There Will Be No Intermission: Amanda Palmer sem confete ou remorsos

There Will Be No Intermission: Amanda Palmer sem confete ou remorsos

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Não é de hoje que Amanda Palmer – ou Amanda Fucking Palmer, como a própria prefere ser chamada – tem construído um legado, no mínimo, notável no cenário da música indie internacional. Hoje cantora solo, Amanda migrou de sua profissão de estátua viva nas ruas de Boston para um vórtex de sucesso repentino que durou mais de uma década com a sua banda, The Dresden Dolls. Ela e o baterista Brian Viglione se intitulavam como punk cabaré e, numa sucessão de rodas de cervejas com os fãs após os shows e shows compactos gratuitos com o ukelele nas praças estadunidenses, eles conquistaram o mundo. Ou ao menos, aquele mundo. E desde então, Amanda não parou mais.

Já reconhecida como uma voz feminina voraz por sempre dialogar com temas vistos como tabu tanto em sua música quanto em entrevistas, em 2013, sua autobiografia, “A Arte de Pedir”, conta como construiu sua carreira através do patrocínio espontâneo em uma relação de escambo de afeto contínuo com seu público. Agora, Amanda conseguiu ir ainda além de tudo que já havia abordado até então com seu novo álbum “There Will Be No Intermission“: sexualidade, poligamia, violência, relações familiares, infância, vícios e mil e uma inseguranças. Tudo isso já passou pela sua voz grave e seu piano mais do que agressivo. Desta vez, ela falou sobre ser mãe. Mas, como de praxe, com a mesma entonação nada misericordiosa de sempre.

There Will Be No Intermission: Cicatrizes abertas, feridas expostas

There Will Be No Intermission

O álbum saiu propositalmente no dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher. Mas mesmo que ao escutá-lo repetidamente, leva-se um tempo para absorver seu conteúdo. O próprio nome já diz tudo: não haverá interrupção. Ao decorrer de suas dezenove faixas, Amanda faz um apanhado dos últimos sete anos de sua vida, o espaço entre seu último álbum solo, “Theatre is Evil” e o lançamento da vez. Aborto. Ser mãe. Ser filha também.

There Will Be No Intermission” traz o amadurecimento final de uma artista que já cutucou todas as feridas possíveis e, após os quarenta anos, se depara com aquelas questões fundamentais da vida que já não podem mais esperar. Amanda torna isso uma jornada, uma narrativa detalhada, íntima e, ao mesmo tempo, sem piedade alguma em sua honestidade visceral, tanto com seu público quanto consigo mesma. O álbum é um confessionário vagaroso, é a custosa desconstrução de um muro de infinitos tijolos absurdamente pessoais.

Neste ponto, é preciso de uma leitura mais cuidadosa. Afinal, Amanda é uma artista que, ao ser criticada pelo jornal britânico The Daily Mail por deixar escapar um milímetro do seio em um festival de música, respondeu o veículo com uma canção ao vivo de mais de cinco minutos, onde cada estrofe foi golpe direto, ácido e sem uma gota de lamentação aos jornalistas que a atacaram. E a performance foi coroada pela sua nudez, é claro. Amanda não só não tem problema algum com ela como a pratica como provocação aos conservadores que sempre a fazem de alvo. Mas aí já é tópico para depois.

Com canções na faixa dos dez minutos, “There Will Be No Intermission” é recheado de confissões do começo ao fim, sejas elas explícitas ou não. Na primeira delas, “The Ride”, Amanda suaviza sua voz forte e ao lado apenas do piano, traz incontáveis analogias sobre o medo do desconhecido, sobre a hipocrisia das relações interpessoais e sobre o pesar daqueles que já se foram. Essa, por sua vez, é seguida por “A Mother’s Confession”, cuja letra mais parece um monólogo desenfreado com um terapeuta do que uma série de estrofes, uma narrativa com começo, meio e fim. Mas é aí que mora a beleza da coisa.

A música começa com “o nosso filho tem quatro anos, seu nome é Anthony ou Ash, como apelido, e ele é pequeno demais para fazer as coisas sozinho”. Daí, ela conta sobre a vez que o colocou numa superfície, perdeu a atenção por um segundo e logo em seguida, viu a cena em câmera lenta dele caindo para o chão. Numa voz quase que chorosa e que transmite o sentimento de culpa instantaneamente, ela diz que este foi o pior momento de sua vida. E esta é a só a primeira das muitas revelações que Amanda traz durante a faixa.

Claro que nem todas são negativas. Como uma criança tagarela e animada, Amanda conta da felicidade ao levar Ash para visitar seu padrinho, conta da manta de crochê feita por uma parente idosa que sobreviveu ao Holocausto para seu filho, “suas mãos de quase cem anos costurando cada fileira” do cobertor. Ela traz detalhes da dor e alegria sem poesia ou floreio algum, tudo na mesma medida. É uma conversa com uma melodia chiclete e tocante de fundo, é a mais pura confissão da mulher que viajou o mundo todo, se conectou com milhares de pessoas e, aos quarenta e tantos anos, entrou em pânico pela primeira vez ao segurar o próprio seu filho e encarar o mundo.

Finalmente, os curativos

Amanda Palmer

Ao olhar para trás em sua carreira, dá para entender isso um pouco melhor. A verdade é que Amanda nunca quis ser mãe. Já falou de aborto antes, falou de violência sexual e da carnificina que são os abortos clandestinos, tudo isso em seus álbuns com a banda e álbuns solo, em meio a shows e discussões. Mas falou também em sua autobiografia sobre outros assuntos. Coisas corriqueiras como remédios, antibióticos e infecções. Sobre como um antibiótico específico que tomou para uma infecção renal – que sofria na época – a obrigou a interromper uma gravidez da qual nem ela mesma sabia. E sobre como isso a destruiu.

Entender isso permite que a ouvinte compreenda também os minutos finais de “A Mother’s Confession”. Estrofe após estrofe, erro após erro em seu aprendizado com Anthony, Amanda termina com “pelo menos o bebê não morreu”. Pesado, é verdade. A cada vez que repete estas palavras, Amanda vai perdendo o tom vulnerável e macio que carregou em toda a canção e dá lugar a um consorte de confiança, um rugido de uma fera que pôde, finalmente, proteger a sua cria. O rugido ganha companhia e o grito de vitória se torna um coro vibrante. E a música termina assim, com todo mundo sem ar. Tanto ela o tolo, o desavisado que a ouvir pela primeira vez, mas que, no final das contas, se pegará também celebrando a sua história.

Agora, pule algumas casas e escute “Voicemail for Jill”. No mesmo capítulo em que Amanda conta sobre o antibiótico e a infecção em seu livro, a narrativa descontraída e apressada dá lugar a uma descrição detalhada do momento pós-aborto. Da sensação de luto pelo que nem ao menos chegou a ter – e em seu caso, nem ao menos sabia que teria -, de abandono ainda que cercada por pessoas queridas, sobre a dificuldade de pedir por atenção e cuidado quando se é justamente isso que está tentando fazer. É sobre um tipo diferente de cuidado, na verdade.

Em “Voicemail for Jill”, Amanda, que já abortou três vezes, tanto por escolha, necessidade e por ter sido vítima de violência sexual, evidencia o foco mal direcionado da atenção naquele momento. Ao cantar suavemente que “ninguém naquela calçada irá dizer que o seu coração também importa”, ela esboça o perfeito cenário tão conhecido por todos; ativistas pró-vida tão determinados pelas suas crenças que se tornam cegos em relação à vida da mulher que entra e sai daquelas clínicas.

Elas são desumanizadas por estarem lá dentro, mas da sua dor, ninguém quer saber. Independentemente do motivo, este é um momento pelo qual mulher alguma jamais irá querer passar. Ignoram seu emocional e, como no caso de Amanda, tanto faz o que as levou até lá. O julgamento final é o que as define e fim de história. Mas, ainda num tema tão espinhoso quanto esse, ela consegue trazer um tom de acolhimento. Ou, até mesmo, de sororidade e de empatia absoluta – Jill, nossa protagonista, passou pelo mesmo que Amanda e após toda uma canção melancólica, nossa interlocutora oferece flores e vinho, música e horas de conversa. Uma celebração da vida que foi salva, apesar de tudo. Afinal, essa vida também importa.

There Will Be No Intermission: Vulnerabilidade acima de tudo

There Will Be No Intermission

Outra faixa que merece destaque aqui é “Look Mummy, No Hands”. O título já fala por si só e, embora esta seja um cover da versão original de Dillie Keane, a interpretação de Amanda também é de uma sensibilidade avassaladora. Provando mais uma vez o peso da relação mãe e filhos em sua vida, a cantora se colocou no outro lado da moeda. A criança encantada pelo mundo, que quer desbravá-lo e se virar sozinha, de repente se depara pedindo pelo aconchego de um colo protetor. Ela vê que já não o tem mais e é obrigada a lidar com isso. Seja na pele da mãe ou da filha, Amanda se retrata de forma jovial, energética e sempre cheia de medos e expectativas. Ao assistir a versão ao vivo, antes mesmo do próprio álbum sair, é nítida a emoção da cantora durante a performance. Mais do que compreensível.

Ao conhecer mais a fundo um pouco da obra de Palmer, essas relações com os atos de ser mulher e ser mãe ficam ainda mais ricas e complexas; em outro cover, desta vez de canção “Mother”, do Pink Floyd, Amanda transforma este clássico da banda britânica de rock em uma sinfonia de sussurros e violinos. Ela cutuca uma das muitas feridas do governo Trump com a frase “mãe, eu devo construir um muro?” enquanto corre com mães e suas crianças pequenas do que aparenta ser o início de uma gestão corrupta, perigosa e implacável durante um videoclipe intrépido e delicado. Uma só palavra a mais e vira spoiler. Mas o poder da maternidade reina até mesmo neste cenário que beira o apocalipse das relações humanas, basicamente.

E vale ressaltar que este não foi o único manifesto de Amanda contra homens em posição de poder. Em uma parceria com a cantora britânica Jasmine Powers, em maio do ano passado foi lançada “Mr. Weinstein Will See You Now”, uma resposta à série de denúncias de casos de assédio e estupro na indústria cinematográfica que estourou no final de 2016. Harvey Weinstein era um produtor dono de um império. E seu nome foi o primeiro de uma fileira gigantesca de dominós a cair.

Uma música de seis minutos que começa na discrição, leva ao desespero, indignação e, por fim, ao sentimento de justiça. Justiça por e para mulheres. Justiça feita por mulheres com os dizeres “você não ouse esquecer que sou eu que estou escrevendo esta história”, repetidos de forma convicta e irrefutável por um conjunto de mulheres de origens e histórias distintas, todas juntas ecoando a mesma mensagem no videoclipe que fora lançado logo em seguida.

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Quando a poeira é poesia, a nostalgia vale ouro

Amanda Palmer

There Will Be No Intermission” é um álbum complexo. Nele, Amanda dialoga com sua autora favorita da infância e redescobre imagens da adolescência; fala dos medos da vida adulta, traz à luz o tema do suicídio, fala sobre coisas pequenas e ordinárias como se fossem gigantes temas existenciais. Amanda inverte os papéis e os atribui seu valor, brinca e conta segredos, grita e murmura numa música só. Desdobra um ciclo em várias partes de um quebra-cabeça, de uma jornada sem dar tempo para que o ouvinte recupere o fôlego e compreenda o que está acontecendo. Ela não sabe e esse não é o objetivo. Ela só quer compartilhar com quem quiser ouvir. Quer achar e se conectar com sobreviventes doutros caminhos tão inesperados quanto o seu.

Talvez, de todas as feridas abertas em suas faixas e suas letras, o que mais surpreenda em “There Will Be No Intermission” é o quão intimamente ligado o debate político e social é com as relações interpessoais da vida humana. Amanda fala sobre políticas públicas o tempo todo. Nas redes sociais, nas manifestações das ruas, nada disso é novidade para seus fãs. Mas é interessante observar como estas discussões são intrínsecas e pertinentes ao emocional e visão de mundo de cada indivíduo que compõe uma sociedade.

There Will Be No Intermission

Falar de aborto, de saúde pública e educação é, inevitavelmente, falar de como nos relacionamos com as pessoas que são afetadas por estes temas. No caso de Amanda, do filho que não pôde nascer, do filho que veio depois. Da mãe que teve e da que está se tornando também. Da violência que sofreu e, acima de tudo, da qual sobreviveu. Tudo isso é dor, íntimo, é um caldeirão de vivências que trazem tanto cicatrizes quanto gratidão. Da conversa na terapia para o palanque de debate, está tudo ligado e não dá para ignorar. Aliás, é possível, mas já deu para ver que isso não dá lá muito certo. Olhar para o âmago, o cerne de uma pessoa é olhar para fora também e compreender como estas duas pontas são codependentes.

O ser humano é um bicho social afetado pelo seu meio e ponto final. Ele chora, agradece, compartilha e sobrevive, tudo ao lado de seus pares. Este é o “There Will Be No Intermission“, em suma. Já detalhadamente, que fique como lição de casa para você mesmo absorver e interpretar. Isto é, se sair vivo. Porque com Amanda Palmer e sua obra, simplesmente não existe meio termo nem meias palavras. Ame ou odeie, se entregue ou saia correndo no meio da jornada.


Edição realizada por Isabelle Simões.


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Letícia Castor é formanda em Jornalismo, Letícia tenta entender esse diálogo doido entre cultura e sociedade. Tagarela sobre na esperança de ser ouvida mas, na realidade, seus gatos são sua única platéia.
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