É preciso viver além das Vidas Passadas

É preciso viver além das Vidas Passadas

O filme Vidas Passadas (Past Lives), dirigido por Celine Song, está entre os concorrentes ao prêmio de Melhor Filme de 2023 no Oscar, atraindo a atenção dos entusiastas de cinema. A estreia audiovisual da cineasta explora as complexidades das relações humanas e as transformações que ocorrem ao longo da vida.

A história de Nora e Hae Sung, com sua conexão infantil interrompida pela separação geográfica e cultural, ressoa com muitos espectadores que vivenciaram mudanças semelhantes em suas próprias vidas.

Greta Lee em Vidas Passadas.
Greta Lee em Vidas Passadas | Via: Reprodução

Vidas Passadas foi lançado em junho do ano passado como uma produção da A24, conhecida por seus filmes de sucesso como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), vencedor do Oscar de 2022, além de outros dramas aclamados como Aftersun (2022) e Lady Bird (2017). A associação com a A24 já desperta o interesse do público para o filme, que tem recebido uma recepção positiva.

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Os laços das vidas passadas

Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo) nasceram na Coreia do Sul e frequentavam a mesma escola em Seoul. Desde crianças, compartilhavam uma forte conexão e carinho um pelo outro, caminhando juntos até em casa todos os dias.

Entretanto, quando Nora se preparava para uma grande mudança – sua família estava de mudança para o Canadá em busca de uma nova vida -, viu-se obrigada a deixar para trás sua terra natal e seu estilo de vida familiar, incluindo sua amizade com Hae Sung.

Nora e Hae Sung seguem seus próprios caminhos.
Nora e Hae Sung seguem seus próprios caminhos | Via: Reprodução

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Anos depois, já adultos, os dois amigos se reconectaram através das redes sociais. Nora estava morando em Nova Iorque, perseguindo seu sonho de se tornar uma escritora reconhecida, enquanto Hae Sung permanecia na Coreia, ainda incerto sobre seu futuro.

No entanto, a relação deles eventualmente se desfez. As circunstâncias e as ambições de Nora a levaram a priorizar seu próprio caminho, e eles decidiram cortar os laços mais uma vez, sem previsão de se reconectarem.

A construção de uma nova realidade

Nora casou-se com o americano Arthur (John Magaro) e juntos construíram uma rotina de companheirismo em um relacionamento tranquilo. Quando ela compartilha com o marido a notícia da visita repentina de um velho amigo da Coreia, Arthur acolhe a ideia de braços abertos, e os dois se preparam para receber Hae Sung em suas vidas mais uma vez.

Esse é o reencontro mais doloroso dos personagens. Os velhos amigos passeiam juntos, envolvidos em momentos permeados por desconforto, incerteza e culpa. A presença de Hae Sung ressuscita sentimentos do passado, que confundem Nora e perturbam a realidade bem resolvida da protagonista.

Nora e Hae Sung passeiam de barco em Nova Iorque
Nora e Hae Sung passeiam de barco em Nova Iorque | Via: Reprodução

Nesse momento, a imersão no filme é inescapável. Tal qual os personagens, quem assiste Vidas Passadas compartilha a confusão emocional mostrada em tela, com os mesmos questionamentos sobre os relacionamentos retratados.

Quem vive de passado é museu

“Não sabia que gostar do seu marido doeria tanto.”

A fala de Hae Sung reflete a perspectiva da audiência. Em muitas histórias de amor, é comum encontrar um marido antipático, cujo único propósito é complicar o relacionamento. Dessa forma, espera-se que o casamento da protagonista termine para que ela possa ficar com seu verdadeiro amor, o amigo de infância. Contudo, Vidas Passadas quebra essa expectativa.

No longa, os personagens não são vilanizados ou romantizados, mas sim retratados como indivíduos complexos, lidando com suas situações da melhor forma possível. Aqui, a vida não pode ser interrompida. Nora ama seu marido, construiu uma vida ao lado dele e encontra felicidade nessas circunstâncias.

Nora e Arthur caminhando em Nova Iorque.
Nora e Arthur caminhando em Nova Iorque | Via: Reprodução

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A relação de Nora com Hae Sung era permeada pela nostalgia. Ela nutria um carinho especial por ele, pois via nele a representação de seu primeiro lar, sua vida na Coreia. Hae Sung simbolizava toda a saudade da infância e das raízes de Nora, algo que seu marido nunca poderia compreender completamente.

No entanto, Nora já não era mais a mesma criança que deixou Seoul, e Hae Sung percebeu isso tarde demais. Ele compreendeu que não se pode simplesmente invadir a vida de alguém e esperar alterá-la; essa não é uma atitude romântica, nem garante alguma forma de conquista.

Em outras palavras, existe uma vida para além das vontades individuais, e Hae Sung aprendeu essa lição durante sua visita a Nova Iorque.

In-yeon e a ligação com o público

Apesar quebras de expectativa no aspecto romântico, Vidas Passadas ainda cativa os entusiastas do gênero com alguns artifícios inteligentes.

Nora traz à tona, por exemplo, o conceito coreano de in-yeon. Esse termo deriva da ideia de que duas pessoas precisam ter se encontrado várias vezes, de diferentes maneiras, em outras vidas, para terem alguma forma de relação.

Filmes como o de Celine Song são iluminados por meio desse tipo de narrativa. Esses momentos deixam uma marca nos espectadores, que podem projetar as ideias poéticas de destino em suas próprias vidas.

Portanto, é fundamental que obras sobre a vida e sentimentos humanos complexos estabeleçam essa conexão emocional com o público, como uma cereja no bolo em meio aos inúmeros dramas apresentados.

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Além disso, o uso do in-yeon traça mais uma forte ligação entre Nora e sua vida na Coreia, demonstrando como essas memórias permeiam toda a sua existência – até mesmo suas interpretações do mundo e suas projeções amorosas.

Suas raízes continuam a desempenhar um papel significativo nas novas histórias que ela traça, e o filme consegue reforçar essa relação em todos os aspectos.

Para além das vidas passadas

 

No longa, vemos o amor em formas puras, identificáveis e realistas. Há as expectativas e projeções de Hae Sung, o apego ao passado contrastando com a satisfação do presente em Nora, e Arthur, com seus próprios conflitos na história, continua respeitando e acolhendo a esposa.

Dessa forma, a narrativa de Celine Song em Vidas Passadas cativa o público, trazendo fortes reflexões sobre as relações humanas e as escolhas do cotidiano. Greta Lee, Teo Yoo e John Magaro conseguem criar personagens realistas e emocionantes, cujos dramas se desenrolam por meio de olhares e pequenos gestos de grande impacto.

Por fim, temos um longa comovente que reflete a influência do passado sobre o presente das pessoas. Acima de tudo, destaca a certeza de que nada permanece igual ao longo da jornada da vida e que, por vezes, não há muito o que fazer a respeito.

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Jornalista/comunicóloga, com amor pela arte e pela escrita. Do fofo ao aterrorizante, falar do que eu gosto é minha maior motivação!
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