Lady Bird: um extraordinário filme sobre a adolescência de uma garota

Lady Bird: um extraordinário filme sobre a adolescência de uma garota

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Christine McPherson (Saiorse Ronan) é uma adolescente de 17 anos, cursando a última série do ensino médio. Ela vive em Sacramento, na Califórnia, mas anseia por uma vida mais agitada, onde possa viver coisas novas e empolgantes, e portanto cultiva o sonho de conseguir ir embora para outra cidade quando for para a faculdade. [NÃO CONTÉM SPOILERS]

Tentando criar uma personalidade marcante para si, ela se batiza de Lady Bird (algo como “senhora pássaro” em inglês), um nome “que foi dado para mim, por mim”, como ela mesma diz. E exige que todos a chamem assim, inclusive seus pais. Lady Bird ainda é uma menina dentro de seu próprio mundo, mas apesar de ainda manter algumas atitudes infantis, também possui uma sagacidade que a permite navegar pelos caminhos intrincados impostos por sua escola católica e por sua família, em especial sua mãe bastante severa.

O relacionamento com a mãe, Marion (interpretada excelentemente por Laurie Metcalf) recebe atenção especial do roteiro e será quase impossível não sentir uma identificação com algumas das brigas cotidianas entre ela e Lady Bird. Marion quer que sua filha seja realista e entenda as limitações financeiras pelas quais a família passa – com o pai desempregado, e ela trabalhando dois turnos para pagar as contas. Lady Bird, embora não seja exatamente gastadeira, tem dificuldade de compreender totalmente a gravidade dessa situação, e como vários adolescentes, se sente privada de coisas que seus amigos mais ricos na escola possuem.

Lady Bird

Ela tem bastante vergonha de onde vive e esconde essa condição de seus colegas. E também ressente as repreensões de sua mãe, que a critica com palavras pesadas, como o trailer do filme expõe bastante. Lady Bird, talvez em resposta a isso, performa alguns atos de rebeldia, que também serão catárticos para quem já quis explodir todas as regras da família e da escola em que estudava (provavelmente todo mundo). Uma das melhores cenas é uma que também aparece nos trailers, em que a mãe diz “eu só quero que você seja a melhor versão de si que puder“, ao que Lady Bird responde “e se essa for a melhor versão?

Lady Bird é tanto um filme sobre descobrimento de si, como de aceitação de si. Uma das coisas mais revolucionárias da protagonista é o quanto ela aceita a si mesma. Isso é total demonstração de força em uma menina adolescente, que nessa fase, mais do que em qualquer outra, recebe mensagens cruéis de todos os lados sobre seu corpo, gênero e intelecto, tornando esse um dos períodos mais sensíveis na vida das mulheres, e quando elas mais sofrem de baixa autoestima.

Apesar de não fazer ideia de quem é, e estar constantemente buscando por uma identidade, Lady Bird ainda possui dentro de si um compromisso com sua própria integridade, o que provavelmente lhe dá forças para externalizar esses atos de rebeldia, em vez de direcioná-los para si. Afinal, algo que também é terrivelmente comum na adolescência são diversos transtornos alimentares, psicológicos e afins.

Lady Bird

Em diversos momentos em que poderia achar que o problema estava com ela, Lady Bird entende, de certa forma, que o problema está no outro. Quando sofre uma desilusão amorosa, ela sabe que a culpa não foi dela pelo rapaz agir como agiu. Quando a mãe a critica severamente, ela sofre, mas consegue entender que não é culpada de todas as coisas de que é acusada. Toda essa certeza de si pode ser enxergada como egoísmo, que é uma das coisas das quais as gerações mais novas são constantemente acusadas pelas mais velhas. 

Mas Lady Bird não necessariamente sofre desse mal. O filme também a mostra aprendendo a ter empatia pelos outros. Isso não significa que ela é perfeita, inclusive ela comete vários erros pelos quais não sofre as consequências devidas, o que é uma das falhas do filme. Em algumas passagens em que é racista, Lady Bird não é forçada a reconhecer o erro mais tarde. O filme acaba mostrando esses momentos como se fossem apenas birra juvenil, trivializando a situação, o que provavelmente implica em uma cegueira privilegiada da própria diretora, que assim como a protagonista, é uma mulher branca.

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Apesar desses erros, é impressionante a proeza da diretora Greta Gerwig em fazer um filme de um gênero tão desgastado parecer novo e revigorante. Em geral, filmes sobre adolescentes incluem muitos clichês, e Lady Bird não necessariamente foge deles, mas os redimensiona e os faz tangíveis a ponto de não incomodarem. A melhor amiga, a garota popular, o rapaz cool desejado, todos estão lá, e enquanto não são necessariamente personagens totalmente desenvolvidos pelo roteiro, tem sua caracterização balanceada, a um ponto em que conseguimos ver mais de uma faceta de suas personalidades. 

Lady Bird

A garota popular, por exemplo, ao mesmo tempo que possui as características clichês desse arquétipo, também demonstra personalidade para além disso. Há momentos em que Lady Bird convive com ela e o público consegue ver o que ela pensa, como se sente em relação a determinados assuntos, o que faz dela um personagem mais redondo do que na maioria dos outros exemplares do gênero. Nenhum dos personagens é tampouco julgado pelo filme. Nem a mãe, nem a garota popular, nem o namorado, nem a própria Lady Bird. Todos são permitidos exibir diversas facetas e motivações, independentemente se certas ou erradas. 

Tecnicamente, o filme é muito bem executado. As piadas, que podem não funcionar tão bem no trailer, são precisamente pontuadas por uma montagem rápida, que as faz funcionar maravilhosamente no filme. As inúmeras frases de efeito são inseridas com tamanha naturalidade que mal as percebemos, salvo pelo impacto emocional que elas causam. O filme também balanceia muito bem os momentos cômicos com outros mais vulneráveis e tristes. 

Lady Bird

No geral, o que vai pegar mais a espectadora é a habilidade de se identificar ou de empatizar com Lady Bird, seja se vendo nas situações pelas quais ela passa, seja entendendo o ímpeto dessa jovem adolescente. Lady Bird não é exatamente um filme universal – assim como nenhum filme sobre infância/adolescência da classe média branca americana poderia ser, ao contrário do que Hollywood quer que acreditemos com seus Boyhoods da vida. Filmes com recortes tão específicos jamais poderiam ser universais, ainda mais levando-se em conta o quanto esse período da vida difere grandemente ao redor do mundo, entre etnias, classes e culturas diferentes. 

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Lady Bird é um filme muito bem feito, com excelentes atuações e com uma evocação sincera de sua autora (muitos o viram como um prequel de Frances Ha, filme em que a diretora atua como protagonista). É uma alegria que Greta Gerwig esteja sendo reconhecida nesta temporada de premiações por seu trabalho como diretora e roteirista, ainda mais com um filme que fala sobre a experiência feminina. Precisamos de cada vez mais diretoras nesse lugar de reconhecimento, falando sobre as diversas, inúmeras e inesgotáveis histórias que mostram um pouco do que é ser mulher.

Lady Bird estreia dia 15 de fevereiro nos cinemas.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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