Sandman: encontro entre realidade e fantasia e 5 motivos para ler!

Sandman: encontro entre realidade e fantasia e 5 motivos para ler!

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Sandman é uma obra-prima de história em quadrinhos, publicada entre 1989 e 1996, pela Vertigo, selo da DC Comics. Foi escrita por Neil Gaiman, em parceria com Sam Kieth e Mike Dringenberg, e ilustrada por diversos artistas como Bill Sienkiewicz, Dave McKean, Jill Thompson, Miguelanxo Prado e Charles Vess (só para citar alguns).

Publicada no Brasil pela Panini Comics, Sandman conta a história de Morpheus, o “deus” dos sonhos, que após ser raptado e mantido preso por quase um século, precisa recuperar seus domínios e, de quebra, reavaliar a sua existência até aqui.

Com 13 arcos de histórias em 75 edições, Sandman marcou um novo modo de contar histórias em quadrinhos: mais adulto, trágico e pesado, com uma narrativa obscura, mas também envolvente e inebriante, e recursos gráficos inéditos, às vezes confusos, mas que fazem qualquer um entrar em uma atmosfera de sonho.

Sandman também destrincha o pior da humanidade, mas traz lições sobre mudança e redenção. Em meio a todo tipo de crenças e seres, acontecimentos mágicos (ou nem tanto) e personagens fantasiosos (e outros bem reais), Sandman mostra que nem tudo é o que parece, que talvez o inferno seja aqui mesmo, e que bondade e maldade fazem parte de todo ser, afinal.

Sandman

Sonho e o Sonhar

O pontapé inicial para o enredo de Sandman é o sequestro de Sonho, governante do Reino dos Sonhos, o Sonhar. Conhecido como Morpheus, Oneiros, Sandman, Lorde Moldador e Kai’Ckul, entre outros nomes já esquecidos, Sonho é um dos Perpétuos – entidades muito parecidas com deuses – mas que são na realidade a personificação de conceitos essenciais para o equilíbrio do universo.

O Sonhar, portanto, é onde Morpheus e seus funcionários habitam, para onde vamos quando sonhamos, onde realidades alternativas coexistem e livros jamais escritos são guardados e, claro, onde Sonho cria e molda os mais variados pesadelos também. Sonho parece uma figura arrogante, às vezes mimado e egocêntrico, mas muito focado em suas responsabilidades no Sonhar.

No entanto, sua jornada para se libertar, e recuperar seus poderes e seus domínios, desencadeia outros eventos que o levam a rever sua identidade, sua vida e seus atos. É perceptível que o cárcere fez Sonho enxergar com outros olhos a existência como um todo, inclusive a dos Perpétuos, e tornar-se um pouco mais empático com quem cruza seu caminho.

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Todo tipo de gente em Sandman

Em Sandman conhecemos os Perpétuos, sete irmãos responsáveis pela ordem no universo: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. Imortais como ideias ou conceitos, ainda que sua forma física possa ser morta ou destruída, outro ser surgirá para ocupar seu lugar.

Apesar de possuir poderes, diferente de deuses criados quando a consciência humana despertou e que serão esquecidos quando não houver quem os cultue, os Perpétuos já estavam aqui quando tudo foi criado e serão os últimos a sair quando tudo acabar. Cada um tem sua função no mundo e, em sua ausência, o caos impera (o que pode ser visto logo no início, quando Sonho é raptado).

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Wanda é uma personagem transexual

Também há deuses, anjos, demônios, fadas, bruxas, outras entidades mitológicas e, é claro, humanos – essenciais em diversos momentos da narrativa. Os pontos mais interessantes sobre as personagens são, sem dúvidas, a ambivalência entre o bem e o mal, os sentimentos humanos que transbordam em seres mitológicos e a diversidade!

Sandman não só reflete muito bem a cultura pop e a underground, das décadas de 80 e 90, como dá um show de representatividade através de personagens LGBT+, de todo tipo de representação física e personalidade, além das diversas personagens femininas apresentadas ao longo da história. E algo muito legal é que Neil Gaiman não tenta falar pelas minorias, mas expõe de uma forma muito honesta os problemas enfrentados por elas.

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Referências em todo canto

Sandman tem muita mitologia e é riquíssima! Neil Gaiman mostra que fez o dever de casa direitinho ao utilizar diversas culturas, crenças e religiões como material para criar histórias e desenvolver suas personagens. E ele viaja entre elas de forma bastante coerente, viu! Gaiman introduz o Sonho e os outros Perpétuos em diversos momentos da história da humanidade, e dá pra perceber o quão cuidadoso foi para não transformar a narrativa em um emaranhado de informações, correndo o risco de tornar Sandman um entretenimento repleto de referências culturais, mas pobre como um todo.

Ele traz deuses egípcios, chineses, árabes e indianos, fala sobre o céu e o inferno, Cain e Abel, Eva, Lúcifer e os anjos caídos… Sobre os monstros que atormentam o sono na cultura pop, sonhos que serviram de inspiração para grandes obras (como as de William Shakespeare, por exemplo) e traz até personagens da própria DC Comics para a narrativa. Gaiman também faz críticas sociais, ainda muito atuais, parodiando políticos e todo tipo de celebridade. E é muito legal ver tudo isso muito bem costurado enquanto conta a jornada de Sonho.

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Muitas personagens femininas em Sandman

A começar pelos Perpétuos, Morte e Delírio são apaixonantes. A Morte é uma gótica cheia de vida e em vários momentos o recado que deixa para as leitoras é “viva a sua vida enquanto pode”. Irmã mais velha, ela se preocupa com seus irmãos, dá bronca quando precisa e colo também. Delírio – que um dia foi Deleite – é a caçula da família. Sua mistura entre a inocência e a loucura mostra como nos apegamos às pequenas insanidades da vida para, enfim, sobreviver à (terrível) realidade.

Há também as gêmeas Desejo e Desespero, muito complexas e que representam dois lados da mesma moeda: o prazer ao finalmente sucumbir àquilo que mais se deseja, e a angústia por ter sucumbido. Um detalhe legal sobre Desejo é que ela é uma figura andrógina, às vezes representada de forma feminina, outras mais masculina, e que atende por ambos pronomes. Como foi dito, um show de representatividade!

Sandman

Sandman também traz muitas mulheres interessantes, entre elas a destemida Johanna Constantine; Rose Walker, pra quem não tem tempo ruim, mesmo nas situações mais absurdas; a fortíssima (em diversos aspectos), porém insana, Lyta Hall; a querida deusa egípcia Bast; a musa grega Calliope; a corajosa e sensata Rainha Nada; e a apaixonada Nuala.

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Mas como nem tudo são flores, Sandman é também cheia de gatilhos… Violência, estupros, mortes, relacionamentos abusivos e até a presunção de violência são suficientes para qualquer leitora abandonar a história. Às vezes é bem difícil de continuar, mas estes “recursos”, se é que podemos chamar assim, não estão ali de graça. Se tem uma coisa que Neil Gaiman consegue fazer é mostrar o quanto a humanidade consegue ser sórdida diária e cotidianamente, principalmente a sua parcela masculina, e o quanto as mulheres são as vítimas preferidas.

Sandman nos faz questionar o papel que tivemos (e ainda temos) na história real e ficcional, e o quanto a sociedade deve às mulheres. É uma leitura difícil, muitas vezes, mas muito necessária!

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O bom e o mau da humanidade

Mais do que falar sobre o mundo dos sonhos, Sandman gira em torno de ter o que merece: se você não foi bom, não pode esperar os louros da vitória. Também há histórias de sacrifício, amor e amizade, mas nada tão marcante quanto ver o destino aplacando a humanidade, e qualquer outro ser que habite o universo, por suas maldades e escolhas erradas. E se pensarmos que a história toda começa com os Burgess que sequestraram e aprisionaram Sonho por quase um século, não dá pra culpar qualquer entidade divina pelas mazelas da raça humana, não é mesmo?

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Se tirarmos toda a fantasia que monta o background para Sandman, sobram histórias sobre ganância, cobiça, busca cega por poder, e passar por cima de qualquer um para conseguir o que se quer, mesmo que isso signifique ignorar suas crenças, convicções e aquilo que é certo… Mas acredite, Sandman não é só pesadelo e maldade: apesar da crueza para falar sobre todo tipo de violência, Gaiman traz lições sobre aceitar o próximo, combater o racismo e o preconceito enfrentado pela comunidade LGBT+, e fala até sobre prevenção de DSTs e AIDS, em plena década de 90!

Há também histórias e personagens que nos fazem acreditar que existe, sim, salvação para este mundo, que nos mostram amor incondicional – seja entre amantes, irmãos ou amigos – inocência, perdão, redenção e tornar-se uma pessoa melhor… E todas aquelas outras coisas que nos diferenciam de bestas. Basicamente, Sandman é uma ode à humanidade e tudo o que vem no pacote!

Motivo bônus: Neil Gaiman

Se ainda tem dúvidas de que precisa conhecer esta HQ, saiba que Neil Gaiman também é autor de outras obras de sucesso, como Belas Madições, em parceria com Terry Pratchett; Neverwhere, série exibida pela BBC e que mais tarde virou um romance, e Deuses Americanos, recentemente adaptada para a TV.

Stardust, Coraline e Beowulf, no qual foi co-roteirista, foram adaptadas para o cinema e Gaiman também foi roteirista de episódios para as séries Babylon5 e Doctor Who. Lúcifer, um de seus personagens em Sandman, ganhou uma série própria em 2016. Com 3 temporadas completas, a série foi renovada recentemente para a 4ª temporada. 

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Neil Gaiman também assina a autoria de muitos livros e contos infantis, entre eles o incrível O Dia Em Que Troquei Meu Pai Por Dois Peixinhos e o delicado Menina Iluminada. Voltando a falar de histórias em quadrinhos, Gaiman também escreveu Orquídea Negra para a DC Comics, e as séries Marvel 1602 e The Eternals para a Marvel.

Ufa, agora que você já conhece um pouco do currículo de quem criou essa obra incrível e alguns motivos que fazem de Sandman um item essencial para quem ama quadrinhos, ou simplesmente quem aprecia uma boa história, é só se jogar na leitura!

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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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