“Se a Rua Beale Falasse” nas palavras de James Baldwin e no olhar de Barry Jenkins

“Se a Rua Beale Falasse” nas palavras de James Baldwin e no olhar de Barry Jenkins

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James Baldwin foi um importante escritor e ativista norte-americano, sendo suas obras essenciais veículos de entendimento das cultura e vivência negras do país, principalmente em meados de 1960 e 1970. “Se a Rua Beale Falasse” é uma das grandes produções do artista, sendo adaptada às telas de cinema no filme homônimo de Barry Jenkins e, em forma de livro, trazida ao Brasil por uma nova edição da Companhia das Letras. Apesar das esperadas diferenças entre as duas plataformas, em ambos os meios, a história de amor entre Tish e Fonny retrata tanto as inúmeras adversidades encontradas por indivíduos negros quanto a resiliência inflexível dos mesmos (especialmente das mulheres) sem, entretanto, abandonar a própria revolução que é o amor preto.

“Eles já vêm matando nossos filhos faz muito tempo” – trecho do livro, dito por Joseph

Rua Beale
Foto: Edições de “Se a Rua Beale falasse”. Imagem: Companhia das Letras (reprodução)

A trama se passa no bairro norte-americano, e tipicamente negro, do Harlem, retratando não apenas o casal Tish e Fonny, mas suas respectivas famílias, sendo um verdadeiro mergulho na vida e na história das personagens e da difícil experiência de vida que parece fazer parte de seu DNA. A violência racial e, por conseguinte, policial é um tema extremamente presente no livro – e talvez mesmo o principal – sendo por causa dele que a trajetória se inicia. Afinal, Fonny foi preso em razão, mesmo que aparentemente de forma indireta, das violências raciais e policiais ainda presentes nas sociedades modernas, às quais não abandonam a existência de nenhuma das personagens em nenhum momento.

O autor optou, no livro, sendo tal fato repetido no filme, por nos expor a trajetória ao contrário. Veja bem, já iniciamos a história sabendo que Fonny foi preso, partindo a trama, na verdade, mais ou menos do início da batalha – judicial, pessoal e social – de Tish e sua família, bem como do pai de Fonny, contra a prisão do mesmo. Não vamos entrar no mérito, nesse caso, sobre se Fonny é ou não culpado pelo estupro de Victoria Sanchez, uma mulher porto-riquenha, mas sim sobre as implicações raciais e sociais que decorrem e resultam da sua acusação e prisão.

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Fonny (Stephan James) e Tish (Kiki Layne). Imagem: divulgação

Ocorre que, como diz a própria narradora (Tish), Fonny não é o negro de ninguém e isso, desde o primeiro contato dos povos pretos africanos com os brancos europeus e norte-americanos, é o maior pecado que os indivíduos de Cor¹ podem cometer. Apesar do término formal da escravidão, as interações e relações interpessoais ainda são regidas pelo aspecto racial, tanto quanto ou até mais que o de classe, estando o mesmo intimamente introjetado na nossa percepção como sociedade – e na trama não é diferente.

“Fui andando por aqueles corredores enormes e largos que passei a odiar, corredores mais largos que o deserto do Saara. O Saara nunca está de todo vazio. Esses corredores nunca estão de todo vazios. (…) Os pobres estão sempre atravessando o Saara.” – trecho do livro, narrado por Tish

Alonzo “Fonny” Hunt escolheu, na medida do possível, não ser o negro de ninguém, isto é, não se sujeitar voluntariamente ao papel integralmente servil à sociedade racista representada na história e é esse fato que o condena. Ora, sendo culpado ou não, é certo que o tratamento a ele concedido enquanto encarcerado, e também quando livre, é carregado de distinções e adequações referentes a sua raça e a seu gênero. O folclore do homem negro como besta selvagem controlada por seus constantes desejos sexuais, principalmente quando em frente a mulheres brancas, conforme analisado por Patricia Hill Collins², é nitidamente a causa facilitadora da acusação e da prisão da personagem.

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Cena do filme (Imagem: divulgação)

Na verdade, ao olharmos para os demais personagens negros presentes na trama, notamos como Baldwin conseguiu retratar não apenas as diferenças e semelhanças de personalidades de cada uma, mas a união dos mesmos frente ao tratamento racial desigual disposto pela sociedade. As dinâmicas escravagistas permanecem, sendo a prisão sua forma moderna, cujo foco é a destruição e deslegitimação dos indivíduos através de um controle destinado às elites³, restando aos alvos apenas a resiliência, conforme tratado na trama.

Resiliência esta que, assim como na vida real, é liderada pela parcela feminina da população de Cor, especialmente a negra. Tish, Sharon e Ernestine, as três mulheres da família Rivers, agem com enorme vontade para retirar Fonny da cadeia, fato correspondente ao mito da força infinita da mulher negra, porém, ainda são representadas com indiscutível delicadeza e humanidade pelo autor, de forma a abraçarem e se permitirem a vulnerabilidade inerente às pessoas humanas. Nesse sentido, o diretor Barry Jenkis conseguiu, com todos os méritos das atrizes, demonstrar à telespectadora as diversas facetas existentes e igualmente válidas da feminilidade negra e de Cor, em nenhum momento a limitando. A realidade esférica das personagens, inclusive, foi explorada ao tratar da veracidade da alegação de estupro com a objetividade e empatia que poucos tratam, revelando-se as mulheres como seres inteiramente centrados e obstinados.

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Ernestine (Teyonah Parris), Tish (Kiki Layne) e Sharon (Regina King), respectivamente. (Imagem: divulgação)

Representação feminina negra e colorismo

Do outro lado, porém, as mulheres da família Hunt representam e apresentam uma das facetas mais tristes das comunidades afrodescendentes e africanas ao redor do mundo: o colorismo. Baldwin representou tal característica de forma tão dinâmica como ocorre verdadeiramente, por vezes sendo retratada de forma indireta, como um olhar e um sorriso debochado, e direta, com palavras e exclusões tão cruéis quanto verossímeis. A rejeição das mulheres à própria cor é mais uma consequência da filosofia escravocrata, na qual a separação entre os escravizados aptos ao trabalho interno – normalmente os mestiços – e os aptos apenas ao trabalhos externo resultou em uma subclassificação entre os mesmos que permanece até os dias de hoje.

Jenkins, porém, não fez o mesmo. A construção de todas as personagens no filme não foi uma preocupação do escritor e diretor, sendo pouquíssimas vezes pinceladas em meio às narrações de Tish. As mulheres Hunt cinematográficas, inclusive, apresentam o mesmo tom de pele retinto dos demais, não havendo sequer brecha para um paralelo com suas respectivas representações literárias no filme. A Tish cinematográfica, de toda forma, foca mais em seu relacionamento com Fonny e, portanto, as demais personagens, bem como seus motivos – mesmo que questionáveis – para as atitudes retratadas no longa, não são conhecidas pela telespectadora, causando uma sensação de incompletude palpável.

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Cena do filme (Imagem: divulgação)

Apesar dos atos das mulheres Hunt, o amor de Fonny e Tish conseguiu se construir como algo leve e livre de julgamentos, onde os dois se complementam apesar de serem vistos – principalmente pelas Hunt – como indesejáveis. De todas as realidades políticas retratadas por Baldwin na trama, talvez o relacionamento preto seja o mais importante. A violência social que ambas as partes do casal enfrentam são, por certo, essenciais para a própria colocação da narrativa na história, mas sabe-se que é a relação das personagens que trabalha para o desenvolvimento da mesma. Tish age, com todos os seus recursos, para livrar Fonny e este age com todas as suas forças para não se perder inteiramente na prisão e voltar para Tish, sob o medo de se repetir com ele o que ocorreu com seu amigo Daniel.

“[Sobre a prisão] Porque podem fazer com a gente o que bem quiserem. (…) O homem branco é um demônio. […] A pior coisa é que eles fazem você ficar apavorado pra caralho.” – trecho do livro, dito por Daniel

É através de Daniel que temos o contato mais pesado e difícil sobre as realidades da prisão para os corpos negros, bem como da violência e malignidade branca em geral. Igualmente maltratado pelo sistema, Daniel também foi vítima de uma clara desigualdade quanto ao tratamento dispensado aos indivíduos negros pelos seus opostos brancos, sendo certo que tal fato nunca o abandonou após a saída da prisão, e, ousamos dizer, se fosse uma pessoa real, nunca o abandonaria. O tema da saúde mental é retratado no livro, principalmente com o impacto que a prisão teve nesses dois personagens, sendo tal experiência responsável por inserir ou aumentar o terror já existente na mente de ambos.

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É dessa impassível violência que as personagens da trama buscam fugir, mas que também se utilizam para se conectarem e buscarem ajuda de aliados e iguais na luta, conforme demonstrado ao longo da mesma. No livro, há um conexão entre Sharon e Victoria respaldada no fato de ambas serem mulheres negras e, também, marginalizadas; entretanto, essa conexão se perde no filme. Tal mudança, contudo, não é suficiente para atrapalhar o desenrolar emocional da trama, sendo apenas uma característica a mais optada por Baldwin.

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Cena do filme (Imagem: divulgação)

Atuações, estética cinematográfica e intenção social

As atuações, por sua vez, são espetaculares, não sendo à toa que Regina King, ao interpretar Sharon Rivers, levou para casa todos os prêmios em que concorreu pela personagem na temporada 2018-2019. A fotografia foi feita de forma magistral, criando a atmosfera da época, bem como refletindo a aflição e inquietação das personagens no decorrer da história, através do foco puramente nas reações e interações das personagens, não sendo o cenário algo tão importante ao filme.

Em ambas as plataformas, por certo, a história de um casal do Harlem e da situação que enfrentam é incrivelmente atemporal. Baldwin conseguiu, em poucas páginas, retratar com maestria as implicações históricas que interferem (até hoje) nas relações e dinâmicas sociais, raciais, políticas e de classe, sendo elas essenciais para o desenvolvimento e entendimento profundo da trama. Mesmo assim, é plenamente possível sentir o retrato dos Estados Unidos preto dos anos 70. O cotidiano não é integralmente retratado no livro ou no filme, mas na versão literária é possível imaginar as situações comuns à época através de uma rápida e precisa passagem de Baldwin, este com imensa riqueza de detalhes, trazendo ainda maior verossimilhança ao romance.

Se a Rua Beale Falasse

James Baldwin, quando perguntado sobre o porquê da presença da Rua Beale apenas no nome do romance, sendo certo que ela é uma rua em Nova Orleans – e não no Harlem ou mesmo em Nova York -, bem como que não é em nenhum momento citada no livro ou no filme, disse:

“Toda pessoa negra na América nasceu em uma Rua Beale, nasceu em um bairro negro de alguma cidade americana (…) A Rua Beale é uma rua barulhenta. É deixado ao leitor discernir o significado do bater dos tambores.”

E foi isso que não apenas nós, leitoras, fizemos, mas o próprio Barry Jenkins. A escolha do diretor em mudar o final da trama, de início e por óbvio, causa estranhamento e surpresa, porém entendemos que a mudança é uma forma igualmente válida de representação das possíveis realidades prisionais e criminais negras do país. Em uma, Fonny teve sorte; na outra, azar. Assim como seria passível de ocorrer no mundo real, o destino de Fonny, apesar de suas inúmeras tentativas, nunca esteve propriamente em suas mãos.

Rua Beale

Como esperado, a obra de James Baldwin reflete o ativismo político do autor de forma clara e poética, nos apresentando uma visão verossímil de parte da história negra norte-americana, sendo certo que a mesma se repete mundialmente. O autor utilizava de suas escritas como protesto e é justamente isso o representado através dessa nova edição de sua obra pela Companhia das Letras, sendo uma leitura essencial para um maior entendimento do movimento e das lutas negras. Da mesma forma, a adaptação de Barry Jenkis reflete, mesmo que de forma mais corrida, uma mesma realidade negra, que é igualmente possível e deve, com as mesmas forças, ser combatida.

Notas:

¹ O termo “pessoa de Cor”, utilizado no presente texto, provém da filosofia anti-sistêmica seguida pela autora do texto, isto é, o feminismo interseccional e o feminismo negro. Inspirada acadêmica e pessoalmente por autoras de reconhecido prestígio e conhecimento dentro do espectro de ambas as vertentes do movimento feminista, a escolha pelo termo “pessoas de Cor” seguiu a filosofia da, mais especificamente, ativista Audre Lorde. Em um discurso de 1979, que mais tarde se inseriu na coletânea “The Master’s Tools Will Never Dismantle the Master’s House. Sister Outsider: Essays and Speeches”, publicada pela Editora Berkeley, New York, em 1984, a autora tomou para si o termo antes exclusivamente ofensivo e o utilizou para exemplificar e, assim, demonstrar – entre outras coisas – a violência sofrida por mulheres pobres e de Cor tanto na esfera privada quanto na pública, sendo certo que tal termo foi adotado pelo movimento negro (especialmente o norte americano), bem como pelos demais movimentos com lideranças “não-brancas” e projetos contra a supremacia branca. Dessa forma, a autora do presente texto, tendo em vista sua realidade como ativista e vivente dos movimentos feministas interseccional e negro, escolheu e escolhe utilizar e – igualmente – tomar para si o termo, não empregando-o de forma a ofender e separar, mas sim de maneira a especificar e unificar, na medida do possível, as realidades e vivências de indivíduos e comunidades não brancas.

² Patricia Hill Collins, Black Sexual Politics: African Americans, Gender, and the New Racism. Nova York; Londres: Routledge, 2005

³ Ava Duvernay e Spencer Averick, Documentário: 13th (A 13ª Emenda), 2016


Rua BealeSe a Rua Beale falasse

James Baldwin

Companhia das Letras

224 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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