[LIVROS] Deuses Americanos: A mitologia como berço fantástico das civilizações

[LIVROS] Deuses Americanos: A mitologia como berço fantástico das civilizações

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Desde os tempos mais remotos, a história da humanidade vive cercada por mitos constituídos por heróis, vilões, criaturas fantásticas e morais que até hoje edificam e dão rumo à evolução do ser. Narrativas passadas por inúmeras gerações não têm apenas o poder e o intuito de entreter quem as houve, mas também formam ideais presentes em abordagens da Psicologia, por exemplo, e ajudam a explicar muitos dos conflitos internos que temos. Nas palavras de Fernando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”. Apesar de fantasiosas e aparentemente incabíveis, a maioria das histórias das mitologias grega, celta, escandinava, nórdica, etc., assumem espaços ímpares presentes em nossa vida, sejam eles referentes às religiões, ritos de passagem, arte, literatura e interações sociais. Os mitos foram criados para tentarem explicar o inexplicável e até hoje rendem frutos em todos os conceitos sociais, quer seja encarado como verdade ou não. Vamos então à nossa análise de Deuses Americanos:

A Biologia e o mito

Em certas ocasiões, como no trovejar e relampejar dos céus, não era raro ouvir nos países nórdicos “Thor deve estar passando acima de nós com sua carruagem”. Thor era designado como o deus nórdico dos trovões, assim como Atena era a deusa grega da sabedoria e Brahma, o deus hindu que representa a força criadora do universo.

Os elementos naturais como a chuva, o vento, o nascer do trigo nos campos, o sol e os furacões eram explicados a partir das crenças em inúmeros deuses, difundidas séculos atrás. Havia a necessidade de explicar ao outro o que acontecia de diferente na natureza, portanto os mitos eram a base fundamental dessas explicações. Estas noções caíram por terra quando os homens passaram a questionar conceitos “palpáveis” acerca de fenômenos naturais.

Com base na Filosofia Natural, o conhecimento acerca dos primórdios biológicos do mundo material foi investigado e, mesmo que muito modificado ao longo dos anos, serviram de base posterior ao estudo de inúmeras ciências difundidas hoje em dia, incluindo a Física e a Biologia.

Deuses Americanos

Carl Jung e o estudo da simbologia

É notório que as simbologias dos mitos assemelham-se bastante em diversas culturas. Na crença hinduísta Brahma, Vishnu e Shiva formam a Trimúrti, ou seja, a Trindade, também presente no catolicismo como Pai, Filho e Espírito Santo. De acordo com o psicanalista suíço Carl Gustav Jung (1875 – 1961), tal semelhança não acontece por acaso: esses conhecimentos ancestrais são preservados e vivem presentes no que ele denominou de inconsciente coletivo, armazenador das memórias fundamentais, não só míticas e religiosas como também morais. Cada um de nós possui esse inconsciente coletivo e, mesmo não estudando a fundo certos conceitos sociais, o acessamos por meio da memória coletiva. Os arquétipos (ou simbologias) são ideais fixos e que agem como modelos utilizados para organizar os padrões comportamentais.

No caso da mitologia e religião, os arquétipos da Deusa, o Deus, o Velho, a Sábia, o Herói, por exemplo, são adaptados para atender às exigências da cultura local, significando, no fim das contas, a mesma criatura. Por se tratarem de personificações há muito concebidas e difundidas, facilmente as identificamos à primeira vista, atribuindo-lhes um significado emocional.

No seguinte trecho do livro “O Prisioneiro da Árvore”, quarto volume da série As Brumas de Avalon (história que reconta a lenda do Rei Artur do ponto de vista de quatro mulheres influentes, sendo elas Igraine, a mãe, Viviane, a tia, e Morgana, a irmã – as duas últimas, sacerdotisas da Antiga Religião celta, encarregadas de cultuarem a Deusa Mãe e seu consorte, o Galhudo – e Guinevere, esposa de Artur, representante do cristianismo), escrita por Marion Zimmer Bradley, vemos a sacerdotisa Morgana preocupada com o desaparecimento da ilha fictícia de Avalon e de toda sua influência religiosa e cultural das ilhas que hoje formam a Grã-Bretanha. Morgana, ao adentrar a capela cristã de Glastonbury, inicia uma conversa com uma das noviças e dá-se conta de que a Deusa Mãe estará presente em outras religiões, sendo cultuada inclusive no cristianismo que tanto a condenava, porém por um ponto de vista diferente:

“Morgana seguiu a jovem para dentro da pequena capela lateral. Havia flores, braçadas de botões de flor de macieiras diante da estátua de uma mulher com véu, coroada por um halo de luz; e, em seus braços, ela carregava uma criança. Morgana respirou trêmula e abaixou a cabeça diante da Deusa.

A moça contou:

– Aqui temos a Mãe de Cristo, Maria Santíssima. Deus é tão grande e terrível que sempre sinto medo diante se Seu altar, mas aqui na capela de Maria, nós que fizemos voto de castidade podemos considerá-la nossa Mãe também. (…) E aqui está a velha imagem que o bispo nos deu, de seu país natal… um de seus santos, seu nome é Brígida…

Morgana olhou a imagem de Brígida, e podia sentir o poder vindo em grandes ondas que permeavam a capela. E inclinou a cabeça.

Mas Brígida não é uma santa cristã, pensou, ainda que Patrício assim pense. Esta é a Deusa como adorada na Irlanda. E sei disto, e mesmo que eles pensem de outra forma, estas mulheres conhecem o poder do Imortal. Exilá-la, como podem fazer, não a impedirá de fazer o que tiver de ser feito. A Deusa jamais se retirará do meio da humanidade.

E Morgana inclinou a cabeça e sussurrou a primeira prece sincera que jamais dissera em qualquer igreja cristã.” (pág. 237, Editora Imago, 2008)

Segundo Carl Jung, o funcionamento do ego (nosso consciente), do inconsciente coletivo (memórias sociais ou comportamentais herdadas de antepassados) e o inconsciente pessoal (memórias do indivíduo) são controlados pela Persona, ou seja, nosso arquétipo acessível aos outros (ou como nos mostramos perante a sociedade). Para ele, a Persona (ou self) é constituída por características masculinas e femininas, sendo determinadas biologicamente e/ou socialmente.

Quando há uma definição exata do que nos tornamos, homem ou mulher, deixamos de lado uma parte de nós que pode ser facilmente acessada quando desejarmos, fazendo isso por meio de arquétipos, os quais ele denominou Animus (parte masculina do comportamento feminino) e  Anima (parte feminina do comportamento masculino).

O nascimento cultural da humanidade

Na pré-história, animais eram desenhados nas paredes das cavernas e flechas eram atiradas ao encontro deles num ritual supostamente mágico que propunha a vitória na caça e a fartura na coleta de alimentos. Já os povos celtas acendiam fogueiras no festival de Beltane (chegada do verão) para que a fertilidade nos campos de plantio fosse garantida. As lendas e os rituais eram ensinados a um grupo, que por consequência passava para outras gerações, e isso era cada vez mais agregado a criatividade e aos elementos místicos presentes em cada cultura.

O mito serviu como um modo de o indivíduo situar-se no mundo em que vivia, que por vezes era hostil e necessitava de uma base sobrenatural para ser enfrentado e garantir a vida em sua plenitude.

Os rituais dos clãs serviram de base para o nascimento de muitas religiões e até hoje fazem parte de nossas tradições, como por exemplo, nas comemorações da passagem de ano, festas de debutante, fogueiras de São João, festas natalinas, etc.

É um erro pensar que a mitologia existiu e se extinguiu com a decadência das civilizações antigas. Os mitos presentes nas sociedades atuais também dizem respeito a heróis personificados, como são os casos de jogadores de futebol, por vezes idolatrados e personagens mártires adotados como exemplos pela população. O ideal de Bem e Mal pode ser facilmente encontrado em histórias de super-heróis e também em novelas e filmes, que entretêm diversos públicos e auxiliam na integração social. 

A mitologia inspira as artes em geral e, em certos casos, pode até ser imortalizada por intermédio de músicas, livros, filmes e peças teatrais. Portanto, é importante salientar que os mitos não morrem, apenas se modificam de acordo com a necessidade e a criatividade dos povos.

Filosofia e fé

A Filosofia e as religiões têm por objetivo comum a fundamentação do Ser, de suas morais e costumes, o questionamento do que pode existir após a morte, dentre outros conceitos. À primeira vista, estas duas vertentes se contradizem, uma vez que a Filosofia surgiu com a necessidade de explicações concretas sobre o que acontecia no mundo ocidental (deixando de lado, por hora, a crença em lendas que eram difundidas na Grécia Antiga), e a religião ainda se pauta em conceitos sobrenaturais e mitológicos, mas possuem mais coisas em comum quando paramos para refletir.

Existe um ramo da Filosofia designado Filosofia da Religião, encarregado de investigar o viés espiritual que permeia a construção social do homem. Tal estudo é constituído com base na antropologia, metafísica e ética. Dado início à investigação, o filósofo da religião procura compreender as religiões como um todo e, para isso, organiza os dados adquiridos e esmiúça-os em duas partes: partes convergentes e divergentes entre as religiões. Para isso, são analisadas as evoluções histórico-sociais, linguísticas (na qual são buscadas palavras semelhantes que servem para designar o mesmo arquétipo de crença), bem como os ritos, dogmas e valores. Vale ressaltar que em meio a tantos princípios diferentes, as religiões possuem um ponto em comum: a fé em deus(es). Pode ser ele homem, mulher ou se desdobrar em tantos outros deuses, porém sempre haverá esta força primordial comum entre todas as crenças.

As representações antropomórficas na obra de Gaiman

Neil Gaiman é conhecido e aclamado pela série de quadrinhos “Sandman”. A obra une arcos que, dentre muitas histórias, apresenta aos leitores os Perpétuos: sete representações antropomórficas, personificações de conceitos inerentes ao ser e que regem o seu ato de se relacionar com as demais pessoas em sociedade. Os irmãos, muito singulares, são a Morte, Sonho, Desejo, Delírio (anteriormente, Deleite), Desespero, Destruição e Desejo. Muitos leem as personagens como deuses, mas estas estão muito além de serem divindades: são o meio pelo qual os humanos criaram, em seu imaginário, os próprios deuses e deusas.

Já em “Deuses Americanos”, como o próprio título sugere, acompanhamos Shadow em sua busca por autoconhecimento com base nas personificações de deuses de panteões diversos que encontra em sua longa roadtrip pelos Estados Unidos. O protagonista é, de acordo a teoria junguiana, o arquétipo do Herói, por possuir personalidade forte e estar disposto a lutar contra o mal. Porém Gaiman humaniza o herói, que não possui nenhum superpoder além da paciência  e da boa vontade ao trilhar seu caminho em busca de redenção.

Shadow passa três anos preso e alimenta todos os dias o sonho de voltar para os braços da esposa, Laura. Quando finalmente é solto, acaba descobrindo acontecimentos desastrosos e, mais uma vez baqueado pela ironia do destino (o crime cometido por Shadow não fica explícito, mas o narrador sugere que foi algo relacionado com “cara errado na hora errada”), vê-se completamente sem rumo e entregue ao que o destino o reservaria.

Ainda entorpecido e completamente apático, Shadow conhece o misterioso Wednesday, um senhor com características muito marcantes, como um olho de vidro, que o oferece um emprego de segurança e motorista. As condições para o “contrato” de emprego permeiam o ato de o homem não poder fazer perguntas ao patrão. Mesmo achando tudo muito confuso e absurdo, Shadow aceita e inicia uma jornada regada a muito hidromel, brigas com pessoas estranhas e conhecimento de outros povos e suas respectivas crenças.

“Quando as pessoas vieram para a América, nós viemos junto. Elas me trouxeram, e trouxeram Loki e Thor, Anansi e o Deus Leão, leprachauns e cluracans e banshees, Kubera e Frau Holle e Ashtaroth, e trouxeram vocês. Viemos na mente delas e fincamos raízes. Viajamos com os colonos até o Novo Mundo do outro lado do oceano.

(…)

Agora, como vocês todos devem ter tido uma fartura de motivos para descobrir por conta própria, deuses novos estão ganhando forças nos Estados Unidos, agarrando-se a focos crescentes de fé: deuses do cartão de crédito e da rodovia, da internet e do telefone, do rádio, do hospital e da televisão, deuses do plástico e do bipe e do neon. Deuses orgulhosos, criaturas (…) envaidecidas com a própria novidade e importância.”

O livro desenha um paralelo entre os deuses milenares, de panteões como o escandinavo, africano e hindu e o que Gaiman chamou de “novos deuses”: o Deus do Cartão de Crédito, o Deus da Internet, o Deus da Autoestrada e A Mídia. Pelo fato de as pessoas ocuparem a mente com o materialismo e o consumismo, adorando os bens que adquirem, os deuses antigos estão sendo esquecidos e tendo seus sacrifícios e oferendas aos poucos deixados de lado, muitos deles tendo de trabalhar como um ser humano comum, ao passo que os novos deuses ficam cada vez mais fortes, motivo suficiente para o início de uma batalha épica entre os dois lados. Há, então, a inversão dos polos: ao passo que os deuses se humanizam, outras personagens adquirem dons divinos, sejam eles o de conceder a vida – ou a morte.

É muito interessante perceber o trabalho de pesquisa feito por Gaiman ao mencionar uma pluralidade de culturas em seu livro. Estamos acostumados e observar a influência de mitologias como a nórdica e grega na maioria das mídias existentes hoje em dia, e acabamos esquecendo que há muito mais simbologias e histórias riquíssimas em outros povos, como o africano, por exemplo (Anansi, o Deus Aranha, é uma das melhores personagens do livro, sendo que rendeu até um livro só para si e seus filhos, “Os Filhos de Anansi”).

“O que é importante entender sobre a história americana, (…) é que ela é ficcional, rabiscos simplórios feitos com pedaços de carvão destinados a crianças ou aos que se enfastiam com facilidade. De maneira geral, ela carece de avaliação, de imaginação, de reflexão. É uma representação da coisa, não a coisa propriamente dita. É uma bela ficção, (…), a ideia de que os Estados Unidos foram fundados por peregrinos que buscavam liberdade para acreditar no que desejassem, de que eles vieram para o continente americano, espalharam-se, procriaram e preencheram a terra vazia.

Na realidade, as colônias americanas serviam tanto como área de desova quanto como área de fuga, um local de esquecimento. No tempo em que era permitido enforcar alguém em Londres na “árvore tripla” de Tyburn pelo roubo de doze pence, as Américas se tornaram um símbolo de clemência, de segundas chances. Mas as condições de transporte eram tais que, para alguns, era mais fácil pular do tronco desnudo e bailar no ar até a dança acabar. Era como eles chamavam: transporte – por cinco anos, por uma década, para sempre. Essa era a sentença.” (Deuses Americanos, pág. 102)

O autor também se prontificou a colocar capítulos intercalados à história central, nos quais conhecemos não apenas o dia a dia de deuses milenares trabalhando como profissionais do sexo ou taxistas, mas também o nascimento da nação Norte-Americana. Somos apresentados aos imigrantes que, apesar da promessa de deixar o Velho Mundo completamente para trás, levaram consigo para o território dos Estados Unidos suas preces e seus deuses na mala. E os deuses em que creem e cultuam são peças fundamentais para que tenham forças de encarar um país completamente desconhecido, servindo de força motriz para escaparem da escravidão, dores da perda e assédios diversos (uma das histórias, sob o título “Vinda à América: 1721”, narra a vida de Essie Tregowan, uma imigrante inglesa que foi vendida em território americano, abandonada pelo homem que lhe jurou amor eterno ao saber que ela carregava um filho seu no ventre, a morte desse mesmo filho ao nascer e abusos físicos e psicológicos, é um dos exemplos de como a História muitas vezes pode omitir fatos para que tudo pareça colorido e como num conto de fadas, quando sabemos que a realidade passa à anos luz de um “felizes para sempre”).

A narrativa, em terceira pessoa, é fluída na maior parte do tempo (em alguns momentos Gaiman detalha demais situações que não são muito relevantes para o desenrolar dos fatos e isso pode cansar o leitor) e repleta de menções a ícones da cultura pop, indo de Edgar Allan Poe, passando por Bob Dylan até The Beatles (as músicas citadas são fenomenais). Nas três partes que compõem o exemplar, predominam na primeira a apresentação de Shadow e a descoberta dos deuses; a segunda diz respeito ao desbravamento de Shadow pelo mundo de uma infinidade de novos deuses e, na terceira, descobrimos se haverá mesmo um embate entre deuses antigos versus deuses contemporâneos.

A nova edição da Editora Intrínseca contempla a versão preferida e revisada por Gaiman. Ao reler, o autor acrescentou mais 12 mil palavras. Há diversos extras ao final do livro, incluindo uma entrevista com o autor, uma carta justificando diversas críticas que ele próprio recebeu ao escrever sobre os Estados Unidos sendo inglês e também uma nota do tradutor, Leonardo Alves, contando sua experiência ao ler a traduzir a obra.

Moral da história

O mito, hoje em dia e séculos atrás, é o que ordena as diferentes manifestações culturais presentes na sociedade. Criaturas poderosas, malvadas ou bondosas estimulam o imaginário humano de várias maneiras e enriquecem nossa visão de mundo. É importante refletir acerca da diversidade que existe mundo a fora, nos dando conta de que todas as culturas possuem algo em comum. Meu deus é o mesmo deus de um garoto hindu. As fábulas que uma garotinha russa escuta são as mesmas do meu livro de histórias celtas. Os rituais da Umbanda visam a mesma paz que um monge budista procura. Mudam-se os olhares, mas o ponto onde queremos chegar sempre será o mesmo. O mito transcende. O mito faz o ser. O mito é a vida e seus inúmeros ensinamentos, porém com a magia do desconhecido.

“Deuses Americanos” ganhará uma série criada por Bryan Fuller e Michael Green, com estreia em abril desse ano. O elenco conta com nomes como Gillian Anderson (Media), Ian McShane (Mr. Wednesday), Ricky Whittle (Shadow) e Emily Browning (Laura Moon). Abaixo, algumas prévias do que está por vir: 

Deuses Americanos

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Deuses AmericanosDeuses Americanos

Editora Intrínseca

Ano de publicação: 2011.

574 páginas

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É estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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