A conclusão triunfante de “O Céu de Pedra” e a nova dama da ficção científica

A conclusão triunfante de “O Céu de Pedra” e a nova dama da ficção científica

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No fim de 2019, fomos premiadas com o fim da saga de Essun, Alabaster, Nassun, Hoa e muitos outros, em meio ao que antes pode ser conhecido como “A Quietude”. O capítulo final – pelo menos em forma escrita – da trilogia de sucesso de N. K. Jemisin respondeu perguntas e palpites que foram criados e alimentados nos volumes 1 e 2. Além disso, evidenciou a mente criativa da autora em uma trama tão complexa quanto humana, fazendo jus aos prêmios conquistados em razão de seu excelente e inclusivo trabalho literário em ficção científica. Com personagens racial e sexualmente diversas e múltiplas, a autora conseguiu manter a consistência da trama em “O Céu de Pedra“. Do mesmo modo, conseguiu acrescentar elementos suficientes para manter-nos fisgadas e com enorme dificuldade de largar o livro por mais de um minuto.

Nos volumes anteriores da trilogia, embarcamos na jornada de quem agora é Essun. Em “A Quinta Estação” acompanhamos o início de sua fuga – e jornada – até algum espaço no qual possa se permitir sentir segura, longe do Fulcro, dos quietos irredutivelmente intolerantes e, é claro, dos sanguinários guardiões. No primeiro livro da saga, a autora nos convida à vida de Essun. Consequentemente, somos obrigados a enxergar a urgência de sua situação, o que a autora faz introduzindo-nos ao imenso e absurdamente complexo e novo mundo da Quietude e da sociedade segregada, que a construiu e a ocupa.

Indicando a reconhecida diversidade presente ao longo de sua obra, tão logo somos apresentadas ao mundo da Quietude. Nele, nos circundamos de indivíduos de múltiplos e distintos fenótipos, bem como backgrounds e personalidades. A diversidade étnica-racial, e regional, trazida ao mundo literário por N.K. Jemisin nos lembra da importância da existência de autores não-brancos no circuito.

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N. K. Jemisin
N. K. Jemisin (Foto: reprodução)

Já no segundo livro, “O Portão do Obelisco“, somos levadas à uma viagem ao passado de Essun, descobrindo-a quando foi Syenite e Damaya, para tentar entender suas origens – de forma mais clara e profunda da apresentada anteriormente – bem como a estrutura societária dividida em classes sociais e, quando cabe, sensoriais (quietos e orogenes). Foi nesse livro que o tema da diversidade sexual, já presente na trama de Jemisin – através principalmente de Tonkee, talvez a única mulher trans da trilogia – encontrou novas faces e dinâmicas com as quais se firmar, sem, entretanto, tornar-se o ponto principal da história ou mesmo da própria existência das personagens.

Quanto a isso, ressalta-se a importância de não restringir a existência ou a personalidade de alguém – ou de uma personagem – a sua orientação sexual. Tal fato é apenas uma parcela ínfima das características de um ser vivo. E foi isso que Jemisin fez. Apesar de ser demonstrada uma faceta mais humana – e sexual – da protagonista, nem sua história e tampouco seu desenvolvimento se resumiram a isso; fizeram parte de seu amadurecimento, por certo, mas não sobrepuseram sua visão de si – ou dos demais – como humana.

Em “O Portão do Obelisco”, ademais, apresenta-se a faceta de “Essun-mãe” de forma concreta e não somente com o abstracionismo de lembranças e flashbacks da protagonista. Ao trazer à tona não apenas a sobrevivência de Nassun, mas a própria descoberta dela como uma poderosa orogene, bem como a existência de outra criança – Corundum – cria-se um novo dinamismo e dá-se um novo ângulo à trama. Um ângulo que explica quem é Essun e o que ocorreu, assim como o que foi preciso que ela visse e vivesse, para ela abandonar Syenite (e Damaya).

Assim como grande parte daqueles marginalizados pelo sistema governamental dominante e desequilibrado, a protagonista sofreu diversas perdas. Apesar de decorrerem de fatos e situações para além de seu controle pessoal, são consequências de ações determinantes passadas que ainda ressoam na sociedade presente. Desde a infância e até a vida adulta. É sobre este olhar que baseia-se o capítulo final da trilogia.

Damaya, Syenite e Essun, personagens de N. K. Jemisin
Damaya, Syenite e Essun. Arte por spaceteatime.tumblr (reprodução)

Agora, com a certeza da sobrevivência de Nassun e mais ou menos de seu paradeiro, Essun está completamente focada na busca da filha. Entretanto, essa não é a única faceta da trama. Para além do protagonismo absoluto de Essun – e aprofundando-se nos significados do que é um orogene, bem como de sua origem – conhecemos a história antes mesmo da história. Ocorre que, assim como foi indicado nos livros anteriores, existe uma força além do poder dos humanos. Esta força tem o poder de e a influência sobre os eventos que ocorrem na superfície. Ademais, além da inquietante ação paralela – para o mal ou para o bem – dos comedores de pedra (Hoa não é o único, se se lembram bem), o novo mistério revelado através dos relatos passados costuram mais fortemente os fios da trama de forma ainda mais intrincada.

Os sinais são decodificados e as explicações são dadas – assim como a historicidade dos relatos – de maneira pormenorizada. Porém, o fator fantasioso da trama não é perdido. Afinal, apesar de nós, no mundo real, termos diversos folclores e “explicações” espirituais para acontecimentos humanos e naturais, é certo que tudo não passa – isto é, aquilo não explicado pela ciência – de suposições e lendas culturais. No livro, entretanto, a história originária deixa o aspecto folclórico para trás e apresenta-se em um contexto espiritual e empírico.

Ao terminarmos o segundo volume da trama, somos deixadas como uma solução para o fim da estação. Tanto Essun quanto Nassun descobrem, de formas tão distintas quanto traumáticas, que para acabar com o mundo e, simultaneamente, salvar a humanidade, será necessária uma manobra mista de orogenia e magia para trazer a Lua de volta ao eixo terrestre. O que nenhuma das duas sabia, e é isso o acompanhado ao longo das quase 400 páginas de história, é como tal ato seria extenuante ao ponto de acarretar uma mudança inimaginável.

Mapa d'A Quietude, da trilogia de N. K. Jemisin
Mapa d’A Quietude.

Ora, não vamos mentir, havia dicas e possibilidades de ligarmos os pontos , mas ainda assim o fim apresentado em “O Céu de Pedra” foi de tirar o fôlego. O desenvolver das relações humanas, entretanto, foram – como sempre – as verdadeiras protagonistas da trama, a qual se fundamentou (desde o início) na interação inter e intra-pessoal para o processo de criação da história. São as emoções humanas, mesmo que derivadas de seres aparentemente inanimados, que iniciaram e puseram fim a trama. Dessa forma, são elas que continuam a ressoar conosco mesmo após o fim do livro.

Apesar da maestria com que a epopeia sci-fi de Jemisin foi escrita, não pudemos deixar de lado como esta obra pareceu corrida em relação às anteriores. Veja bem, a qualidade de escrita e de construção da autora não sofreu nenhuma queda grave. Entretanto, a quantidade de informações trazidas no último capítulo da saga – em contrapartida às relativamente poucas páginas de história – fez com que a apresentação, a explicação e o fechamento da trama nos parecesse um pouco corrido e “um em cima do outro”. Mas talvez tenha sido esse o objetivo da autora: não nos dar tempo de digerir as informações, visto que seus próprios personagens não tinham muito.

Não há dúvidas de que “O Céu de Pedra” foi um final incrível de uma autora estreante e da qual ainda se conhece pouco do Brasil. N.K. Jemisin guarda o melhor e o mais chocante para o final, mas não abandona a maneira cadenciada e conexa de contar suas histórias. Um dos poucos livros, nos recentes anos, que lemos e ficamos realmente chateadas por não ter mais nenhuma página para devorarmos e imaginarmos a vida e a história dessa nova Quietude (que talvez nem seja mais Quietude). Pois é, temos uma nova dama na ficção científica.


O Céu De PedraO Céu De Pedra

N. K. Jemisin

512 páginas

Editora Morro Branco

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Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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