Mulheres nos Quadrinhos: Kate Evans

Mulheres nos Quadrinhos: Kate Evans

Kate Evans nasceu em Montreal, no Canadá, mas foi criada em Surrey, na Inglaterra. Como cartunista, é altamente influenciada pelo seu background como ativista política. Sua luta começou na faculdade, quando, cursando literatura inglesa, se envolveu com a oposição ao Criminal Justice and Public Order Act 1994, lei do Parlamento do Reino Unido que fez alterações a leis existentes com o objetivo de punir certos “comportamentos antissociais”. Evans começou a contribuir semanalmente para a revista SchNEWS, publicação que focava em questões sociais e políticas, reivindicando a ação direta.

Arte, críticas sociais e humor

A partir daí, a relação entre a produção de Kate Evans e seu ativismo só se estreitou. De 1995 a 1998 ela se envolveu com ativismo ambiental e, em 1998, publicou sua primeira obra, “Copse: the Cartoon Book of Tree Protesting“. A obra é uma documentação de protestos e ações diretas contra o desmatamento para a construção de estradas. Em seu site, Kate comenta que publicou o livro por si só, pois achava que ele deveria ser muito barato e teve dificuldade em encontrar um editor que concordasse.

Kate Evans
Capa de “Copse: the Cartoon Book of Tree Protesting”, de Kate Evans, inédito no Brasil (Imagem: reprodução)

Depois disso, Kate continuou usando os quadrinhos como uma forma de abordar suas lutas políticas. Ela publicou “Funny Weather: Everything you Didn’t Want to Know About Climate Change but Probably Should Find Out”, no qual, de forma irônica e cortante, aborda o tema da mudança climática e aqueles que negam sua existência. Depois, em 2009 e 2014, voltou-se para a maternidade, com “The Food of Love: your formula for successful breastfeeding” e “Bump: how to make, grow and birth a baby”.

Evitando clichês ou uma romantização excessiva, Evans aborta tópicos relacionados à maternidade com bom humor e uma sinceridade refrescante, mas seu primeiro grande sucesso viria apenas 2016, com “Rosa vermelha: Uma biografia em quadrinhos de Rosa Luxemburgo“. Nele, Kate Evans emprega diversas metáforas visuais para narrar a vida de uma das maiores intelectuais do cânone do pensamento socialista, explicando, no processo, diversos conceitos e princípios marxistas. A HQ recebeu uma indicação para o Bread and Rose Awards, premiação britânica de literatura de esquerda.

Kate Evans
Capa de “Rosa vermelha: Uma biografia em quadrinhos de Rosa Luxemburgo”, de Kate Evans, lançado no Brasil pela WMF Martins Fontes (Imagem: reprodução)
Kate Evans
Arte de Kate Evans (Imagem: reprodução)

Experiências pessoais e o impacto delas nas obras de Kate Evans

Mas o ativismo de Kate não se limitava à teoria. Em 2017, ela publicou o que viria a ser seu trabalho mais conhecido: “Refugiados: A Última Fronteira“. A obra é uma coleção de relatos e experiências que Kate vivenciou em seu período como voluntária na chamada “Selva de Calais”, um acampamento improvisado de refugiados na zona portuária da cidade francesa de Calais. Buscando atravessar o Canal da Mancha para o Reino Unido através do Eurotúnel, os imigrantes tiveram que enfrentar condições de vida altamente precárias, bem como ataques da polícia e a demonização da mídia.

“Refugiados: A Última Fronteira” é um retrato cru e muitas vezes difícil de ler do cenário enfrentado por essas pessoas, a maioria imigrantes vindos do Afeganistão, Sudão e Eritreia. Fugindo de países ameaçados por guerras ou regimes totalitários, uma boa parte dos refugiados são crianças desacompanhadas ou pessoas com esperança de se reunirem a parentes residentes na Europa.

Refugiados: A Última Fronteira
Trecho do quadrinho “Refugiados: A Última Fronteira”, lançado no Brasil pela Darkside Books (Foto: Delirium Nerd)
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Narrada do ponto de vista de Kate, a história facilmente poderia ganhar um caráter condescendente ou fetichista, mas a autora acerta ao se manter focada nas suas experiências como voluntária, sem tentar se colocar como voz das pessoas que conhece na “selva”. O volume é separado em “capítulos” similares a contos e um dos detalhes mais impactantes é o recurso da ilustração de um celular mostrando comentários que Kate recebera na internet acerca de seu trabalho como voluntária. Isso contribui para a composição trágica e quase agressiva do livro, que não poupa detalhes dos sofrimentos e abusos vividos pelos refugiados, chegando a retratar painel por painel o abuso físico sofrido por uma mulher grávida nas mãos da polícia.

Kate Evans
Trecho de “Refugiados: A Última Fronteira”, de Kate Evans (Foto: Delirium Nerd)
Kate Evans
Arte de Kate Evans (Imagem: reprodução)

Sutileza visual e carga política

Essa retratação crua é favorecida pelo estilo um tanto cartunesco de Kate, que evita que a violência seja mostrada de forma gratuita. O sentimento é evocado com sucesso, mas as vítimas, desse modo, não são expostas de maneira muito gráfica. Como a autora Alison Bechdel afirmou, “é jornalismo em quadrinhos na melhor forma possível”. E ela não foi a única a apreciar a obra: “Refugiados: A Última Fronteira” recebeu o John C. Laurence Award e o Broken Frontier Award para não-ficção gráfica em 2017. Em 2018 a HQ fez história, tornando-se a primeira obra em quadrinhos a ser nomeada para o Orwell Prize, uma premiação britânica para literatura política.

Foi também nesse ano que Evans publicou sua primeira obra direcionada para crianças, “Don’t Call Me Princess“, uma coleção de contos de fada recontados de uma perspectiva feminista. Nela, Kate busca fazer mais do que simplesmente oferecer modelos de princesas feministas: ela quer desconstruir a própria ideia da princesa como algo que deve ser admirado, opondo-se ao pensamento monarquista por trás desse conceito. Como referência para imagens da protagonista do livro, Kate usou fotos de sua própria filha, que na época da publicação tinha sete anos. O resultado é uma obra vibrante, divertida e que não tenta camuflar os valores políticos de sua autora – assim como qualquer trabalho de Kate Evans.

Don’t Call Me Princess
Capa de “Don’t Call Me Princess”, de Kate Evans, ainda inédito no Brasil (Imagem: reprodução)

Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.

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Formada em História, Fernanda é escritora e trabalha com tradução, legendagem e produção de conteúdo. Gosta de games, quadrinhos e filmes. Passa a maior parte do tempo falando do seu cachorro ou do MCU.
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