As Bruxas: entre o místico e o real, a histeria de Salem foi uma guerra contra as mulheres

As Bruxas: entre o místico e o real, a histeria de Salem foi uma guerra contra as mulheres

A história nos conta que a caça às bruxas foi um evento fundamentalmente europeu: o velho continente foi palco por quase três séculos de perseguições religiosas e feminicídio em massa, queimando em suas incontáveis fogueiras (da França à Holanda, passando pela Espanha, Itália, Alemanha e Reino Unido etc.) todo tipo de mulher que merecesse a alcunha de “bruxa”.

Igreja, poder político e misticismo contra as mulheres

As torturas em busca de confissão, linchamentos e julgamentos fraudulentos baseados em misticismo marcaram a participação de padres, pastores, juízes e populares como executores de ordens divinas contra o poder da bruxaria, e nesse percurso, milhares de mulheres morreram queimadas diariamente em praças públicas, com as estimativas de mortes variando entre 100 mil e nove milhões de mulheres entre os séculos 14 e 17.

Esse holocausto feminino foi arquitetado pela igreja cristã (católica, protestante e anglicana) juntamente com o poder político da época, mas as condições que levaram a Europa a travar essa guerra contra as mulheres ultrapassaram as fronteiras – e a bruxa foi materializada nas Américas.

Em 1692, em um período em que a Inquisição cessava com suas perseguições na Europa, a pequena cidade de Salem e sua aldeia rural, localizada na baía de Massachusetts, na Nova Inglaterra dos EUA, iniciavam seu próprio surto persecutório. O livro “As Bruxas: Intriga, traição e histeria em Salem“, de Stacy Schiff, publicado neste ano pela editora Zahar, é um apanhado histórico dos registros escassos que possuímos sobre os eventos da época e sua literatura se desenvolve de forma naturalista, absorvendo as informações coletadas dos registros de forma narrativa, descrevendo os desdobramentos de suas personagens reais.

“Ao lado da fé, a bruxaria servia a um propósito útil. Aquilo que irritava, confundia, humilhava, tudo se dissolvia em seu caldeirão.”

– Stacy Schiff

As Bruxas, de Stacy Schiff
As Bruxas, de Stacy Schiff, publicado neste ano pela editora Zahar (Foto: Delirium Nerd)

Perseguição, mortes e hereditarismo como justificativa de abusos em “As Bruxas”

Salem do século 17 era uma cidade em ascensão: próxima a Boston, a cidade da colônia inglesa era rota do comércio local em um período em que as leis inglesas não atravessavam o oceano com facilidade e os colonos gozavam de uma legislação e governo relativamente independentes ao mesmo tempo que mais anárquico. A cidade também anexava uma zona rural com uma pequena aldeia, palco dos surtos e julgamentos que fizeram Salem famosa mundialmente. O que prevalecia era o puritanismo, o jogo de interesse entre as famílias ricas da região e os padres com anseios políticos.

Mas Salem também tinha suas particularidades em relação à perseguição na Europa: no novo continente, a tradição não era queimar bruxas, mas enforcá-las ou deixá-las presas em condições insalubres por tempo suficiente para que elas morressem de causas naturais. A primeira mulher morta foi Sarah Osborne, que faleceu no próprio cárcere aguardando julgamento e sentença. Naquele momento em que a perseguição apenas começava, a morte de Sarah pesou na consciência dos aldeões, que perceberam na prisão um “subúrbio do inferno”.

Certas leis da bruxaria, claras e imutáveis, seguiam a tradição europeia: eram leis hereditárias (filhas de bruxas seriam bruxas) e matrilineares. Uma vez que os esforços de entender os fenômenos naturais e sociais que aconteciam na aldeia acharam uma explicação satisfatória no poder diabólico das bruxas, qualquer mulher, independente de sua origem, classe, posição social ou idade, estava suscetível à prisão e encarceramento.

As prisões de Salem ficaram pequenas para a quantidade de bruxas responsabilizadas e nem crianças escapavam da carnificina: a “bruxa” mais nova tinha apenas cinco anos de idade quando foi assassinada pelas tribunas dos Estados Unidos. O terror da perseguição tornava o ceticismo suspeito, a razão supérflua e a solidariedade impossível.

 

Mas afinal, o que as bruxas estavam fazendo para causar esse pânico homicida na pequena comunidade de Salem? As primeiras acusações surgiram quando meninas filhas de pastores e juízes da cidade começaram a ter crises nervosas, pânico e visões. As meninas do clero e filhas da alta classe passavam uma vida de confinamento e trabalhos domésticos forçados. Muitas delas eram enviadas ainda crianças para casas de outras família para aprenderem a ler e se tornarem atraentes para o casamento, e nesse percurso, todo tipo de abuso dos senhores era uma obrigação a ser tolerada.

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O medo dos ataques indígenas, comuns na época, era também parte da vivência local e as famílias viam a resistência dos nativos à ocupação como um dos maiores entraves na vida da colônia inglesa. As meninas entraram em um colapso coletivo, em que a crise de uma gerava crise em outras, e as visões, vozes e espíritos eram compartilhados. Uma garota jurava ter sido beliscada pelo espírito de uma mulher que fazia parte da família rival.

Questões sociais além da religião e política imorais em “As Bruxas”

Outras garotas afirmaram ter visto a velha da aldeia voando em sua vassoura na noite em que as ovelhas de sua família morreram. Uma menina gritava desesperada toda vez que via uma aldeã conhecida por causar brigas. Os surtos coletivos foram agregando cada vez mais culpadas e qualquer reputação, a mais ilibada que fosse, podia acabar na boca das meninas afetadas pela bruxaria. Ninguém ligava os conflitos sociais entre as famílias ou as brigas por terra e rixas internas às acusações.

As Bruxas“, enquanto apanhado de documentos, deixa claro que o surto persecutório de Salem teve origens e motivos sociais: como na Inquisição, o que estava em jogo ali era a manutenção e expansão da lógica cristã, forçando ao puritanismo e punindo com forca quem se atrevesse a não temer o jugo dos céus, e nesse processo, a corda quebrou para o lado mais fraco: as meninas enfeitiçadas não atiraram contra seus algozes ou contra as estruturas, elas procuraram suas iguais para serem punidas: mulheres.

É ao mesmo tempo curioso e cruel atentar para o fato de que, apenas quando eram acusadoras de bruxaria, as garotas de Salem eram ouvidas ou levadas à sério, e muito por conta do prestígio e atenção que as “vítimas da bruxaria” recebiam ao denunciar bruxas, as acusações foram se multiplicando e mulheres, que às vezes nunca sequer viram as garotas, foram intimadas a depor e consequentemente condenadas.

Mais do que um romance, “As Bruxas” é um relato histórico e uma reflexão sobre a moral que ajudou a moldar o espírito americano e a trajetória e ascensão de uma lógica misógina que perdura até os dias de hoje. Desacreditadas em seus relatos, desprovidas de meios para combater a calúnia e explicar os eventos “sobrenaturais”, as bruxas se assemelham às mulheres da contemporaneidade, quando tentam responsabilizar seus algozes ou qualquer mulher que insurja contra o poder patriarcal estabelecido. Neste capítulo horroroso da história, quem venceu foram as forças mais malignas do que qualquer bruxa materializada.


As BruxasAs Bruxas: Intriga, traição e histeria em Salem

Stacy Schiff

Editora Zahar

340 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado.

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Feminista Raíz
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