamos que seu verdadeiro reconhecimento começou quando ela viralizou ao substituir o som pré-gravado de uma de suas músicas pela flauta ao vivo, em razão de uma falha técnica, no festival de música Coachella² – que, curiosamente, foi batizada com algo semelhante ao alter ego de Beyoncé (Shasha Fierce), Sasha Flute.

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Lizzo em uma apresentação, fantasiada de Sailor Moon
Lizzo em uma apresentação, fantasiada de Sailor Moon (reprodução)

Apesar de seu evidente talento, ainda é incômodo perceber como artistas tão excepcionais quanto Lizzo são postas de lado e desvalorizadas pela grande mídia, pelo grande público e mesmo pelas premiações ou, mesmo quando finalmente são reconhecidas (também pela necessária sorte), é apenas após superarem a si mesmas. Ademais, mesmo com isso, é possível que permaneçam na condição de artistas underground e pouco lembradas, distintamente das diversas artistas medianas que, por estarem dentro dos padrões reproduzidos nos meios interno e externo musical, têm maior facilidade de reconhecimento e permanência. 

Lizzo, entretanto, não parece se importar com isso. Veja bem, ela se ama demais para isso – afinal, é o movimento dela – e nos estimula a fazer o mesmo para nós, isto é, criarmos e estimularmos o nosso próprio movimento. O mundo musical parece que já está – ao menos nos últimos anos – tentando se adequar a essa nova leva de artistas e mulheres que buscam cada vez mais a própria beleza apesar dos padrões. 

Ela própria disse que continuará fazendo o que já está fazendo – e acreditamos, quebrando ainda mais barreiras – ao longo de muitos anos. Apesar de sua mensagem já estar ressonando alto em nossas mentes, a permanência de Lizzo no cenário musical continuará a ser extremamente necessária e bem-vinda, inclusive para abrir mais portas a artistas fora dos padrões, enquanto for possível.

Seus dizeres tornaram-se atemporais e capazes de nos fazer questionar nossas próprias vivências e existências, Lizzo faz parecer fácil algo que, infelizmente, não é ensinado às mulheres e nos propõe uma importante reflexão: “Se vocês podem me amar, vocês podem se amar” (“If you can love me, you can love yourself.”).

Lizzo para a Playboy
Lizzo para a Playboy (reprodução)

Talvez ela tenha feito tal questionamento em razão de sua figura despadronizada, mas é possível levar sua fala à própria relação que nós fazemos com a arte. Se podemos amar nossos artistas favoritos, se podemos defendê-los, se podemos apreciá-los, por que não somos capazes de fazer o mesmo para nós mesmas?

Graças a Lizzo, agora podemos.

Notas:
  1. Existe um burburinho sobre a possibilidade de Lizzo ser indicada na categoria de “Best New Artist”: apesar de não ser exatamente uma novata, tendo debutado em 2013, o lançamento de seu primeiro trabalho artístico foi por uma gravadora pequena. Assim, se analisássemos o argumento da Billboard de que “às vezes, eles [jurados da banca do Grammy] não contam lançamentos em pequenas gravadoras independentes, alegando que isso realmente não permitia ao artista uma chance justa de avançar” seria possível contar o debut de Lizzo apenas em 2016, com o EP “Coconut Oil”, que é de assinatura da Atlantic Records. A Academia não confirmou nem negou a exigibilidade da artista para a categoria.

  2. Em sua estreia no festival norte-americano de música, Coachella, desse ano (abril de 2019), Lizzo enfrentou problemas técnicos na reprodução do instrumental pré-gravado de suas músicas desde o início do set. Para contornar a situação, ela passou a – simultaneamente – tocar a flauta e a cantar, isto é, atuando no instrumental e na voz, no show. Tal performance foi gravada e viralizou, o que, acreditamos, contribuiu para o reconhecimento da artista em conjunto com o lançamento do seu último álbum de estúdio “Cuz I Love You”, em 19/04/2019.


Edição realizada por Isabelle Simões.
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CULTURA MÚSICA

Rock in Rio 2019: a periferia finalmente conquistou o asfalto?

Nas últimas edições do famoso – e, para alguns, o maior – festival de música brasileiro, um fenômeno vem ganhando não apenas notoriedade, mas estabilidade: a presença de figuras periféricas nos diversos palcos do Rock in Rio. Mesmo assim, permanece o questionamento de se a conquista do cenário musical – representado, aqui, pelo festival – pelos artistas (socialmente) periféricos é algo permanente e real.

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LEIA MULHERES LITERATURA

“A Fazenda Africana” e o perigo da narrativa única

Curiosamente, ao iniciarmos a leitura de “A Fazenda Africana”, da escritora dinamarquesa Karen Blixen, não esperávamos o desconforto tão grande com a visão colonial do continente africano apresentada pela autora. Pela época da primeira edição do livro, 1937, deveríamos ter imaginado que a perspectiva a ser apresentada seria uma que não traz – ou permite – que a história de uma fazenda africana seja contada pelos olhos e palavras de seus nativos negros.

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ARTE FEMINISMO LITERATURA

“Quando me descobri negra” e o processo de se olhar como negra

Peço licença, antes de iniciar o texto, às leitoras do Delirium Nerd que não são negras. Não, não digo isso para proibi-las de ler a resenha – adianto desde já que se trata de um livro que precisa ser lido por todas as pessoas – mas aqui, tal qual na obra, vou me referir às experiências negras (inclusive a minha) e, por isso, quero falar com meus irmãos e minhas irmãs de pele, de etnia e de história.

Penso que a esta altura, as pessoas que já estão há um tempo dentro do movimento negro devem ter, pelo menos, ouvido falar de Bianca Santana. A autora – e negra descoberta há pouco mais de dez anos – tem sido figura presente (mesmo que apenas como referência) em rodas de conversa pretas, sendo percebida como uma importante figura da contemporaneidade negra. Agora, quatro anos depois de sua primeira edição, eu – também recém descoberta como negra – me permiti ler a obra de talvez maior reconhecimento da autora. “Quando me descobri negra”, da SESI-SP, mais parece meu próprio diário, tanto passado quanto presente, do que um livro originado no meu exterior.

Acredito que para toda pessoa negra criada no Brasil deva ser semelhante. Não somos criadas para nos percebermos como negras. Toda cor de pele – digamos que seja isso o resumo do ser negro – que vá um tom além do bronzeado de peles brancas, torna-se desde o nascimento um motivo de intenso tabu, sendo contornado ao longo da história do país e da vida de seus indivíduos.

Quando me descobri negra
“Quando me descobri negra”, de Bianca Santana (Imagem: reprodução)

O presente cenário político brasileiro serviu para algo essencial: o autodescobrimento. Nós, e ressalto que me refiro a pessoas negras, fomos obrigadas a questionar nosso lugar na sociedade brasileira de uma forma mais aberta e pública; a velha nova face do racismo brasileiro, agora apoiado em figuras governamentais e midiáticas que, mais do que nunca, escancaram o desdém conservadorista e obrigou as pessoas negras a optarem pelo abrir dos olhos. Afinal, quem nunca ouviu como um claro elogio que não é negra, mas sim morena?

“Tenho 30 anos, mas sou negra há dez. Antes, era morena.”

Ao longo da obra “Quando me descobri negra”, incomodamente curta, somos (re) apresentadas como pessoas negras a um mundo que, por nossa sanidade mental, muitas vezes é bloqueado. Ao ler os livros e ver os filmes ou séries para resenhas para o Delirium Nerd, sempre me preocupo em trazer um olhar além de feminino, negro e interseccional, para abarcar uma filosofia que preza por uma real diversidade multicultural. Entretanto, dessa vez, e penso que isso ocorreu em pouquíssimas obras, o olhar já estava assegurado nas palavras e histórias.

Os relatos, tanto os vividos por Bianca quanto os ouvidos por ela, são histórias que nós, mulheres e meninas negras, poderíamos retirar de nossas próprias e individuais vivências e é curioso como as experiências humanas podem se repetir com diferentes indivíduos de distintas idades e épocas. Apesar de não mencionado nas páginas, a figura do racismo estrutural se fez – e faz – presente nas vivências retratadas e relembradas.

Quando me descobri negra
“Quando me descobri negra”, de Bianca Santana (Imagem: reprodução)

“Quando me descobri negra” e a importância de relatar vivências em comum

A conhecida democracia racial, mesmo que mitológica, toma forma pela crença popular da existência de tal regime, especialmente por aqueles descendentes – fisicamente – dos históricos detentores do poder, mesmo que inconscientemente. Criam-se, dessa forma, barreiras virtuais aos indivíduos negros, sendo elas dissimuladas por rituais cotidianos de falsa polidez, sendo alguns retratados em “Quando me descobri negra”.

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Portanto, é evidente que o fator emocional é extremamente presente nas histórias das vidas retratadas. Mais que um  livro ficcional, é emocionante ler os relatos e sentir que é a nossa história que está sendo contada. Até mesmo as situações que não necessariamente passamos, por não usarmos turbante ou por não termos namorado um alemão branco, tocam fundo. Nós, negras, lemos relatos de irmãos e irmãs de vivência, de quem nos entende, de quem nos vê e viu e de quem nós somos. A filosofia ubuntu nunca fez tanto sentido para mim.

A autora de “Quando me descobri negra”, Bianca Santana (Imagem: reprodução)

Quando me descobri negra” é uma representação do contemporâneo perceber negro brasileiro. Somos a todo momento bombardeadas com tentativas de assassinato de nossa história – seja através de nossos corpos ou mesmo de nossas mentes –  e por muito tempo isso foi a regra, mas não pode ser mais.

A tristeza e a angústia seguem presentes, como trazido e sentido no livro, mas eu senti – e acredito que as leitoras também irão – os sentimentos de garra e vontade aumentarem. Não digo isso como um reforço do estereótipo e da percepção social de “negro pobre alegre que encontra a felicidade apesar de tudo”, não. Quero que a tristeza seja utilizada como combustível e que nossas vendas sejam retiradas, de forma a nos afastarmos não apenas do papel social nos imposto, mas principalmente das amarras decoloniais ainda presentes.

Por fim, quero que nos permitamos buscar referências em nossos semelhantes e não apenas como objetos de entretenimento escravista, mas como agentes e protagonistas. Utilizando a filosofia de Carl Jung, quero que olhemos para dentro de nós mesmas e nos descubramos ou acordemos como negras.


Quando me descobri negra

Bianca Santana (Autor), Mateu Velasco (Ilustrador)

Editora SESI-SP

96 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

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LEIA MULHERES LITERATURA

Úrsula: literatura brasileira, romance, escravidão e abordagem sensível

Ainda nos surpreende, para dizer o mínimo, o quão jovem é a atenção dada a autores que não se inserem no ideal – físico e acadêmico, em uma primeira análise – daquilo entendido pela comunidade literária brasileira, como, bem, literatura. Maria Firmina dos Reis é um dos muitos exemplos do histórico – e ainda, infelizmente, recorrente – descaso aos contadores de histórias das mais diversas origens. O romance “Úrsula”, possivelmente o primeiro da autora, foi relançado em 2018 pela Penguin & Companhia das Letras, levando mais de um século para que o mesmo chegasse ao grande público.

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CINEMA

Asterix e o Segredo da Poção Mágica: mais do mesmo no clássico francês

A única animação em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês é a mais nova adaptação da odisseia clássica de Albert Uderzo e René Goscinny, que vem encantando gerações desde seu lançamento, em 1959. Agora, após a queda do poderoso druida Panoramix de uma árvore, este resolve que é hora de buscar um sucessor, deixando Asterix, Obelix e o restante do povo gaulês com a tarefa de se proteger dos ataques dos romanos – liderados por Cesar.

Em “Asterix e o Segredo da Poção Mágica” um novo vilão nos é apresentado, havendo mais um obstáculo aos conhecidos heróis. Em pouco menos de uma hora e meia de filme, entretanto, vemos como as mentalidades dos personagens – ou da equipe de produção por trás do filme, visto que a trama é uma história original desenvolvida ao cinema – permanecem retrógradas e contínuas a uma reprodução de conceitos discriminatórios.

Uma nova aventura para o povo gaulês

Diferentemente dos episódios aventureiros anteriores, os dois protagonistas de “Asterix e o Segredo da Poção Mágica” – junto com Panoramix e a jovem Pectine – precisam se deslocar por todo o território da Gália em busca do sucessor do velho druida.

Asterix e o Segredo da Poção Mágica
Imagem: Asterix e o Segredo da Poção Mágica/divulgação

A conhecida veia cômica da série é intensamente mostrada ao longo de “Asterix e o Segredo da Poção Mágica”, dividindo-se entre piadas diretas e indiretas ou mesmo com algumas curiosas reinterpretações que, talvez, sejam de mais fácil entendimento aos adultos, como uma divertida analogia com a figura do Jesus europeu judaico-cristão. Além do mais, os pequenos porcos selvagens presentes por toda a Gália – e curiosamente capazes de se comunicar com os druidas – são um show a parte, nunca falhando em nos propor boas risadas e, acredite ou não, atuarem para o desenvolvimento da história.

A história, inclusive, embora rápida, é um entretenimento certo. Dentro da simples e recorrente questão de “bem contra o mal”, criou-se uma narrativa complexa e envolvente, capaz de manter o interesse da telespectadora até o fim e de nos distrair com sucesso da descoberta final, isto é, do segredo da poção mágica. Não podemos dizer, entretanto, que a trama apresente algo de novo em termos de narrativa, limitando-se às novidades aos novos druidas e repetindo elementos e clichês de narrativa há muito conhecidos.

Asterix e o Segredo da Poção Mágica
Imagem: Asterix e o Segredo da Poção Mágica/divulgação

Os velhos machismo e racismo de sempre

Inclusive, alguns dos clichês de narrativa repetidos na trama são o machismo e o racismo presentes na animação, embora já defasados. 

Aparentemente existem apenas quatro mulheres em toda a Gália – e se erramos a conta, é porque as demais são ainda mais imperceptíveis -, sendo que elas estiveram em, no máximo, 10 minutos de cena, sendo estes ainda divididos entre si. A série, contudo, não possui um histórico de representação igualitária entre as personagens masculinas e femininas; mesmo assim, com as recentes manifestações favoráveis à maior representação feminina, esperávamos uma atuação melhor da equipe de produção nesse sentido. Nem mesmo a pequena Pectine escapa.

Asterix e o Segredo da Poção Mágica
Imagem: Asterix e o Segredo da Poção Mágica/divulgação

A magia dos druidas – e a própria entrada na Floresta – é proibida às mulheres, sendo apenas mais um exemplo de claro machismo e exclusão misógina do feminino. A ideia de superioridade masculina é repetida ao longo da trama, sendo Pectine utilizada como instrumento de disfarce, já que sua primorosa engenharia é, majoritariamente, ignorada. Na verdade, em uma tentativa superficial e, para nós, insuficiente de reparação ao fim do desenho, aparentando finalmente dar atenção à Pectine, o druida Panaromix parece considerá-la como possível sucessora. 

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O racismo, por sua vez, não necessitou de sequer uma fala excludente para se mostrar presente na narrativa de “Asterix e o Segredo da Poção Mágica” . Uma personagem negra – que, pelo o que lembramos, não foi sequer reconhecida com um nome – foi desenhada por Louis Clichy de maneira perturbadoramente semelhante às representações de afrodescendentes realizadas nos históricos Shows de Minstrel, famosos nos Estados Unidos no início do século 20. A personagem não possui nenhum papel no desenho a não ser servir ao capitão gaulês, mantendo, portanto, a filosofia de servidão constante e esperada dos indivíduos da etnia. 

Imagem: divulgação

Em conclusão, “Asterix e o Segredo da Poção Mágica” nos propõe uma história divertida e possível de nos fazer aproveitar uma tarde no cinema. As questões, entretanto, do tratamento dado às personagens femininas e à única negra reiteram filosofias de homens brancos e cis gêneros que agem como se apenas fosse necessário haver uma plena representação de si próprios e nunca das demais existências do planeta. Embora uma única animação não consiga com que tais representações criem raízes, é certo que a constante má representação o faz – e cremos que esse é o caso.


Edição realizada por Gabriela Prado.

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LITERATURA

Os Eternos: sobre a atemporalidade da ignorância humana

Nos últimos tempos, felizmente, houve uma demanda e circulação maior de obras literárias dos mais diversos gêneros. A escrita feminina não é mais restrita e reconhecida apenas a seus romances, mas adentrou novos polos, desde Mary Shelley, passando por J.K. Rowling e chegando à Chimamanda. A ficção científica, por sorte, não ficou de fora desse fenômeno, como é o caso desta nova obra da Editora Morro Branco, “Os Eternos”, de Amie Kaufman e Meagan Spooner.