“Quando me descobri negra” e o processo de se olhar como negra

“Quando me descobri negra” e o processo de se olhar como negra

Peço licença, antes de iniciar o texto, às leitoras do Delirium Nerd que não são negras. Não, não digo isso para proibi-las de ler a resenha – adianto desde já que se trata de um livro que precisa ser lido por todas as pessoas – mas aqui, tal qual na obra, vou me referir às experiências negras (inclusive a minha) e, por isso, quero falar com meus irmãos e minhas irmãs de pele, de etnia e de história.

Penso que a esta altura, as pessoas que já estão há um tempo dentro do movimento negro devem ter, pelo menos, ouvido falar de Bianca Santana. A autora – e negra descoberta há pouco mais de dez anos – tem sido figura presente (mesmo que apenas como referência) em rodas de conversa pretas, sendo percebida como uma importante figura da contemporaneidade negra. Agora, quatro anos depois de sua primeira edição, eu – também recém descoberta como negra – me permiti ler a obra de talvez maior reconhecimento da autora. “Quando me descobri negra”, da SESI-SP, mais parece meu próprio diário, tanto passado quanto presente, do que um livro originado no meu exterior.

Acredito que para toda pessoa negra criada no Brasil deva ser semelhante. Não somos criadas para nos percebermos como negras. Toda cor de pele – digamos que seja isso o resumo do ser negro – que vá um tom além do bronzeado de peles brancas, torna-se desde o nascimento um motivo de intenso tabu, sendo contornado ao longo da história do país e da vida de seus indivíduos.

Quando me descobri negra
“Quando me descobri negra”, de Bianca Santana (Imagem: reprodução)

O presente cenário político brasileiro serviu para algo essencial: o autodescobrimento. Nós, e ressalto que me refiro a pessoas negras, fomos obrigadas a questionar nosso lugar na sociedade brasileira de uma forma mais aberta e pública; a velha nova face do racismo brasileiro, agora apoiado em figuras governamentais e midiáticas que, mais do que nunca, escancaram o desdém conservadorista e obrigou as pessoas negras a optarem pelo abrir dos olhos. Afinal, quem nunca ouviu como um claro elogio que não é negra, mas sim morena?

“Tenho 30 anos, mas sou negra há dez. Antes, era morena.”

Ao longo da obra “Quando me descobri negra”, incomodamente curta, somos (re) apresentadas como pessoas negras a um mundo que, por nossa sanidade mental, muitas vezes é bloqueado. Ao ler os livros e ver os filmes ou séries para resenhas para o Delirium Nerd, sempre me preocupo em trazer um olhar além de feminino, negro e interseccional, para abarcar uma filosofia que preza por uma real diversidade multicultural. Entretanto, dessa vez, e penso que isso ocorreu em pouquíssimas obras, o olhar já estava assegurado nas palavras e histórias.

Os relatos, tanto os vividos por Bianca quanto os ouvidos por ela, são histórias que nós, mulheres e meninas negras, poderíamos retirar de nossas próprias e individuais vivências e é curioso como as experiências humanas podem se repetir com diferentes indivíduos de distintas idades e épocas. Apesar de não mencionado nas páginas, a figura do racismo estrutural se fez – e faz – presente nas vivências retratadas e relembradas.

Quando me descobri negra
“Quando me descobri negra”, de Bianca Santana (Imagem: reprodução)

“Quando me descobri negra” e a importância de relatar vivências em comum

A conhecida democracia racial, mesmo que mitológica, toma forma pela crença popular da existência de tal regime, especialmente por aqueles descendentes – fisicamente – dos históricos detentores do poder, mesmo que inconscientemente. Criam-se, dessa forma, barreiras virtuais aos indivíduos negros, sendo elas dissimuladas por rituais cotidianos de falsa polidez, sendo alguns retratados em “Quando me descobri negra”.

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Portanto, é evidente que o fator emocional é extremamente presente nas histórias das vidas retratadas. Mais que um  livro ficcional, é emocionante ler os relatos e sentir que é a nossa história que está sendo contada. Até mesmo as situações que não necessariamente passamos, por não usarmos turbante ou por não termos namorado um alemão branco, tocam fundo. Nós, negras, lemos relatos de irmãos e irmãs de vivência, de quem nos entende, de quem nos vê e viu e de quem nós somos. A filosofia ubuntu nunca fez tanto sentido para mim.

A autora de “Quando me descobri negra”, Bianca Santana (Imagem: reprodução)

Quando me descobri negra” é uma representação do contemporâneo perceber negro brasileiro. Somos a todo momento bombardeadas com tentativas de assassinato de nossa história – seja através de nossos corpos ou mesmo de nossas mentes –  e por muito tempo isso foi a regra, mas não pode ser mais.

A tristeza e a angústia seguem presentes, como trazido e sentido no livro, mas eu senti – e acredito que as leitoras também irão – os sentimentos de garra e vontade aumentarem. Não digo isso como um reforço do estereótipo e da percepção social de “negro pobre alegre que encontra a felicidade apesar de tudo”, não. Quero que a tristeza seja utilizada como combustível e que nossas vendas sejam retiradas, de forma a nos afastarmos não apenas do papel social nos imposto, mas principalmente das amarras decoloniais ainda presentes.

Por fim, quero que nos permitamos buscar referências em nossos semelhantes e não apenas como objetos de entretenimento escravista, mas como agentes e protagonistas. Utilizando a filosofia de Carl Jung, quero que olhemos para dentro de nós mesmas e nos descubramos ou acordemos como negras.


Quando me descobri negra

Bianca Santana (Autor), Mateu Velasco (Ilustrador)

Editora SESI-SP

96 páginas

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Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

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