Úrsula: literatura brasileira, romance, escravidão e abordagem sensível

Úrsula: literatura brasileira, romance, escravidão e abordagem sensível

Ainda nos surpreende, para dizer o mínimo, o quão jovem é a atenção dada a autores que não se inserem no ideal – físico e acadêmico, em uma primeira análise – daquilo entendido pela comunidade literária brasileira, como, bem, literatura. Maria Firmina dos Reis é um dos muitos exemplos do histórico – e ainda, infelizmente, recorrente – descaso aos contadores de histórias das mais diversas origens. O romance “Úrsula”, possivelmente o primeiro da autora, foi relançado em 2018 pela Penguin & Companhia das Letras, levando mais de um século para que o mesmo chegasse ao grande público.

Apesar de, por um lado, vermos a desatenção aos autores periféricos com um certo choque, não é motivo de exato espanto a autora não ter sido reconhecida com o passar dos anos. Na verdade, mais ainda do que uma “simples” mulher, a mesma foi reconhecida socialmente como negra, sendo certo que tal condição apenas serviu para um maior descaso dos grandes escritores brasileiros, vide Carolina Maria de Jesus e, mais recentemente, Conceição Evaristo.

Imagem: divulgação/Penguin & Companhia das Letras

Mesmo com a concepção de inferioridade de seu romance, a autora se arriscou à publicação em uma época em que o próprio gênero literário em questão era mal visto – ainda mais se escrito por uma mulher e negra – e deixado de lado em relação à seriedade da literatura brasileira. De origem humilde, tornou-se professora na cidade de Guimarães e talvez este contato com os livros e as letras tenha sido o motor para a criatividade e coragem de Maria Firmina.

Em “Úrsula”, a princípio, vemos uma típica história de romance entre uma moçoila e um rapaz, com direito a todos os intricados vocábulos e diálogos da época. A obra, afinal, origina-se de 1859, uma época em que o Brasil, apesar de já ser império, ainda permeava as crueldades da escravidão inteiramente legal. O curioso, entretanto, se faz pelo retrato e pela abordagem da escravidão brasileira. Talvez pelo papel social da autora – como mulher e negra -, a maneira com a qual tratou de tal tema se mostrou, não surpreendentemente, sensível, fácil e fluida. Isso, porém, não fez as críticas e riscos escritos pela mesma menos perceptíveis e ousados, especialmente numa época de auge escravista.

“E o mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; (…) Era infeliz (…)”

Por tratar-se de um romance, mesmo com a visão abolicionista evidentemente presente, a abordagem da escravidão, assim como dos demais aspectos do livro, agarra-se às questões emocionais tanto das personagens quanto da leitora. Maria Firmina foi excepcional ao relacionar e humanizar todas as personagens de forma a conseguirmos entendê-las, apesar da linguagem antiga. Inclusive, talvez esse seja o principal modo de luta da autora contra a escravidão, isto é, apresentar os negros e negras como seres humanizados e não como objetos.

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Nesta edição, particularmente, ainda somos presenteadas pela profunda pesquisa realizada por Maria Helena Pererira Toledo Machado, professora titular do Departamento de História da USP e Flávio dos Santos Gomes, professor da UFRJ e da Unicamp. Em uma pequena, embora impressionantemente detalhada, introdução, conhecemos um pouco sobre quem foi Maria Firmina dos Reis, bem como suas possíveis influências e o ambiente social em que a mesma viveu. Afinal, São Luís iniciava sua produção literária e jornalística à época da autora, sendo certo que a mesma foi figura importante de tal movimento.

A cada ano, o meio literário, para aqueles que assim querem vê-lo, é conquistado por exemplos de literatura, digamos, marginal. Aqueles que, ainda hoje, são vistos como cidadãos de segunda categoria e à margem da sociedade nos parecem se afloram  a cada ano, como visto mais recentemente na Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) de 2019. Maria Firmina dos Reis foi uma das primeiras romancistas do Brasil, feito que se restringe ainda mais por ser mulher e negra; agora, temos que cuidar para que não seja a última. 

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Úrsula

Maria Firmina dos Reis

Penguin & Companhia das Letras

215 páginas (eBook)

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Edição realizada por Gabriela Prado.

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