Olhares Negros: contexto racial, representação da mulher negra e misoginia cultural

Olhares Negros: contexto racial, representação da mulher negra e misoginia cultural

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Lançado em 1992 nos EUA, “Olhares Negros” chega ao Brasil com mais de 20 anos de atraso, mas seu conteúdo é mais atual e relevante que nunca. Em seus ensaios reunidos no livro, bell hooks faz apontamentos radicais sobre os regimes de visibilidade e sugere formas alternativas de se observar a negritude, a subjetividade de pessoas negras e a própria branquitude, como um sistema racial de supremacia branca – tudo isso sem perder o tom compreensivo e questionador que investiga as narrativas culturais do ponto de vista do espectador transformado em “outro”, aquele que poucas vezes foi representado para além do estereótipo. 

A professora hooks, que adota o nome de sua avó indígena como homônimo, trabalha em “Olhares Negros” os regimes de visibilidade a que pessoas negras e nativas são sujeitas, e pontua desde o início de sua narrativa como a representação imagética está associada ao poder e as estruturas raciais e sexuais da nossa sociedade. A questão da autodefinição e a descolonização do olhar são os nortes em sua pesquisa: é a partir de uma perspectiva radical de mudança social e empoderamento coletivo que sua obra busca desafiar noções racistas e misóginas tão intrínsecas na construção de nosso olhar como espectador, que inclusive temos até dificuldade em reconhecê-las. 

A representação e objetificação da mulher negra no contexto social

São por meio de investigações de diversos contextos culturais que ela cria sua trajetória; começando pelo tratamento da negritude como resistência política, passando pelas representações da sexualidade da mulher negra no mercado cultural e pelo protagonismo de mulheres negras militantes radicais, bell hooks resgata histórias de mulheres revolucionárias, como Angela Davis e Audre Lorde. A autora analisa o percurso e produção intelectual dessas autoras negras radicais, que muitas vezes tiveram seu legado apropriado ou distorcido por discursos reativos às mudanças que elas propunham. Ao mesmo tempo, ela aponta as armadilhas e desafios de se pensar criticamente a representação da sexualidade da mulher negra na mídia, ao analisar a relevância de figuras como Naomi Campbell e Tina Turner na criação de um imaginário objetificado e hiperssexualizado.

A partir daí, ela delimita o desafio feminista de solidariedade entre mulheres e, especificamente, mulheres negras, mostrando como os estereótipos de “barraqueiras” e a tradição do martírio e masoquismo feminino impactam nossas relações com nós mesmas e como o direcionamento de nossa raiva ainda é focado em nossas iguais e estimulado pela cultura.

No episódio midiático americano envolvendo a assistente do juiz Clarence Thomas, Anitta Hill, que depôs contra a indicação do juiz para a Suprema Corte Americana por ter sofrido assédio sexual, no período em que trabalhou como funcionária de seu gabinete, o escrutínio a que Anitta foi alvo ao ter a coragem de denunciar seu abusador é posto à crítica sob o prisma da misoginia: Anitta é uma mulher negra denunciando um homem negro poderoso, mas as intersecções das estruturas patriarcais demonstram que até homens negros podem ser cúmplices e se beneficiar da misoginia quando seus alvos são mulheres negras.

Apesar da força de sua denúncia, Anitta não obteve justiça e o juiz não deixou de tomar posse como o segundo homem negro a ocupar uma cadeira na Suprema Corte.

Primeira edição da tradução em português de "Olhares Negros: Raça e Representação", lançada pela editora Elefante
Primeira edição da tradução em português de “Olhares Negros: Raça e Representação”, lançada pela editora Elefante (Imagem: divulgação/Editora Elefante)

Masculinidade e discursos misóginos inseridos na cultura da mídia

Em “Olhares Negros” a escritora bell hooks também faz um chamado à desconstrução da masculinidade, sempre atenta aos mecanismos do discurso racista dentro da luta feminista e das posições misóginas dentro do movimento negro; ela exige um comprometimento com o combate unificado entre todas as formas de opressão. Seu texto evidencia a todo momento que a manutenção do patriarcado supremacista branco necessita de narrativas culturais que justifiquem essa opressão, e de forma atenta ela analisa como esses discursos são criados e propagados por produtos da cultura da mídia.

A autora analisa a celebração da negritude nos filmes de Oscar Micheaux, a postura de “amante da casa grande” de Madonna e tece uma crítica precisa sobre as intersecções entre misoginia e racismo presentes na cultura drag e no aclamado “Paris is Burning”. Bell hooks, em todo momento, expõe a necessidade da incorporação do antirracismo na luta feminista e elabora o conceito de olhar diferenciado que mulheres negras desenvolveram ao analisar a imagem em movimento, o “olhar opositor”. 

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“Olhares Negros” também sugere que o regime de representação do cinema hollywoodiano e na televisão — que ativamente excluiu, silenciou e estereotipou a realidade, a biologia e as histórias de mulheres negras — foi responsável pela criação de um olhar diferenciado em suas espectadoras negras, que resistiam às narrativas clássicas com postura crítica. Esse olhar, que é oposto porque é invisível, se desenvolve na impossibilidade do reconhecimento nas imagens e narrativas, hierarquizadas nas experiências dos homens brancos e no estereótipo de mulher representado por mulheres brancas.

O não-lugar dessas espectadoras negras forçava, ao mesmo tempo que favorecia, uma abordagem crítica meticulosa das estruturas apresentadas. Em seus ensaios reunidos em “Olhares Negros”, bell hooks propõe uma intervenção radical na forma que falamos sobre raça e representação, desafiando cada aspecto da iconografia masculina supremacista branca. Raça e Representação”, ao abordar uma rica gama cultural em sua análise, é um compilado esclarecedor e profundo sobre como a ideologia e a prática da escravidão transatlântica moldou culturalmente o olhar ocidental, e expõe como a manifestação dessa visão de mundo do patriarcado supremacista branco pode ser percebida nas mais diversas manifestações e produtos culturais – quando analisados criticamente.

Por fim, bell hooks ressalta em “Olhares Negros” como os discursos transformadores produzidos por pessoas negras que desafiaram as estruturas racistas foram capazes de resistir e pavimentar o caminho para uma atitude crítica revolucionária – e seu livro é um exemplo primoroso de como a luta antirracista é capaz de desvendar as estruturas da nossa sociedade e propor uma tomada de consciência coletiva.


bell hooksOlhares Negros. Raça e Representação

bell hooks

Editora Elefante

356 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Feminista Raíz
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