Refugiados – A Última Fronteira: a resistência dos migrantes em um mundo adoecido

Refugiados – A Última Fronteira: a resistência dos migrantes em um mundo adoecido

Parece que determinadas leituras caem no momento certo. Na época das eleições vimos notícias que ressaltaram os mesmos incêndios que a autora americana Octavia Butler retratou no livro A Parábola do Semeador. O fogo, na obra de Octavia, pode ser interpretado como uma manifestação do ódio latente de uma sociedade que, por séculos, nutre-se através da desinformação da realidade, da intolerância, do racismo, da misoginia e da xenofobia. Pessoas que têm medo de perder seus privilégios, porque acreditam na utopia da meritocracia.

O medo devora a alma, como leva o título do longa-metragem de Rainer Werner Fassbinder. O medo daquele que pode conquistar algo que o outro não quer compartilhar. O medo daquele que não tem medo de amar por quem se apaixona, independente da sua orientação sexual. Pessoas foram violentadas e mortas durante as últimas eleições do nosso país, através de ações de seguidores de um representante governamental que detém um discurso explicitamente violento. Se por outro lado tivemos manifestações libertárias em prol da democracia e do amparo aos direitos e liberdades individuais, os tempos atuais nos fazem refletir mais do que nunca sobre a importância da arte e da cultura.

A arte é um reflexo da nossa sociedade, e tudo é uma manifestação política dos tempos que vivemos. E a arte, através dos livros, quadrinhos e filmes, é instrumento para conhecermos realidades diferentes da nossa e construirmos um olhar humanizador, diverso e inclusivo. O quadrinho “Refugiados – A Última Fronteira“, fruto de um trabalho humanitário realizado pela quadrinista francesa Kate Evans (autora do excelente quadrinho “Rosa Vermelha“, biografia de Rosa Luxemburgo, publicado pela WMF – Martins Fontes), lançado pela editora DarkSide Books neste ano, conta a jornada solitária, violenta e densa da realidade dos migrantes na França.  

Como disse Nina Simone: “Como ser um artista e não refletir os tempos atuais?“. Kate Evans construiu uma obra que é um retrato de uma sociedade adoecida, escassa de amor, empatia e benevolência. Ao longo das páginas acompanhamos os relatos dolorosos de diversos migrantes que resistiram na cidade portuária francesa chamada Calais. A região, com sua insalubridade, sujeira e  desproteção – onde os migrantes se encontravam –  ficou conhecida pelo nome de Selva. 

Refugiados - A Última Fronteira

Refugiados - A Última Fronteira
A edição da DarkSide Books como sempre está super caprichada! Com capa dura, a graphic novel traz um marcador de renda, referenciando as rendas que são fabricadas na cidade de Calais. Fotos: Delirium Nerd

Todos os relatos presentes na graphic novel “Refugiados – A Última Fronteira” são verdadeiros e a autora, que é de origem francesa, esteve presente nessa região junto com o seu marido, tentando ajudar na organização do local, através da distribuição de comida e roupas, que são adquiridos por doações, além de ter feito amizade com diversos migrantes, que mesmo diante de toda aquela violência e privação que enfrentam todos os dias ainda carregam uma parcela de esperança.

A autora inclusive demonstra consciência de seus próprios privilégios ao longo da narrativa e deixa bem claro que o objetivo dessa graphic novel não é meramente mais uma obra entre as inúmeras pesquisas sociais relacionadas à crise dos refugiados. Ela não está interessada apenas em mostrar a estatística dessa crise – que sempre ocorreu ao longo da História – mas sim em humanizar cada uma dessas pessoas com quem teve a oportunidade de conviver, relatando a perspectiva de suas vivências desestruturantes e desumanas pelo olhar desses próprios homens, mulheres e crianças.

Kate Evans transforma a estatística dos migrantes, que nos distancia da vivência dessas pessoas, e nos aproxima das histórias que não temos a oportunidade de conhecer através das notícias. Pessoas que almejam uma vida digna e oportunidades melhores, mais justas e igualitárias. E apesar de todo o clima pesado e triste da obra, vemos também momentos leves diante de toda aquela privação. São pessoas que buscam na escassez uma força para resistir e desfrutar da ínfima parcela de alegria que uma simples atividade recreativa pode proporcionar para quem convive diariamente com o medo, a perseguição e a violência. 

Refugiados - A Última Fronteira
Trecho de “Refugiados – A Última Fronteira”, de Kate Evans. Foto: Delirium Nerd

“Concebo, na espécie humana, dois tipos de desigualdade: uma que chamo natural ou física, por ser estabelecida pela natureza e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito e da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção e que é estabelecida ou, pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens. Esta consiste nos vários privilégios de que gozam alguns em prejuízo dos outros, como serem mais ricos, mais poderosos e homenageados do que estes, ou ainda por fazerem-se obedecer por eles.”

(Jean- Jacques Rousseau, Discurso e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens)

Uma das melhores passagens da narrativa de “Refugiados – A Última Fronteira” são as páginas que a autora mostra as mensagens recebidas no celular de pessoas que criticaram o seu trabalho, o fato dela estar ajudando os migrantes na região da Selva. Os discursos infelizmente são semelhantes aos que ouvimos aqui no Brasil. Motivados por ódio e preconceito, apontam que ela deveria estar ajudando as pessoas necessitadas do seu próprio país; ou que ela está ajudando pessoas que vão tomar os empregos da população francesa.

Contudo, todas essas mensagens de teor altamente preconceituoso e xenofóbico, que desconhecem completamente a realidade dos migrantes, são contestadas por ela no final da obra, demonstrando que a responsabilidade da crise atual dos refugiados é nossa, que essa crise nunca será resolvida através da implementação de muros ou fronteiras, mas através da discussão, da empatia e benevolência. 

Kate Evans
Trecho de “Refugiados – A Última Fronteira”. Foto: Delirium Nerd
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Muitas pessoas desconhecem a respeito de seus ancestrais e continuam reproduzindo, por gerações, discursos intolerantes sobre a migração e a situação dos refugiados. Quantas vezes não ouvimos até mesmo de pessoas próximas de nós os mesmos discursos que são demonstrados ao longo da graphic novel de Kate Evans… No caso do Brasil, o que essas pessoas não sabem (ou até mesmo sabem e ignoram) é que suas origens vieram através da migração de pessoas que, assim como as histórias retratadas pela autora, fugiram de lugares violentos e insustentáveis, em busca de uma vida digna, com oportunidades melhores de saúde, educação e moradia, direitos humanos essenciais e que deveriam ser assegurados para todas as pessoas.

Kate Evans

Refugiados - A Última Fronteira
Trechos de “Refugiados – A Última Fronteira”, de Kate Evans. Fotos: Delirium Nerd

Esses migrantes deparam-se com realidades desumanas em seus países de origem e precisam colocar toda a família em risco diante de uma oportunidade cega em outro país, que resultará em outras inúmeras violências e opressões. Frente a uma realidade insustentável, o que faríamos para proteger e proporcionar uma vida melhor para nossa família ou para quem nós amamos? Esses migrantes, retratados na obra de Kate Evans, precisam acreditar em uma parcela de esperança, pois é a única coisa que lhes resta.

Em “Refugiados – A Última Fronteira há uma construção sobre a desumanidade e a capacidade do preconceito e da violência humana em diversas esferas sociais. Começamos refletindo o descaso governamental dos países de origem desses migrantes, assim como observamos as atitudes xenofóbicas de autoridades governamentais de países classificados como “Primeiro Mundo”. A solução, retratada no discurso fascista da líder da extrema-direita Marine Le Pen é a implementação de fronteiras maiores. A crise dos migrantes na França é vista por Le Pen como uma “invasão muçulmana”. Ela classifica os franceses como parte de uma “resistência”, culpando os próprios migrantes pelas violências e privações sofridas. 

A Última Fronteira
Trecho de “Refugiados – A Última Fronteira”, de Kate Evans. Foto: Delirium Nerd

“A perseguição de pessoas sem poder ou de grupos que perderam o poder pode não ser um espetáculo muito edificante, mas não surge apenas da pobreza humana. O que faz os homens obedecer ou tolerar o poder efetivo e, por outro lado, odiar as pessoas que têm riqueza sem poder, é o instinto racional de que o poder tem certa função e um uso geral.”

(Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo)

Conhecer a nossa ancestralidade é um exercício de reflexão para compreendermos a importância da História em nossas vidas. Não apenas da história do país, mas da nossa própria história, para então sermos capazes de humanizar o nosso olhar diante de situações como a dos refugiados, pessoas que sempre resistiram ao longo da história, em diversos lugares do mundo.

Um relato pessoal 

Ao ler “Refugiados – A Última Fronteira” refleti que uma grande parcela da história da minha ancestralidade foi perdida ao longo da geração de minha avó e mãe. Através de conversas com a minha mãe descobri que a minha bisavó era muçulmana e veio da Síria para o Brasil em busca de oportunidades melhores. Após essa marcante leitura, que considero uma das melhores desse ano, penso ainda mais na história da minha bisavó que nunca conheci, e como deveria ter sido difícil para ela deixar todos os seus costumes, a construção de parte da sua vida e família em um lugar que ela nunca mais voltaria e que atualmente ainda é marcado por situações de violência e conflitos.

Quanto tempo ainda precisamos para reconstruir o nosso olhar diante da situação dos refugiados? Quanto tempo falta para aprendermos a importância da empatia em um mundo adoecido, onde surgimos através da migração ao longo da História, diante de inúmeras guerras e conflitos, da colonização e massacre de nativos, da perseguição, desestruturação e escravidão de povos que foram e continuam sendo perseguidos, oprimidos e mortos? Por isso é tão importante lermos obras como a de Kate Evans e relembrarmos sempre a História, seja a do nosso país e a nossa ou a de outros países, para que um dia essas opressões e conflitos não façam mais parte de um ciclo de violência que se repete ao longo da História. 

4 dicas de obras para quem se interessa pelos assuntos abordados em “Refugiados – A Última Fronteira” (preconceito, xenofobia e conflitos entre povos):


Refugiados - A Última FronteiraRefugiados – A Última Fronteira

Kate Evans

DarkSide Books

176 páginas

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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