O Ano do Macaco: Patti Smith e seu caminho onírico para a realidade

O Ano do Macaco: Patti Smith e seu caminho onírico para a realidade

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Para Patti Smith, 2016 foi o ano de seus 70 anos e também o ano do macaco no horóscopo chinês. No célebre poema As I walked out one evening, W. H. Auden nos diz algo como “não deixe que o tempo te engane, você não pode conquistá-lo”. O Ano do Macaco é um livro que se rende ao tempo.

O ano, para Patti, foi de perdas, eventos brutais e de uma saudade se tornou maciça. Este foi ano em que, como diz sua epígrafe de Antonin Artaud, uma loucura mortal veio ao mundo.

O Ano do Macaco: a poeira dos dias pela visão de Patti Smith

Quem está familiarizado com a escrita de Patti logo percebe que, como em Linha M, esse é um livro sobre sua vida enquanto ela acontece. Sua narrativa é uma janela, com dimensões cuidadosamente definidas por ela, para entrarmos no emaranhado de seus dias.

Em O Ano do Macaco, Patti nos permite conhecer um pouco de como trama os fios das horas e ouve como tudo, de alguma forma, tem algo a lhe dizer. Essa é uma narrativa sobre nada além das engrenagens da própria essência, mas a essência nunca se dá ao luxo de não ser nada. Para Smith, não há o que possa ser banal.

Além da morte de dois amigos queridos, 2016 foi um ano terrível politicamente para Patti: segundo a poeta, a eleição de Donald Trump, em meio à apatia americana e infindáveis mentiras, pareceu ser o ápice de um ano destinado à loucura.

“Um a um, todos tropeçaram no amanhecer. O valentão urrou. O silêncio tomou conta. Vinte e quatro por cento da população tinha elegido o que existe de pior em nós mesmos para representar outros setenta e seis por cento.”

Em O Ano do Macaco, o surrealismo domina a narrativa. A autora não o permite à toa; o absurdo de seus sonhos se contrapõe ao absurdo da realidade, ao que ela assiste no “mundo real” e lhe parece insuportável. Mais que escapismo, seus sonhos se tornam outra linguagem para interpretar os fatos.

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Patti e o caminho onírico

Patti Smith e O Ano do Macaco
Patti Smith. Imagem: reprodução

Patti é muito ligada aos sonhos e sinais; aliás, parece sempre disposta a construir narrativas para as coisas menores em sua vida: embalagens com a grafia errada, cafés quase anônimos ou mesmo histórias deixadas sem conclusão. Em 2016, um ano que lhe tira muitas coisas, ela encontra conselhos, caminhos e alento nos próprios sonhos. Talvez, por piedade, ela nos leva a fazer o mesmo.

Não nos damos conta de quando estamos dentro de um sonho seu até que algo pareça não fazer sentido, até que nos percebamos juntos dela na oficina dos irmãos Van Eyck, em uma praia em chamas ou no deserto. Como ela, também queremos abandonar os cenários desolados. Portanto, nessa espécie de cumplicidade que sua narrativa constrói, em pouco tempo a fronteira entre o real e o onírico e a sanidade crua ou alguns dedos da loucura se tornam irrelevantes: não mais nos importamos de acordar dentro de outro sonho.

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Sua linguagem onírica também traduz uma vulnerabilidade intensa. Smith sente falta dos seus mortos, de quando não era tão velha nem tão faminta, e parece pouco disposta a seguir contando para além dos dedos quantas pessoas amou e perdeu. Não é sua solidão que a incomoda, mas sim sentir que ao fazer 70 anos não mais parará de acumular mortos, fotos e memórias. Hoje, muito do que jurou que não esqueceria não faz mais sentido.

“Marco Aurélio nos pede para reparar na passagem do tempo de olhos abertos. Dez mil anos ou dez mil dias, nada pode parar o tempo ou mudar o fato de que vou chegar aos setenta no Ano do Macaco. Setenta. Só um número, mas um indicativo da passagem de uma parte significativa da areia prevista na ampulheta.”

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O Ano do Macaco - Patti Smith

As penas do galo dourado

“O tempo dá um jeito de continuar passando”, diz a poeta em um epílogo mavioso. Ainda que cansada e um tanto perplexa com a marcha alucinada da contemporaneidade, o ano seguinte, do galo, chega. O galo carrega um pouco do sol no dourado de suas penas, mesmo que seja uma visão horrenda. Mesmo que um novo dia signifique, ainda que nos sustentemos nos sonhos que acordamos.

“Sam está morto. Meu irmão está morto. Minha mãe está morta. Meu pai está morto. Meu marido está morto. Meu gato está morto. E meu cachorro que morreu em 1957 continua morto. E ainda sim eu continuo achando que alguma coisa maravilhosa está para acontecer. Quem sabe amanhã. Um amanhã e depois uma sucessão inteira de amanhãs.”

Mesmo após ter perdido coisas demais, esse não é um livro sobre a falta. Se parecemos perder tudo, nos sobram sonhos, as memórias e algumas palavras. A vida ainda conversa conosco sob o ruído do trânsito.

O Ano do Macaco
Imagem: reprodução

Patti não pretende conquistar o tempo, não é esse seu tipo de ilusão. Registrar suas memórias é uma forma de rendição, um jeito de ainda honrar seus mortos e a própria vida que, que ainda em meio a um ano tão amargo e sob uma “convergência preocupante de estrelas” ela se sente afortunada em preservar.

“No fim das contas, ele dizia, tudo serve de forragem para uma história, o que significa, acho, que somos todos forragem.”

Patti Smith não se arrisca a dar palpites para o futuro, mas o espera enquanto segue com mansidão. E hoje, a loucura que o ano do macaco trouxe ao mundo também parece inclinada, pouco a pouco, a desaparecer.


O Ano do Macaco

Patti Smith

Camila von Holdefer (tradutora)

Companhia das Letras

168 páginas

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Edição por Isabelle Simões. Revisão por Gabriela Prado.


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Autora

Historiadora e escrevedora de frases longas. Entusiasta de diálogos. Fala de literatura e de história até na mesa do café.
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