Doctor Who: o que aprendemos com a nova Doutora?

Doctor Who: o que aprendemos com a nova Doutora?

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A notícia de que uma nova temporada de “Doctor Who” está sendo preparada deixou os fãs animados, não apenas pela qualidade da produção, que já está no ar há mais de 50 anos, mas também pela aceitação da nova Doutora, vivida pela atriz Jodie Whittaker, e do Team TARDIS.

A 11ª temporada de “Doctor Who”, exibida mundialmente no ano de 2018, deixou saudades. Os enredos interessantes somados às excelentes atuações, sobretudo de Jodie Whittaker, trouxeram valiosas lições e, mais uma vez, tivemos muito que aprender com a série.

Começando por “The Woman Who Fell to Earth”, episódio inaugural da temporada, vemos uma Doutora destemida, persistente e, acima de tudo, bondosa, que faz de tudo para defender o que é certo e inspirar as pessoas a buscarem sempre o bem. Por mais de uma vez, a Doutora enaltece a capacidade dos homens de se inclinarem para a bondade. Por isso, acredita que a humanidade vale a pena e deve ser protegida. Esta é a maior lição que a série como um todo leva ao público: os homens podem ser bons, basta ter fé e mostrar-lhes o melhor caminho. E foi o que a Senhora do Tempo fez em várias circunstâncias da décima primeira temporada.

Jodie Whittaker em Doctor Who
Imagem: Doctor Who (divulgação/BBC)

Como seus antecessores, a Doutora também teve seus momentos de insegurança, especialmente quando estava passando pelo processo de regeneração. Seu cérebro não estava completamente amadurecido e a Senhora do Tempo passou por momentos de confusão, principalmente quando esteve separada de sua TARDIS. Foi assim em “The Ghost Monument”. Não deve ser nada fácil ter tanto conhecido acumulado e não conseguir ordená-lo. Porém, independentemente de seu estado físico, a Doutora jamais sucumbirá à maldade e mais uma lição é mostrada para o público: o enaltecimento da não violência.

No segundo episódio da 11ª temporada, a busca pela TARDIS levou a Senhora do Tempo e sua equipe para um planeta inóspito, palco de uma estranha competição intergaláctica. Lá eles encontram muitas armadilhas pensadas pela raça dos Stenza. O que se deve fazer quando o perigo se apresenta? Procurar uma arma e atacar? Não na perspectiva da Doutora. Um pulso eletromagnético nocauteia os adversários do grupo, dando-lhe tempos para fugir, provando que a inteligência é superior à força.

The Ghost Monument
Cena de “The Ghost Monument” (Imagem: reprodução/BBC)

Arachnids in the UK”, quarto episódio da temporada, é outro exemplo para tratarmos da não violência. Nele a Doutora e o Team TARDIS precisam enfrentar um bando de aranhas gigantes. No entanto, para combatê-las, é necessário buscar agir com justiça, de modo que os animais tenham sua dignidade respeitada e não sofram. Afinal, as aranhas cresceram devido às ações daqueles que pouco ou nada se importam com o meio ambiente, preocupando-se apenas com seus lucros. Nem tudo saiu como a Doutora desejava, porém a lição permanece. Independentemente do contexto, problemas não devem ser resolvidos com violência.

Outro grande exemplo deixado por “Doctor Who” pode ser encontrado nos episódios “The Tsuranga Conundrum” e “Kerblam!”. As escolhas da Doutora nunca são fáceis. Afinal, para agir corretamente, muitas vezes precisamos nos sacrificar e colocar as emoções de lado para fazer o que deve ser feito. Contudo, é possível combater o mal sem se deixar contaminar por ele.

Em “The Tsuranga Conundrum”, a Senhora do Tempo e seus amigos precisaram lidar com uma criaturinha espacial muito perigosa, o Pting. Uma verdadeira luta contra o tempo se instaura, mas não é preciso recorrer à aniquilação para combater o mortal alienígena. Uma interessante estratégia é bolada e todos, incluindo o hostil Pting, são poupados. 

The Ghost Monument
Cena do episódio “The Tsuranga Conundrum” de Doctor Who (Imagem: reprodução/BBC)

Já em “Kerblam!”, uma perigosa conspiração industrial ameaçava a vida de inocentes, um plano de vingança devido à enorme quantidade de desvalidos frente à automatização maciça das indústrias. O mal não deve ser pago com o mal e, mais uma vez, a Doutora se utiliza de sua engenhosidade para combater o inimigo. O sabotador saiu derrotado, de várias formas diferentes, e mesmo que o resultado da ação não tenha sido o esperado pela Senhora do Tempo, fica a certeza de que é possível vencer o inimigo sem utilizar as mesmas armas que ele.

Kerblam!
Cena do episódio “Kerblam!” de Doctor Who (Imagem: reprodução/BBC)

E já que falamos a respeito de escolhas difíceis, não poderíamos deixar de mencionar os belos episódios “Rosa” e “Demons of the Punjab”. Recorrendo a situações que fizeram parte da história da humanidade, os produtores da série proporcionaram belos momentos de reflexão, mostrando que nem sempre é fácil fazer a coisa certa.

Os viajantes da TARDIS sabem que não devem interferir no passado, pois um simples gesto pode alterar toda a linha do tempo. A tarefa é complicada e no episódio “Rosa” mostrou-se ainda pior. Um estranho viajante do tempo visita o estado do Alabama a fim de mudar o curso da História e impedir que Rosa Parks perpetrasse um singelo, porém, vigoroso ato de resistência, capaz de mudar o mundo.

Para quem não sabe, Rosa Parks foi uma importante militante pelos direitos civis, sendo uma das responsáveis pelo surgimento dos movimentos por igualdade racial nos Estados Unidos, tudo por ter se recusado a ceder o lugar para um homem branco no ônibus. E para que a História se mantivesse intacta, era preciso que a Doutora e seus amigos garantissem que Rosa sofresse discriminação e fosse presa injustamente. Uma difícil escolha, mas que garantiria à humanidade um destino melhor.

Rosa Parks em Doctor Who
Cena do episódio “Rosa” de Doctor Who (Imagem: reprodução/BBC)

Demons of the Punjab” também explora um momento delicado de nossa História, a Partição, ocorrida em 1947, e que dividiu a Índia em dois estados soberanos. Um lado para as populações hindus (Índia) e outra para os muçulmanos (Paquistão). O estabelecimento de uma linha imaginária mudou a vida de populações inteiras, pois a divisão de terras gerou uma das maiores e mais violentas migrações forçadas de que se tem conhecimento. Diversos massacres nos territórios indianos e paquistaneses foram o resultado dos movimentos migratórios compulsórios.

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A Doutora e o Team TARDIS chegam à província de Punjab, dividida entre Índia e Paquistão, sem saber que estão entrando em uma zona de conflito. Novamente é preciso lutar para que os acontecimentos se mantenham e para que linhas do tempo não sejam alteradas. Alguns precisam morrer e outros precisam viver, pois só assim a História manterá seu curso.

Doctor Who
Cena de “Demons of the Punjab” (Imagem: reprodução/BBC)

A não interferência é uma regra; entretanto, sabemos que toda regra tem suas exceções e os episódios “The Witchfinders”, “It Takes You Away”, “The Battle of Ranskoor Av Kolos” e “Resolution” mostram do que a 13ª Doutora é capaz para defender o planeta Terra. Nem todos os alienígenas que nos visitam são amistosos. Alguns, especialmente os velhos e temidos Daleks, vêm para nosso mundo a fim de nos destruir e tomar nosso planeta para si. Em momentos assim, a Doutora, seguindo o exemplo de seus predecessores, se lança à batalha.

Em “The Witchfinders”, a Senhora do Tempo e seus companheiros se deparam com uma sinistra caça às bruxas, porém, ao darem inicio às investigações, encontram uma estranha e hostil presença alienígena na Inglaterra do século 17. Para deter os invasores, a Décima Terceira precisa usar sua astucia, principalmente após ser acusada de bruxaria. Raramente a conduta dos predecessores da Doutora foi questionada. Seus fiéis “Companions” conseguem contagiar os que estão ao redor e os Doutores sempre lideraram as aventuras. Entretanto, a Décima Terceira não teve a mesma sorte e, lamentavelmente, é vítima de machismo.

Consciente do preconceito que a cerca, a Doutora faz de tudo para provar seu valor e, mesmo após tantos reveses, consegue salvar a vida de todos. Interessante que a produção tenha escolhido um episódio que fala sobre caça às bruxas para falar de machismo, pois, infelizmente, as mulheres acusadas de bruxaria eram simplesmente figuras que não se encaixavam nos padrões das sociedades patriarcais; por viverem suas vidas seguindo suas próprias regras, eram tidas como perigosas e subversivas – e, neste ponto, a Doutora acabou se assemelhando a elas.

The Witchfinders, Doctor Who
Cena do episódio “The Witchfinders” de Doctor Who (Imagem: reprodução/BBC)

Doctor Who” marcou gerações e cada sucessão do Doutor contribuiu à sua maneira para sensibilizar uma parcela dos fãs para questões sociais, especialmente as que estão ligadas a gênero e diversidade sexual. Contudo, depois de acompanhar cada um dos episódios da 11ª temporada, nós percebemos que a Doutora e seus companheiros tiveram um papel maior do que os desempenhados pelos que vieram antes deles.

De certa forma, a Doutora e o Team TARDIS incorporaram vozes silenciadas. Sofreram com preconceitos, foram rejeitados e humilhados, porém, mesmo após terem sofrido, mostraram ao público um caminho melhor, onde armas não são necessárias, palavras ásperas são dispensáveis e gestos agressivos são abomináveis. Seria bom se mais séries se dedicassem às questões que foram exibidas em “Doctor Who”, principalmente como forma de garantir representatividade, pois talvez este tenha sido o maior legado deixado pela temporada: representatividade.

Garotas que cresceram assistindo “Doctor Who” não precisam mais se imaginar como uma companheira do Doutor. Podem guiar a TARDIS, desbravar o universo e provar que uma mulher pode e deve ser o que ela quiser.


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Nerd, pedagoga, escritora, leitora, gamer, integrante da casa de Lufa-lufa, amante de ficção científica (Star Trek, Star Wars e Doctor Who) e literatura fantástica. Deseja ardentemente que o outro lado da vida seja uma grande Biblioteca.
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