A Forma da Água: pautas sociais como decoração

A Forma da Água: pautas sociais como decoração

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A Forma da Água, novo filme do cineasta Guillermo Del Toro, chegou em 2018 como um forte concorrente nas premiações do ano, liderando inclusive a corrida pelo Oscar, com 13 indicações. Ele conta a história de Elisa Esposito (Sally Hawkings), uma faxineira que trabalha em um centro de pesquisa aeroespacial na cidade de Baltimore, nos anos 60.

Ela sofreu ferimentos nas cordas vocais quando criança, e por isso é muda, se comunicando por linguagem de sinais. Caracterizada como uma espécie de Amélie Poulain, uma moça fofa e curiosa, que tem uma vida pacata e introspectiva, ela passa a tarde assistindo à musicais na TV com seu vizinho Giles, e à noite vai para o trabalho. A trilha sonora de Alexandre Desplat (excelente, por sinal) ajuda a criar uma ambientação bastante semelhante ao filme de Amélie.

Um belo dia, uma criatura aquática é trazida para o laboratório, e Elisa começa a se comunicar com ela, formando uma conexão emocional. O filme porém, não se alonga no relacionamento dos dois, preferindo deixar implícito o desenvolvimento da afeição entre eles, e partindo logo para uma trama de perseguição. Quando a criatura é ameaçada pelos cientistas, que não veem como podem extrair valor dela viva, Elisa bola um plano para salvá-la.

[Contém alguns spoilers!]

A Forma da Água

O roteiro, entretanto, é cheio de furos que tornam difícil comprar o que ele propõe. Elisa e Zelda, sua amiga faxineira interpretada pela ótima Octávia Spencer, têm acesso extremamente fácil à criatura no laboratório. A segurança do local é praticamente inexistente, e, mesmo sendo um ambiente repleto de câmeras, Elisa tem tempo de sobra para ficar ensinando à criatura linguagem de sinais e lhe dando ovos cozidos para comer. Nunca tem ninguém olhando essas câmeras de segurança? Tudo isso é super incoerente em um laboratório militar.

Essas câmeras só terão serventia em um momento posterior, quando um cientista é repetidas vezes a única pessoa que, por meio de coincidências, avista Elisa na sala onde a criatura é mantida. Essa dependência em coincidências mina a credibilidade do enredo.

O desenvolvimento dos personagens também é prejudicado pela falta de dedicação do roteiro a eles. Elisa é construída de forma bastante genérica, com seu desajuste por ser muda usado de forma a criar uma conexão com a criatura da água, que também é “diferente” e maltratada por isso. Mas esses sentimentos de não-pertencimento pouco são explorados ao longo do filme. É o clássico caso onde a narrativa conta uma coisa, mas não mostra se desenvolvendo na tela.

A Forma da Água

A criatura da água, então, não recebe atenção alguma do roteiro. Ela é usada apenas como acessório para os outros personagens, mas nunca provida de subjetividade, e o filme nunca nos permite contemplar a sua perspectiva. O personagem não possui nenhuma personalidade distinta, sendo caracterizado durante a projeção inteira como um animal selvagem, e, com isso, se vai qualquer chance do público se identificar com ele.

Já Zelda, é apenas uma caricatura: a amiga engraçada e tagarela, a coadjuvante negra usada como alívio cômico, uma clássica representação racista. O filme finge que tem consciência social ao ilustrar alguns episódios de racismo que Zelda sofre de outros personagens, mas faz efetivamente nada para desafiar o papel secundário reservado a ela no enredo. Não há motivo pelo qual ela não poderia ser a protagonista desta história. Inclusive, já passou da hora de darem a Octavia Spencer papeis principais, porque talento ela tem mais que de sobra.

A Forma da Água

O vizinho Giles e o cientista Hoffstetler tem um pouco mais de chance de brilhar. O primeiro tem que enfrentar todo tipo de barreiras por ser homossexual numa época conservadora, e o segundo tem que quebrar regras para seguir seu ideal científico, que vai de encontro aos interesses dos burocratas para quem trabalha. Há também mais espaço para desenvolver minimamente suas personalidades, mostrando como eles se comportam em situações de risco.

Mas quem brilha realmente é o coronel Strickland, vilão otimamente interpretado por Michael Shannon. Apesar de caracterizado de forma um tanto unidimensional, o personagem é bastante crível e realista, e tem mais chance que ninguém de desenvolver suas peculiaridades na tela. O roteiro parece se preocupar com ele mais do que qualquer outro no filme, e podemos vê-lo com a família, no trabalho, intimidando seus subordinados, sendo diminuído por seu chefe, sofrendo um acidente, e até comprando um carro. É uma escolha um tanto estranha num filme que opta por nem sequer se debruçar sobre o relacionamento de seus protagonistas, o que deveria ser o cerne da trama.

A Forma da Água

Apesar de tudo isso, A Forma da Água não é desprovido de qualidades, que residem principalmente na área técnica. Como mencionado anteriormente, a trilha sonora é um dos pontos altos, embalando delicadamente o enredo e conferindo a ele o tom de “conto de fadas dark” que Del Toro deseja imprimir. O filme é bem divertido de acompanhar, e não se torna cansativo em nenhum momento.

Uma ótima qualidade é como a sexualidade de Elisa é representada, de forma bem respeitosa, com masturbação feminina naturalizada, algo raríssimo de se encontrar em cinema feito por homens. O envolvimento romântico e sexual entre ela e a criatura da água também é apresentado de forma tão natural que chega a ser surpreendentemente positivo, fugindo de qualquer tabu “interespécie” que poderia ser suscitado.

Por fim, talvez o quesito mais espinhoso desta obra de Del Toro se dê em relação justamente aos elementos sociais e políticos a que alude. Como é comum em diversos filmes de Hollywood, principalmente esses que costumam fazer o gosto das premiações, questões sociais são colocadas como ornamentação simbólica na trama, como forma de decorar o ambiente onde a história se desenrola, mas apenas como recuso estético. É uma performance auto-consciente, onde o filme ressalta a importância desses problemas em busca de aprovação, mas nunca realmente vislumbra soluções para eles, pois, como aponta Robert McKee, esses filmes não querem mudar o mundo, eles querem coletar prêmios.

A Forma da Água

As questões de raça, classe e gênero aparecem nas ameaças de Strickland a Elisa e Zelda. Como já dito, Giles também sofre homofobia. Todos esses personagens estão conectados tematicamente pela solidão e rejeição social, o que os liga também à criatura da água, sequestrada de seu local de origem e abusada para fins comerciais e militares. O roteiro, porém, não faz uma menção sequer ao colonialismo. Claro que ele está adjacente à leitura do filme, mas A Forma da Água não faz um esforço deliberado para indiciá-lo como faz com essas outras questões.

A criatura da água é na verdade um deus da Amazônia (sim, eu também revirei meus olhos nessa parte). No filme, é dito que ele foi encontrado na América do Sul, e era venerado pelo “povo da Amazônia”. Mas qual povo, especificamente? Já que não há somente UM povo nativo da Amazônia, mas os colonizadores não se importam com isso. Não há uma cena recompensadora em que Strickland e seus superiores sejam realmente responsabilizados por essa ignorância e comportamento, o que faz questionar se A Forma da Água sequer está ciente desta questão como está com as outras. Ao invés, ele romantiza o envolvimento heterossexual entre a criatura e Elisa, formando um casal tão comum quanto a Bela e a Fera.

A Forma da Água

Só que aqui, é a Bela que usa a Fera, já que a criatura não possui agência nem vontades. Elisa o usa para sua satisfação sexual, e para libertá-la de sua própria vida insatisfatória; tudo isso embalado num prospecto de “felizes para sempre”. Como o roteiro não dá personalidade para a criatura, não temos como saber se é isso que ele realmente quer também, embora A Forma da Água queira nos fazer pensar assim. Só temos a perspectiva de Elisa na história. E, somando-se ao fato da criatura ter sido sequestrada de seu local de origem, ela é um símbolo do nativo colonizado sendo usado como acessório na vida de alguém que faz parte do grupo colonizador.

Muitas histórias já foram contadas sobre mulheres indígenas que se casam com colonos, e que às vezes até mudam a vida deles. O fato dessa história aqui inverter os gêneros não a torna uma narrativa okSeria bem melhor, talvez, se A Forma da Água fizesse da criatura um alienígena, mas ainda sim não deixaria de suscitar paralelos com os povos explorados pela colonização europeia (tal qual aquele filme, Avatar), que trouxe consequências com as quais até hoje eles têm que conviver. Nós sabemos bem, daqui do Brasil, quais são essas consequências. Ou deveríamos saber. Guillermo Del Toro, como mexicano, também deveria saber, apesar de que, não esqueçamos: ele ainda é um homem branco trabalhando em Hollywood.

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Outra questão que sempre surge à mente em filmes como esse é: por que sempre a Fera da história é masculina? Quando será que poderemos ter histórias onde as mulheres é que são os monstros dignos de ser amados por um cara lindo e bonzinho, que a vê por quem ela é, e não apenas pela aparência? Quando é que poderemos ter O Belo e a Fera, A Corcunda e Esmeraldo, Fiono e Shreka, e assim por diante?

Como mencionado no texto sobre o tropo Nascida Sexy Ontem, quando as mulheres são as criaturas fantásticas, elas são caracterizadas como lindas sereias, ou alienígenas que tem a mesma cara e corpo de uma supermodelo terrestre. Para ser realmente subversivos, esses filmes terão que naturalizar a aceitação de mulheres corporalmente dismorfas também, e mostrar que elas podem ser amadas tanto quanto qualquer monstro masculino.  

Se os filmes vão tratar de questões sociais e políticas, que realmente as abracem e se debrucem sobre elas. É justamente por não serem ameaçadores que Hollywood se encanta com filmes como esses, enquanto outros bem mais desafiadores e incômodos seguem esnobados nas épocas de premiações. Esses são filmes que fingem ter consciência quando na verdade pouco fazem para questionar o status quo, dando oportunidade para os realizadores e espectadores se sentirem bem consigo mesmos sem terem que realmente mudar nenhuma atitude. Apesar de A Forma da Água ter suas qualidades e ser um entretenimento eficiente, com posicionamentos auto-indulgentes pouca mudança acontece, realmente.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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