Bacurau: o Brasil invisível mostra sua resistência!

Bacurau: o Brasil invisível mostra sua resistência!

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Após ganhar o prêmio do júri em Cannes, “Bacurau” se tornou o filme brasileiro mais falado do ano. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o longa conta a história da cidadezinha fictícia no interior de Pernambuco que nomeia o filme. Logo após a morte da matriarca local, os moradores começam a notar diversos acontecimentos estranhos: a cidade some dos mapas, discos voadores rondam pelo céu, veículos aparecem baleados, manadas de cavalos surgem de repente, e assim por diante. 

Bacurau
Cena de “Bacurau”. Imagem: reprodução

Forte posicionamento político

Como os outros filmes de Kleber Mendonça Filho, “Bacurau” tem uma forte posição política, mas, dessa vez, escancarada e sem espaços para sutilezas. O que não é algo ruim, visto que, em tempos polarizados, qualquer hesitação ou ambiguidade pode ser lida como uma posição “em cima do muro”, ou pode dar brecha para interpretações indesejadas, dependendo da visão de cada espectadora. 

Bacurau” aborda temas como colonialismo, desigualdade e racismo dentro e fora do Brasil. Toca também num ponto importantíssimo, que é a aliança entre o poder político local e interesses estrangeiros, mostrando como a manutenção da pobreza é algo essencial para manter os privilégios e poder concentrados apenas numa pequena elite – tanto a nacional quanto a internacional. 

Bacurau

O problema de “Bacurau” está um pouco no terceiro ato, que (sem dar spoilers) se apega mais a uma catarse coletiva para resolver os problemas imediatos da cidade, e se abstém de contemplar uma mudança estrutural mais permanente. Os habitantes de Bacurau são valentes, resistentes e provam que não vão se rebaixar a qualquer coronel ou estrangeiro que venha botar banca, mas o fazem muito por vias de dar-lhes de volta seu próprio remédio, e a discussão para por aí.

Uma estratégia mais interessante é quando usam o “sumiço” a seu favor, tanto figurativamente – como no desaparecimento do mapa – quanto literalmente – quando esvaziam a cidade na chegada do prefeito safado que vem em busca de votos. O fato de serem “invisíveis” perante o resto do Brasil não significa que não tenham valor. E esse é o grande mote do filme.

Bacurau

Estrutura irregular

Apesar da bela fotografia e trilha sonora, “Bacurau” possui uma montagem bastante instável. Apesar de adotar elementos dos filmes de faroeste, dentre vários outros gêneros, as cenas de tensão são sempre interrompidas por momentos mais calmos logo em seguida, cortando a tensão e impedindo uma sensação de progressão emotiva. Após diversos assassinatos, por exemplo, algo banal entra em cena, o que prejudica o foco narrativo e emotivo. 

Outro problema nesse sentido é a falta de aprofundamento nos habitantes de Bacurau. A intenção do filme é transformar a cidade em si em personagem, portanto, seus moradores não tomam o protagonismo enquanto indivíduos. Porém, essa escolha faz com que as espectadoras tenham pouca chance de formar uma identificação com eles, e isso prejudica o envolvimento emocional.

Bacurau

Por exemplo, quando algumas pessoas morrem, não nos importamos tanto, porque não fazemos ideia de quem era aquela pessoa ou sua história. Entendemos a gravidade da situação de um ponto de vista intelectual, tal qual quando vemos notícias no jornal. Mas quando um conhecido nosso é a vítima, nossa resposta é muito diferente, pois envolve uma questão emocional. Essa falta de conexão mais profunda com os personagens impede uma resposta mais visceral do público aos eventos ocorridos em Bacurau.

A falta de desenvolvimento também pode contribuir para alienar boa parte do público brasileiro, que, já tendo visões preconceituosas sobre o nordeste, enxerga as pessoas do filme como estereótipos regionais. Há diversos momentos cômicos que vem de peculiaridades de fala ou comportamentos locais, e é difícil saber se uma plateia do sudeste, por exemplo, está rindo com os personagens ou dos próprios personagens.

Por mais progressista que a plateia seja, que é o tipo de público que este filme vem atraindo até agora, um desenvolvimento maior contribuiria para que ela pudesse ver além da fronteira das peculiaridades regionais, e se conectar realmente à história daquelas pessoas.

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Bacurau

O humor como válvula de escape 

Um dos grandes méritos de “Bacurau“, entretanto, está no humor. Há críticos que defendem que a comédia enfraquece a crítica social. Na verdade, a comédia abre a possibilidade de despertar uma reflexão simultaneamente ao entretenimento. Ainda mais nos tempos atuais, em que estamos saturadas de filmes apocalípticos, dramas pesados e notícias tenebrosas nos jornais todos os dias, a comédia nos faz respirar um pouco e conseguir rir mesmo sem esquecer dos problemas em que estamos envolvidas. 

A catarse é um mecanismo que naturalmente satisfaz os espectadores, e os diretores conferem essa satisfação, nem que seja na ficção, para o povo. Apesar disso envolver muitas questões delicadas, como o uso da violência e a falta de uma perspectiva mais ampla sobre as estruturas sociais, não podemos negar que o prazer contemplativo oferece um grande consolo. Imaginar como seria resistir, como os habitantes de Bacurau, talvez seja uma das coisas que mais precisamos nesses tempos sombrios

Bacurau” estreia dia 29 de agosto nos cinemas.


Edição realizada por Isabelle Simões.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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