Os Homens Explicam Tudo para Mim: o silenciamento das mulheres como controle, poder e anulação

Os Homens Explicam Tudo para Mim: o silenciamento das mulheres como controle, poder e anulação

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Atire a primeira pedra a mulher que está lendo esse texto e nunca foi interrompida por um homem em uma conversa, sobre um assunto seguramente do seu conhecimento. Parece uma utopia bem distante do nosso mundo, imaginar que exista algum lugar onde nenhum homem interrompe uma mulher. Consegue imaginar um mundo onde os homens admiram a inteligência de uma mulher, ouvindo ela falar sobre a sua especialidade, estudo, ou projeto científico e acadêmico? Talvez em uma galáxia distante essa igualmente e respeito ao poder de fala exista, mas por aqui, as coisas são bem diferentes… Rebecca Solnit, autora e ativista norte-americana chega ao Brasil com a publicação do seu livro de ensaios, Os Homens Explicam Tudo Para Mim, pela editora Cultrix. A autora começa o livro narrando um caso verídico que aconteceu com ela, culminando a origem do termo mansplaining:

Durante uma festa onde a autora comparece com sua amiga, um homem puxa assunto sabendo que ela é autora, mas deixando claro seu desinteresse quanto ao seu trabalho. Então este homem todo entusiasmado começa a contar para Rebecca – numa espécie de monólogo em vez de uma conversa saudável – sobre um livro que ela DEVERIA LER. A letra maiúscula é para enfatizar o descontentamento da autora, pois durante a narração da conversa é claro que este homem quer ser ouvido por ela e não ouvi-la. Porém o que ele não sabia, pois interrompia incessantemente qualquer tentativa de diálogo de Rebecca, é que ele estava falando diretamente com a autora do livro que insistia em mencionar que ela DEVERIA LER. E o mais infeliz de tudo é que casos como esse são mais comuns do que imaginamos. 

Os Homens Explicam Tudo para Mim
Minha cara quando um homem insiste em dizer algo que eu já sei, também conhecido como mansplaining.

Os ensaios de Rebecca Solnit neste livro não têm como objetivo narrar apenas casos de mansplaining. A ideia da autora é refletir como uma “simples” interrupção do poder de discurso de uma mulher, pertence a toda uma cultura de silenciamento e anulação da existência das mulheres, que culmina em casos mais extremos de violência misógina, como agressões e posteriormente, feminicídios. Rebecca nos mostra como a anulação do poder de fala de uma mulher é algo sistêmico. 

Em Os Homens Explicam Tudo Para Mim, a autora conta que apesar de ter recebido o crédito por ser a inventora do termo mansplaining, ela deixa claro que não criou essa denominação, surgindo posteriormente à publicação do seu ensaio. Antes de escrever o ensaio que deu origem ao termo, havia um site chamado Academic Men Explain Things to Me (Os Homens Acadêmicos Explicam Tudo Para Mim) onde centenas de mulheres que trabalhavam em universidades contavam suas histórias, como eram tratadas com paternalismo, interrompidas constantemente no meio acadêmico. Fica claro que dependendo do meio onde a mulher se encontra, como a universidade, nesse caso, trata-se de um local onde há a propagação do ensinamento e aprendizado, porém pode ser um local extremamente hostil e silenciador para as mulheres, através de um senso de uma superioridade intelectual atrelada ao machismo estrutural pelo qual esses homens se expressam.

Os Homens Explicam Tudo para Mim
Imagem: “All the women. in me. are tired”, poema de Nayyirah Waheed (Reprodução)

Rebecca mostra que o mundo ainda não tem o mínimo interesse em ouvir as mulheres. Isso é um reflexo das histórias que conhecemos, tanto no audiovisual quanto na literatura, e na participação das mulheres em cargos de chefia ou na política. Uma simples pesquisa rápida pelo Google nos mostra que o mundo ainda pertence aos homens, que as oportunidades para as mulheres são desiguais e que eles próprios possuem o direito de validar os direitos reprodutivos e sexuais que nos pertencem, uma vez que a legislação é majoritariamente escrita por homens e temos uma maioria de homens governando. Somando essa perspectiva do gênero ligado a recortes de classe e raça, os resultados são mais desastrosos ainda. O mundo não quer ouvir as mulheres, não quer que elas participem ativamente dos debates, da política, das produções culturais, porque eles querem estar no controle.

Não se esqueça de que já tive na minha vida muito mais confirmações do meu direito de pensar e falar do eu a maioria das mulheres, e aprendi que duvidar de si mesmo, em certa dose, é uma boa ferramenta para alguém se corrigir, compreender e progredir – embora duvidar de si mesmo, em excesso, seja paralisante e a autoconfiança total produza idiotas arrogantes.”  (página 16)

Parte do que somos é construído socialmente sobre como nos comunicamos e nos expressamos com as pessoas. Se não nos é permitido manifestar nossas opiniões em todos os locais, nós mulheres, enquanto a maioria da população do mundo, somos educadas e interrompidas como afirmação de quem o mundo não nos pertence, de que nossa opinião não é válida. Estamos em locais onde há debates e duvidamos da necessidade e importância de nos expressarmos.

Fazem-nos acreditar que a nossa opinião não é importante, e o ambiente majoritariamente masculino de muitos debates e discussões compactua para que acreditemos nisso. Talvez seja por isso que vemos poucas mulheres na política ou em cargos de chefia. Lembremos, por exemplo, do caso de Ana Cláudia Macedo, representante do movimento de mulheres lésbicas, que foi interrompida por Jair Bolsonaro enquanto discursava em setembro de 2016, durante uma sessão da Câmera dos Deputados sobre violência contra mulher. 

A exposição atual dos casos de assédio e violência contra a mulher

Acompanhamos desde o ano passado a revelação de diversos relatos de abusos e violência sexual que atrizes e diversas profissionais enfrentaram no audiovisual. A exposição ganhou força a partir da divulgação dos relatos cometidos pelo produtor milionário de Hollywood, Harvey Weinstein. Algumas pessoas chegaram a questionar o motivo dessas mulheres falarem sobre esses abusos sofridos após tantos anos. “Por que ela não contou na época?”. Vivemos em um mundo onde a desigualdade de gênero permeia todos os espaços. Quando vemos comentários com esse teor, que tem o objetivo de retirar a responsabilidade do agressor e atribuir a culpa à vítima, podemos pensar de exposição de um abuso pode ter um peso maior para a mulher que decide relatar.

“A pandemia da violência sempre é explicada por qualquer motivo, menos o gênero do agressor – a explicação mais ampla de todas.” (página 37)

Em um dos ensaios de Os Homens Explicam Tudo Para Mim, a autora expõe o comportamento sexual predatório de Dominique Strauss-Kahn, um dos homens mais poderosos economicamente, chefe do FMI – Fundo Monetário Internacional, que agrediu uma camareira e imigrante africana numa suíte de um hotel de luxo em Nova York. A vítima levou o caso a polícia; Strauss-Kahn foi retirado de um avião para Paris no último momento e levado sob custódia policial. A exposição e denúncia do caso gerou uma repercussão enorme na mídia, que graças às palavras dessa mulher, várias mulheres começaram a revelar o comportamento sexual predatório de Strauss-Kahn, desde estudantes, jornalistas a colegas de trabalho. Rebecca menciona no ensaio: 

Mas o fato de que um homem que controla uma parte do destino de todo o planeta dedicava suas energias, aparentemente, para gerar medo, infelicidade e injustiça ao seu redor é um fato que diz alguma coisa sobre o estado do nosso mundo e os valores dos países e instituições que toleram seu comportamento, e o comportamento de outros homens como ele.”

A denúncia e exposição desses casos é importante para que mais vítimas possam ter coragem para falar. Mas elas podem questionar: “Alguém acreditará em mim?” Podemos pensar que se somos interrompidas, silenciadas a todo momento em conversas com colegas, familiares, amigos e companheiros, qual dessa sociedade acreditar, de fato, em um relato de abuso e agressão sexual? Qual a chance teremos diante da palavra de homens poderosos?

Os Homens Explicam Tudo para Mim, Rebecca Solnit
Na imagem: Foto que Cathy de la Cruz divulgou no Twitter e denominou como a “Estátua do Mansplaining” (Reprodução)

Contudo, presenciamos constantemente na mídia que homens (majoritariamente brancos) que são economicamente poderosos e abusadores, muitas vezes continuam com suas carreiras intactas após a divulgação desses relatos, enquanto as mulheres vítimas desses homens precisam lidar com a culpabilização da sociedade, além de poder consequentemente impactar negativamente em sua carreira. Um exemplo disso, é o relato da atriz e cineasta Sarah Polley durante uma entrevista. Ela conta que também foi assediada por Harvey Weinstein, e que durante sua carreira de atriz nunca sentiu a mesma liberdade que sente enquanto trabalha como roteirista ou diretora. Ela comenta a naturalização do assédio que acontece nos bastidores e o tratamento descartável e deplorável acometido pelas atrizes.

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Talvez seja por isso que muitas mulheres acabam desistindo de ocupar determinados espaços.  Uma mulher precisa provar que seu trabalho é melhor 3 vezes melhor que o de um homem medíocre, e ela ainda precisa enfrentar assédios, sendo que a sua carreira pode ser impactada negativamente a qualquer momento. Um exemplo disso é o que aconteceu com a atriz Winona Ryder. A atriz possuía uma carreira sólida, com destaque em diversos filmes apreciados pela crítica, mas após ter praticado furto em uma loja teve sua carreira afetada por tal acontecimento. Enquanto isso, o ator Johnny Depp, acusado de violência doméstica pela ex-esposa Amber Heard, continua recebendo papéis de destaque em diversos filmes de Hollywood.

Os Homens Explicam Tudo Para Mim serve de alerta para refletirmos como a interrupção de uma mulher praticada por um homem faz parte da relação de uma cultura patriarcal e misógina, onde o silenciamento é uma espécie de manifestação que tem o objetivo de colocar a mulher “em seu devido lugar”, aquele onde o que ela diz não importa, resquícios do machismo estrutural, de um passado onde as mulheres não podiam votar. Estamos todas cansadas dos homens explicarem tudo para nós. Precisamos mostrar que o nosso discurso é importante e precisa ser ouvido. Que existimos e não nos calaremos mais. 

Leituras recomendadas:


Os Homens Explicam Tudo para MimOs Homens Explicam Tudo Para Mim

Rebecca Solnit

Editora Cultrix

208 páginas

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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