[LIVROS] “A Arte de Pedir”: as conexões cotidianas de Amanda Palmer

[LIVROS] “A Arte de Pedir”: as conexões cotidianas de Amanda Palmer

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“A Arte de Pedir: Ou como aprendi a não me deixar preocupar mais e a deixar as pessoas ajudarem”, de Amanda Palmer, teria todas as características de um livro de autoajuda biográfico banal, se julgado apenas pela sinopse que a editora fornece, mas passa a anos luz de ser um mero entretenimento barato: a autora é, ao mesmo tempo, brutal e sutil em sua narrativa, mas, acima de tudo, verdadeira. O livro exala realidade pelos poros das quase trezentas páginas escritas por Palmer, levando o leitor a refletir violentamente sobre todos os aspectos relativos ao seu universo particular e sobre as trocas que realiza diariamente, desde a primeira página até às últimas palavras do parágrafo que o encerra.

“A arte de pedir pode ser aprendida, estudada, aprimorada. Os mestres do pedido, tal como os mestres da pintura e da música, sabem que essa área é composta essencialmente de improvisações. Ela viceja não na criação de regras e de uma etiqueta, mas na quebra dessa etiqueta.

Isto é: não há regras.

Ou melhor, há montes de regras, mas que imploram de joelhos para serem quebradas.” (A Arte de Pedir, pág. 52)

Cantora, feminista e ex-integrante da banda de punk cabaret The Dresden Dolls, Amanda Palmer já passou por diversas experiências boas e ruins antes da fama, em diversos empregos, como garçonete, striper e estátua viva; e é a este último que a autora se prende inicialmente para contar sua jornada pelo ato de pedir.

Munida de um vestido de noiva comprado em um brechó, peruca chanel preta, maquiagem branca por todo o rosto e uma coragem infinita, Palmer subia em uma pilha de engradados de leite e dava vida à A Noiva de Dois Metros e Meio (do inglês, “Eight Foot Bride”), no centro da Praça Harvard, Cambridge. Ao colocar qualquer valor em dinheiro no chapéu que A Noiva deixava timidamente no chão à sua frente, o espectador era agradecido com uma flor pequenina e um olhar teatralmente meigo vindo da artista.

“Quando você é olhada, pode ficar de olhos gloriosamente fechados. Você suga a energia, rouba os holofotes. Quando é vista, precisa estar de olhos abertos, pois está vendo e reconhecendo sua testemunha. Você aceita energia e gera energia. Você cria luz.

Um é exibicionismo, outro é conexão.

Nem todo mundo quer ser olhado.

Todo mundo quer ser visto.” (A Arte de Pedir, pág. 181)

As apresentações de Amanda, em tese e sem obrigações formais, poderiam se resumir a apenas isso: você me dá o dinheiro de que preciso, eu te dou uma flor simbolicamente, você vai embora e eu volto a esperar mais dinheiro da próxima pessoa que passar, porém aquela troca significava muito mais. Tanto espectador quanto artista saíam de suas zonas de conforto. O primeiro, por sentir-se envergonhado ao arriscar chegar perto de uma mulher vestida de noiva e dar-lhe algo, e a segunda por estar terrivelmente vulnerável ao que pudesse acontecer (vindo dos desconhecidos que passavam) e também por, implicitamente, estar pedindo (ato que por si só não é fácil e também demanda coragem, como ela mesma relata). Neste processo Amanda também notava, fora a timidez de muitos que a observavam, pessoas realmente fragilizadas, que doavam dinheiro apenas para ter aquele minuto singular de contato humano. Foi através disso que ela passou a enxergar sua arte não apenas como um “gerador de renda” para sua futura carreira de musicista profissional (nessa época em que se equilibrava entre o emprego de estátua viva e atendente em uma sorveteria, Amanda já contava com um acervo de inúmeras composições, além de saber tocar piano há anos), mas essencialmente como um compartilhamento de momentos, conexões profundas que existiam diariamente: eu estou aqui. Você é importante para mim

“O que eu não previra eram os contatos súbitos e intensos com certas pessoas – principalmente as solitárias, que pareciam não ter contato com ninguém fazia séculos. Eu ficava fascinada com os momentos íntimos do contato visual demorado acontecendo na calçada cheia de gente, entre o barulho do trânsito, o som das buzinas, os gritos dos vendedores ambulantes anunciando seus artigos e os panfletos que os ativistas entregavam a cada um que passava, enquanto alguns temporários encardidos tentavam vender o jornalzinho da comunidade de desabrigados às pessoas que corriam para pegar a condução… calçadas onde geralmente é proibido trocar com desconhecidos um olhar direto e silencioso por mais de um ou dois segundos.

Meus olhos diziam:

Obrigada. Estou vendo você.

E os olhos deles diziam:

Nunca ninguém me vê.

Obrigado.” (A Arte de Pedir, pág. 37)

amanda

Ao passo que Amanda fascinava-se com as apresentações, sempre era surpreendida pelas indagações: isso é justo? Estar tirando algo de uma pessoa em troca de uma mísera flor não me torna uma megera sem coração? Pedir é um ato egoísta e desesperado? Mas, bem lá no fundo, a resposta era: não. Não há egoísmo, desespero, imaturidade ou oportunismo em pedir. Pedir demanda doação, e estar aberta a doação significa que outra pessoa receberá algo valioso em troca, mesmo que por poucos instantes.

A troca é a base da convivência humana e, acima de tudo, demanda confiança mútua, a mais pura forma de reciprocidade. Pede-se uma carona quando se está sem carro em um dia de chuva, pede-se a um amigo que revise um trabalho, pede-se amor (o tempo todo), e isso é que move cada ser a continuar nesta imensa jornada rumo ao desconhecido.

A primeira parte do livro encerra-se quando Amanda encontra o Cloud Club, uma espécie de república para artistas de diversos gêneros, e a segunda inicia-se quando ela conhece Brian Viglione, que viria a ser o baterista da The Dresden Dolls, em uma das festas organizadas por Lee Barron, fundador do local. A banda, constituída apenas por Amanda nos vocais e piano e Brian na bateria, foi crescendo aos poucos e conseguiu chegar à notoriedade graças à enorme entrega de ambos, tanto nos palcos de bares, casas de show e residências aleatórias quanto (e especialmente) aos fãs. Amanda nunca teve medo de se jogar, literalmente, no público. Segundo ela, esta é a sua maneira fundamental de dizer confio em vocês.

Os primeiros CDs, as primeiras experiências de shows oficiais, as primeiras fotografias e videoclipes da banda, e até os lugares para dormir entre um show e outro foram conseguidos por meio do pedir. Essa proximidade entre artista e público foi o que moveu (e move até hoje) Amanda a continuar na estrada interminável das trocas humanas e artísticas (em todos os seus shows ela chama artistas variados para se apresentarem com ela antes, durante e após o espetáculo). Desta forma, ganhando aos poucos a confiança dos amigos e dos fãs, que logo se tornaram íntimos da cantora, Palmer criou um exército de pessoas solidárias, que não só ajudavam a ela, como também uns aos outros. Todos fazem parte da mesma teia.

Mas, mesmo sabendo que as trocas feitas por ela e o mundo eram de total autenticidade e livre vontade de ambos, Palmer viu-se muitas vezes a ponto de enlouquecer com o fato de apenas cogitar pedir algo a alguém, como quando entrou em desespero às vésperas de seu casamento com o autor britânico Neil Gaiman. Amanda estava prestes a lançar uma campanha de financiamento online (mais conhecida como “crowdfunding”) na plataforma Kickstarter para seu novo álbum, mas ficou apavorada com a ideia de não arrecadar o suficiente para cobrir os gastos com a equipe e a produção do CD. Neil se propôs a ajudá-la, caso precisasse, mas Amanda tinha medo de a) não conseguir ressarcir o marido, caso o plano falhasse e ela tivesse que pegar seu dinheiro emprestado e b) de Gaiman, em alguma briga futura, lembrar-lhe que a ajudou quando ela estava em apuros. Apesar de aparentar ser extremamente segura, forte e inabalável, a autora mostra-se exatamente como todas as pessoas existentes no planeta: temerosa por, em algum momento de sua vida, hipoteticamente falhar e decepcionar quem ama, e esse é apenas um dos fatores que tornam Amanda um reflexo de seu público. A empatia e a identificação autor-leitor são imediatas.

No entanto, a cantora conseguiu arrecadar mais de um milhão de dólares em sua empreitada pelo árduo terreno do crowdfunding e, finalmente, o álbum Theatre Is Evil (em parceria com a The Grand Theft Orchestra – ela e Brian separaram-se alguns anos depois do início da The Dresden Dolls, por conta do desgaste emocional e físico que ambos sofreram na antiga gravadora da qual faziam parte) foi lançado, o que gerou uma discussão tamanha na internet sobre quem tem o direito de pedir financiamentos online e até onde um artista pode ir em prol de sua carreira. Amanda foi crucificada por esse ato e, até hoje, quem a enxerga de fora não consegue ver que esse valor exorbitante arrecadado (o valor estipulado na campanha era de duzentos mil dólares) é apenas reflexo da confiança e admiração do público para com a cantora e seu trabalho.

Pedir propaga e absorve conhecimento, e toda forma de aprender é válida, mas para isso necessita-se arriscar. Amanda é a prova viva de que isso dá certo: em suas turnês, em diversas partes do mundo, tenta sempre imergir na cultura e na vida de quem a recebe calorosamente, mesmo não conhecendo totalmente a pessoa. Em uma dessas visitas, mais precisamente em uma das suas experiências com couchsurfing (expressão que significa, literalmente, um “surf por sofás”), Palmer e mais quatro amigos (a dupla The Danger Ensemble, uma garota responsável pela venda de ingressos e um homem encarregado de ajustar o som na hora do show) encontraram-se em um bairro pobre de Miami rumo à casa de uma fã que lhes ofereceu hospedagem por uma noite. Ao chegar à casa humilde e aconchegante, Jacky, uma garota de apenas dezoito anos, os recebeu com bastante alegria e tratou de apresentá-los à família. Eles eram imigrantes ilegais de Honduras e Jacky era a única que sabia falar inglês, mas, mesmo assim, todos trataram de receber o grupo de braços abertos e contar-lhes um pouco de suas histórias. Quando foram se recolher, descobriram que a família havia cedido os quartos em que dormiam para eles pernoitarem. Ao deitar na cama do quarto de Jacky e imaginar a garota e a família dividindo o espaço apertado da sala por conta dela, mais uma vez Amanda se questionou: isso é justo? Não conseguia encontrar um motivo para tal atitude daquelas pessoas tão adoráveis, porém, ao se levantar pela manhã, teve uma conversa esclarecedora com a mãe de Jacky; ela agradeceu inúmeras vezes Amanda pela música que fazia, pois ela ajudava sua filha e a deixava imensamente feliz. A cantora percebeu então que sua música era metaforicamente a flor que entregava nos tempos d’A Noiva: a gratidão que sentia naquele momento transbordou e ela finalmente entendeu que o que fazia era uma dádiva mútua.

A narrativa do livro é atemporal e em cada página o leitor se depara com pequeninos capítulos nos quais Amanda relata as diversas histórias vividas por ela, mostrando que sua carreira e vida pessoal são meticulosamente intrínsecas. Algumas pessoas importantes para Amanda e seus respectivos relacionamentos com elas também são relatados, como é o caso do marido Neil Gaiman (os fãs do escritor poderão ter um vislumbre de como Gaiman age fora dos mundos ficcionais que cria, mostrando-se uma pessoa tímida, insegura, mas com um enorme coração compreensivo) e Anthony, seu mentor e pseudo pai adotivo, dono dos melhores conselhos que foram acatados pela cantora durante toda sua vida, e que são levados pelo leitor mesmo depois do fim da obra.

Amanda não escreve simplesmente: ela conversa com cada pessoa que tem o livro em mãos. Cada leitor sente-se visto por ela, como os espectadores d’A Noiva, e a leitura flui não só pelo fato de ser acessível a diversas faixas etárias, mas por ser a vida de muitos pessoas contada em cada linha, em cada apuro, em cada choro e conquista da autora.

“Tem que começar pela arte. As músicas precisavam tocar as pessoas, em primeiro lugar, e ter algum significado para elas, para que as coisas funcionassem. É essencialmente a arte, não o artista, que faz nascer a rede. Aí a rede se reforçava e se fortaleceria com um conjunto de trocas e interações que eu mantinha pessoalmente, em shows ou pela internet, com os integrantes da minha comunidade.

Não dava para terceirizar isso. Eu podia contratar ajuda, mas não para fazer as outras coisas fundamentais que criam conexões emocionais: fazer a arte, sentir junto com outras pessoas num nível humano. Ninguém pode fazer isso por mim – nenhuma empresa de marketing pela internet, nenhum empresário, nenhum assistente. Tem que ser eu.” (A Arte de Pedir, pág. 112 – 113)

Em um mundo no qual a competição e a soberba reinam incansavelmente, Amanda é uma raridade. A maioria dos artistas preocupa-se apenas com os lucros vindos de sua arte (se é que se pode chamá-la assim) e não se esforçam o mínimo para agradar ao público como a cantora faz. Não há entrega. A relação pessoa-pessoa transcende o nível artista-espectador, e é isso o que torna Amanda única: saber ouvir, olhar nos olhos de quem precisa, abraçar e amar simplesmente move-a a um patamar grandioso, tanto como cantora quanto como ser humano.

“A Arte de Pedir” é um manifesto para que todos saiam de suas nossas zonas de conforto e passem a se arriscar, não sós, mas com a ajuda de outros que estão na mesma belíssima luta diária. A arte, sendo ela um quadro, um texto, uma música, uma comida ou uma programação de computador (como citado pela mãe de Amanda, que foi programadora nos anos 80), deve ser exposta, pois alguém no mundo precisará dela. Como elucidado pela autora, de acordo com o trecho do livro “The Gift”, de Lewis Hyde: “a energia das dádivas de um artista pode despertar as nossas”. Esta resenha é fruto da conexão autor-leitor antes, durante e após a leitura.

Portanto, que a dádiva de Amanda circule.

Aceitem a flor.


A Arte de Pedir 

Editora Intrínseca

Ano de publicação: 2014.

300 páginas

Onde comprar: Amazon


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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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