Rock in Rio 2019: a periferia finalmente conquistou o asfalto?

Rock in Rio 2019: a periferia finalmente conquistou o asfalto?

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Nas últimas edições do famoso – e, para alguns, o maior – festival de música brasileiro, um fenômeno vem ganhando não apenas notoriedade, mas estabilidade: a presença de figuras periféricas nos diversos palcos do Rock in Rio. Mesmo assim, permanece o questionamento de se a conquista do cenário musical – representado, aqui, pelo festival – pelos artistas (socialmente) periféricos é algo permanente e real.

Breve historicidade do som marginal¹

Nos últimos anos, o espaço dado aos artistas nacionais que não ocupam, histórica e socialmente, os espaços burgueses por certo aumentou. Tanto canais da televisão aberta – como o canal Globo – quanto da televisão a cabo – como a famosa MTV – passaram a dar um espaço e enfoque maior aos artistas dessa última geração.

Elenco da novela global "O outro lado do paraíso" dançando funk
Elenco da novela global “O outro lado do paraíso” dançando funk (Imagem: divulgação/Rede Globo)

Tais artistas, majoritariamente, expõem em suas músicas ou em discursos falados a luta até hoje presente na parcela marginalizada do território nacional, seja nas capitais do Sudeste ou nas quentes cidades do Norte. Talvez como uma forma de retaliação da onda ultra direitista que se faz hoje na política brasileira, bem como acompanhando a onda de empoderamento e reabilitação colonial recente, muitos artistas trazem uma pesada politização de seus atos e discursos, fazendo-nos questionar e reaprender toda a história social do país.

A democracia racial, afinal, ainda é amplamente acreditada e discursivamente reproduzida em todos os meios de grande comunicação do país – seja pela direita ou pela esquerda política -, não sendo, por certo, surpreendente a sua crença dentro de uma sociedade que prega uma educação mais elevada, mas não a efetua. Não poderá, inclusive, haver uma efetiva mudança de posicionamento social até haver uma evolução sociológica em todas as frentes políticas e de poder de forma a notar que não há crescimento comum sem equidade e compensação. Mas o assunto do texto não é esse.

Racionais Mc's
O grupo Racionais Mc’s (Imagem: divulgação)

Quando a Faculdade Unicamp divulgou, em 23 de maio 2018, a lista de obras obrigatórias para o vestibular 2019, o nome do álbum histórico dos Racionais Mc’s, “Sobrevivendo no Inferno”, causou uma certa estranheza aos, digamos, mais conservadores. Acontece que a escolha da Unicamp em adotar um álbum de marginais (sócio e geograficamente falando) foi reflexo não apenas do reconhecimento do peso histórico e social retratado ao longo do álbum, através da narrativa de um jovem da periferia, mas especialmente da conquista de espaço de tais artistas no cenário musical brasileiro.

Os gêneros musicais historicamente relacionados à periferia, como o samba e o funk, passaram a ser reconhecidos como “aceitáveis” fora do espaço das favelas apenas recentemente, mas, mesmo assim, não completamente.

Rennan da Penha, DJ preso arbitrariamente desde março por seu envolvimento com o funk
Rennan da Penha, DJ preso arbitrariamente desde março por seu envolvimento com o funk (Imagem: divulgação)

A história recente do funk e do rap, gêneros musicais histórica e ostensivamente criminalizados², vem andando para reconstruí-los como amplos e capazes de alcançar a todas as classes sociais (no caso do funk, olha-se especialmente para a cantora Anitta) de forma a retirá-los da associação negativa que os acompanha. Tal ato, entretanto, ignora o fato de que as instituições que controlam o país ainda veem a vida existente e promovida pelas favelas como descartável (sendo um exemplo latente disso o governador do Rio, Wilson Witzel) e não merecedora de reconhecimento fático.

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Rock in Rio: o sintoma da mudança?

Em abril desse ano, o festival Lollapalooza Brasil teve Kevin O Chris participando do show de Post Malone e cantando “Vamos Pra Gaiola”, levando o funk carioca para as terras paulistas e por certo aumentando o alcance do funk raiz (e não o funk pop) no cenário internacional. Assim, o acontecimento da presença do funk e do rap no Rock in Rio vem por certo aumentando e se espalhando aos demais festivais presentes no território brasileiro, mas não devemos nos enganar ao pensarmos que isso quer dizer automática aceitação. Como sabido por aqueles que ainda são criminalizados pelo Estado, a simples ligação efetuada pelo funk pode ser o suficiente para sentenças de prisão ou mesmo de morte.

Rock in Rio 2019
As cantoras Iza e Alcione, respectivamente (Imagem: divulgação)

É claro que não esperamos que tal pensamento esteja presente àqueles que vãos aos festivais, mas não é possível ignorar que a presença dos gêneros marginais em festivais musicais famosos, para além de aceitação, podem ser simples exemplos de utilização cultural para entretenimento.

Apesar de marginalizada, a música periférica brasileira sempre foi (ao menos secretamente) apreciada e pontualmente utilizada para a diversão das elites. O carnaval, afinal, tanto o de rua quanto o que agora ocupa o Sambódromo, iniciou-se como um evento ilegal e proletário. Curiosamente, e sem grandes diferenças ao passado, a festa atual ainda se trata de um show dos corpos periféricos àqueles que se dispõem a pagar o valor do ingresso e talvez a presença do funk no Rock in Rio seja isso.

Funk Osquestra e convidados
Funk Orquestra e convidados (Imagem: divulgação)

Apesar disso, é necessário reconhecer que a presença do funk e do rap em um festival desse porte – bem como dos demais gêneros marginais – é um marco importante aos movimentos de ressignificação e descriminalização, estando representados por artistas como Mano Brown, Emicida, Alcione e Funk Orquestra. Este último, inclusive, se destaca ao fazer a mistura e a ligação entre gêneros que, normalmente, não se misturariam: o funk e a música clássica.

A presença de gêneros periféricos em um dos maiores festivais de música do planeta não pode, dessa forma, ser dita como completamente boa e nem completamente ruim. Aparentemente, vem havendo uma certa conquista dos espaços burgueses pela periferia através, principalmente, do trunfo musical, o que é reflexo nos line-ups de festivais, como o Rock in Rio. Ainda não é possível dizer que a conquista é permanente, ou mesmo real, mas uma coisa é certa: a cultura da periferia aumentou o seu poder.

Notas:

  1. marginal como a margem da sociedade, em uma situação de fronteira. Sobre o termo, disse a escritora Glória E. Anzaldua: “As fronteiras se tornam fisicamente presentes em todos os lugares onde duas ou mais culturas se tocam, onde pessoas de raças diferentes ocupam o mesmo território, onde as classes mais baixas, baixas, médias e altas se tocam, onde o espaço entre dois indivíduos se encolhe na intimidade” (trecho do livro Borderlands/ La Frontera: The New Mestiza, Aunt Lute Books, pág. 698. 1987);
  2. percebe-se que a criminalização do funk ainda existe plenamente quando um DJ negro e periférico é preso, sem nenhuma concretude de provas testemunhais ou técnicas, sob a alegação unilateral de ser olheiro do tráfico na favela da Penha. O DJ Rennan da Penha, artista e idealizador do conhecido “Baile da Gaiola”, foi preso sob acusações claramente discriminatórias tanto a si quanto ao Baile (1º que as músicas do DJ fazem apologia ao uso de drogas; e 2º que o Baile da Penha seria uma espécie de “armadilha” para atrair mais pessoas ao consumir as drogas do tráfico do Alemão, comunidade da cidade do Rio de Janeiro). Questiona-se, mais uma vez, se a atuação do Judiciário brasileiro (apesar da Lei Lei 5.543/09, que define o funk como um movimento cultural e musical de caráter popular ) é a favor do povo ou a favor das elites classistas, permanecendo o conhecido corporativismo e clientelismo das grandes instituições

Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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