Sandman: figuras e períodos históricos presentes no quadrinho de Neil Gaiman (parte 1)

Sandman: figuras e períodos históricos presentes no quadrinho de Neil Gaiman (parte 1)

No multifacetado quadrinho Sandman (Panini Books), do escritor britânico Neil Gaiman, os leitores encontram narrativas originais, permeadas por referências à cultura pop e suas diversas mídias (literatura, cinema e músicas), mitologias de várias partes do mundo e figuras históricas, que se fundem em uma miscelânea de enredos repletos de poesia. Veja, a seguir, os personagens e eventos históricos presentes nos três primeiros arcos da obra.

Em “Prelúdios e Noturnos”, “A Casa das Bonecas” e “Terra dos Sonhos” (arcos que contemplam os números de 1 a 20 do quadrinho), Neil Gaiman inicia sua obra magna mostrando, sem rodeios, toda a potência intertextual que os leitores de Sandman encontram nestes e nos demais volumes da história: o próprio protagonista, Morpheus.

Também conhecido como Sonho dos Perpétuos, Lorde Moldador, Oneiros e Kai’ckul, além de ter sido inspirado no antigo personagem da DC Comics, o personagem tem sua origem no mito grego de Hipnos, o deus do sono e irmão de Tânatos, a morte, bem como na antiga lenda portuguesa do João Pestana, criatura que invade os lares à noite e, com auxílio de um punhado de areia soprado nos olhos das crianças insones que se comportam, as faz adormecer e ter sonhos tranquilos.

Por sua vez, a manifestação mais antiga e encontrada na literatura clássica sobre a lenda de João Pestana consta, com variações, na obra do contista dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875), sobre o personagem Ole-Luk-Oie. Ole, em dinamarquês, é utilizado para designar o gênero masculino, já Luk-Oie significa “aquele que fecha os olhos”, podendo este nome ser livremente traduzido como “O Homem que traz o Sono” (ROCHA, 2014).

“A ficção de Gaiman tem um sentimento que parece pessoal e verdadeiro. Suas histórias se instalam num local particular da mente, um local que todo mundo tem, repleto de memórias de torradas e geleia, velhos livros com anciãos sábios de barbas cinzentas.
Ele tece elementos ficcionais consagrados na tapeçaria da história, o que passa a sensação de atemporalidade, como se a história sempre tivesse estado lá e ele tenha sido apenas a pessoa que a colocou na página.” (CAMPBELL, 2014, p.11)

Este é apenas um dos inúmeros exemplos da inventividade e poder de criação de Gaiman ao reestruturar histórias e figuras já conhecidas do inconsciente coletivo e concebê-las, novamente, de formas geniais. De grandes guerras mundiais a contos de fadas, passando por músicas clássicas do cancioneiro popular e menções a mitos egípcios, Sandman apresenta uma quebra-cabeças de referências ora explícitas, ora escondidas nas entrelinhas, que tornam a leitura cada vez mais instigante.

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Períodos históricos em Sandman

Sandman é uma obra contextualizada. Após a libertação de Morpheus da prisão imposta pelo líder ocultista Roderick Burgess, nos anos 80, a narrativa viaja muitas vezes por vários períodos históricos. Em “O Sono dos Justos”, história que abre o arco “Prelúdios e Noturnos”, Neil Gaiman introduz personagens com distúrbios de sono que são afetados diretamente após a prisão do protagonista durante setenta anos.

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Dentre eles, destaca-se o adolescente Stefan Wasserman, um jovem de quatorze anos que mentira a idade para se alistar no exército de Verdun, na França. Ele luta na Batalha de Verdun durante a Primeira Guerra Mundial e, após o episódio, adquire um enorme trauma de guerra, potencializado quando Morpheus é preso; o garoto passa, então, a não conseguir dormir, sendo diagnosticado pelos médicos com a chamada “doença do sono”.

Stefan Wasserman em Sandman
Stefan Wasserman. Imagem: divulgação

Outra passagem de Sandman que ocorre em outro momento histórico é a de “Homens de Boa Fortuna”, presente no arco “A Casa das Bonecas”: ambientada em uma taverna, na Inglaterra do período medieval, os leitores conhecem Hob Galding, homem questionador que fala aos seus companheiros sobre a imortalidade. Hob não aceita a finitude da vida, e vê na morte uma estupidez tamanha, assunto que chama a atenção de Morpheus e de Morte, que por ali passam.

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Hob Galding, Morpheus e a Morte em Sandman, quadrinho de Neil Gaiman.
Hob Galding, Morpheus e a Morte. Imagem: divulgação

Morpheus, então, dialoga com Hob e faz um trato com ele: daria a ele a tão sonhada imortalidade, com a condição de que eles se encontrassem ali, naquela mesma taverna, a cada cem anos. E assim o fazem. A história de Sandman viaja por séculos, acompanha as mudanças nos costumes da sociedade daquela região e na vida de Hob, que mesmo nos períodos mais difíceis não quebra o trato com Morpheus, muito menos cede sua existência à Morte.

Ocorre que nesta história Morpheus também tem seu primeiro encontro com William Shakespeare, um jovem dramaturgo no início de carreira, que recebe também uma oferta do Perpétuo para escrever cada vez mais (e melhor). Uma curiosidade da cena em que conversam é que Morpheus o chama por “Will Shaxberd”, uma das variações do nome do famoso autor inglês. Além disso, registros verdadeiros contam ainda que Shakespeare costumava assinar e abreviar o seu nome de várias maneiras (“Willm Shakp” e “Willm Shakspere”, por exemplo) e, provavelmente, nenhuma delas é o nome pelo qual é conhecido até hoje.

Do breve encontro entre os dois surge o contexto para a história “Sonho de uma Noite de Verão”, que fecha o arco de “Terra dos Sonhos”.

As criaturas mitológicas presentes em Sandman

A mitologia é uma fonte inesgotável de leituras possíveis, analogias e apropriações e, em Sandman, Neil Gaiman bebe de muitas fontes para criar a sua própria. O quadrinho envolve o Sonhar e os Perpétuos, que são as representações antropomórficas de conceitos que guiam e regem o destino de todas as criaturas vivas.

Embora os arquétipos do Sonho e da Morte tenham sua origem vinculada, também, aos mitos gregos dos deuses Hipnos e Tânatos, no imaginário de Gaiman os sete Perpétuos não são deuses, e sim estão acima dele. Foram eles, principalmente Morpheus, quem os criaram e alimentam todos os dogmas, rituais e consequências ligadas às diversas entidades dos panteões mitológicos espalhados pelo mundo.

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Em “Anfitriões Imperfeitos”, quando Morpheus volta ao Sonhar para encontrar o paradeiro de seus pertences, o rubi, o elmo e a algibeira de areia, encontra os atrapalhados irmãos Caim e Abel, respectivamente um lavrador e um pastor de ovelhas, citados no livro de Gênesis, na Bíblia.

Abel e Caim na obra de Neil Gaiman
Abel e Caim. Imagem: divulgação

Filhos de Adão e Eva, ao crescerem e exercerem suas funções, decidem fazer uma oferta para Deus: Caim ofereceu os frutos de suas terras e, Abel, as primeiras crias e a gordura de seu rebanho. Porém, Deus alegrou-se com a oferta de Abel, mas rejeitou a de Caim, por sentir que o primeiro tinha as melhores intenções e fé naquele sacrifício. O irmão, possuído pelo ódio, assassina Abel e é condenado por Deus a levar uma vida de muitas dificuldades, dando continuidade ao pecado original e a tudo o que o comportamento dos pais no Éden originara.

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Em Sandman, os dois irmãos vivem em atrito; Abel é puro e inocente, e tudo o que faz irrita o malvado Caim, que não mede esforços para matar o irmão das piores formas possíveis. Abel, no entanto, consegue sempre reviver, para descontentamento de Caim, e os dois seguem nesta dinâmica de “gato e rato”.

Lúcifer também é um personagem bíblico que aparece brevemente em “Uma Esperança no Inferno”, e que possui uma presença marcante, ainda mais por ter sido inspirado em David Bowie.

Lúcifer em Sandman
Lúcifer. Imagem: divulgação

Ainda em “Anfitriões Imperfeitos”, Morpheus encontra, pela primeira vez, As Três, que também aparecem para a personagem Rose Walker em “A Casa das Bonecas”. Também chamadas de Parcas, Moiras, Hécate, dentre outras denominações, as deusas formam uma tríade que, na verdade, determinam uma entidade só. Donzela, Mãe e Anciã são as três fases da vida de todas as mulheres, e nas mitologias em que aparecem, cada uma das facetas possui uma função para com a humanidade.

Na mitologia grega, por exemplo, as Parcas regiam o destino das pessoas; a primeira tecia o fio da vida, determinando o nascimento do ser, a segunda media o tamanho do fio, logo, a extensão da existência e, por último, a terceira o cortava quando a hora da morte chegava.

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As Três em "A Casa de Boncas", Sandman.
As Três. Imagem: divulgação

Já na mitologia celta, Brigitt (Brighid ou Brígida) era a deusa tríplice da cura, da poesia e da forja, protetora dos lares, do fogo, dos e das poetas e animais de estimação. Com a apropriação cristã de muitos símbolos pagãos, a imagem de Brigitt foi associada à de Santa Brígida, padroeira da Irlanda, que até hoje tem o fogo e a tríade como os seus símbolos e festivais todos os anos no país. Esta tríade aparece em diversas outras mitologias ao redor do mundo, tendo como eixo comum a força e a potência feminina.

Calíope em Sandman.
Calíope. Imagem: divulgação

Ainda se tratando de personagens femininas, Gaiman dedica uma passagem inteira de “A Terra dos Sonhos” para narrar a história de Calíope, uma das nove musas gregas, sendo relacionada à inspiração e à poesia. Ela cai em uma armadilha e é aprisionada por um escritor ambicioso que, após passar anos abusando física e psicologicamente da personagem para conseguir inspiração para escrever os seus livros, a descarta para outro escritor, que continua a torturá-la e abusá-la.

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[AVISO DE GATILHO: MENÇÃO À IDEAÇÃO SUICIDA] Rá, o deus egípcio do Sol, aparece na história que encerra o arco “Terra dos Sonhos”; em “Fachada”, a personagem Urânia Blackwell, uma metamorfo, cujos poderes de se transformar em elementos foram concedidos pelo deus, está passando por um momento muito complicado de isolamento e depressão, desejando constantemente a morte para findar a sua agonia. Ela recebe a visita da Morte que, após conversar com ela sobre seu estado psicológico, encontra em Rá uma alternativa para o fim do sofrimento da personagem. [FIM DO AVISO DE GATILHO]

Rá, o deus Sol em Sandman, obra de Neil Gaiman.
Rá, o deus Sol. Imagem: divulgação

Personagens históricos em Sandman

Em “Sonho de uma Noite de Verão”, os leitores se depararão com uma história inteira dedicada ao grande dramaturgo William Shakespeare. Após o encontro entre ele e Morpheus em “Homens de Boa Fortuna”, é revelado que, naquela conversa, Morpheus prometeu a Shakespeare a inspiração para criar as suas obras, com a condição de ter duas peças encenadas exclusivamente para ele, os Perpétuos e, no caso de Sonho de uma Noite de Verão, para o reino das fadas, que fazia parte da história.

Morpheus e William Shakespeare em Sandman.
Morpheus e William Shakespeare. Imagem: divulgação
Titânia e Oberon pelo olhar de Neil Gaiman.
Titânia e Oberon. Imagem: divulgação

Shakespeare reúne sua comitiva de atores e, apesar do nervosismo, inicia a apresentação para os ilustres convidados, em um teatro improvisado em meio à natureza. É nesta história que Hamnet, filho de Shakespeare, aparece, e com ele apresenta uma faceta talvez pouco conhecida do autor: a de um pai muito ocupado com o próprio ofício e ausente na vida da criança, que se queixa sobre a tristeza que sente quanto ao distanciamento entre os dois.

Hamnet no quadrinho Sandman
Hamnet. Imagem: divulgação

Hamnet morreu ainda criança, vítima de peste bubônica, e há teorias de que os ecos do luto sofrido pela família fizeram com que Shakespeare escrevesse Hamlet (tamanha a semelhança entre os nomes de ambos).

"Hamnet", livro de Maggie O'Farrell
“Hamnet”, livro de Maggie O’Farrell. Imagem: divulgação

O personagem teve a sua história adaptada de forma arrebatadora e catártica na obra Hamnet, de Maggie O’Farrell, lançado pela Editora Intrínseca e traduzido por Regina Lyra.

Breves menções à cultura pop

Fora Shakespeare, Aleister Crowley, famoso ocultista britânico fundador da Thelema, é mencionado no início de “O Sono dos Justos”, quando Roderick Burgess conta, durante o ritual de tentativa de aprisionamento da Morte, que iria querer ver “Aleister e seus amigos” tentarem rir dele, evidenciando uma certa proximidade com o excêntrico homem, embora possivelmente sendo motivo de chacota.

Aleister Crowley
Aleister Crowley. Imagem: divulgação

Em certa passagem de “A Casa das Bonecas”, Rose pede que Gilbert conte a ela uma história, ao passo que ele narra a versão original – e sangrenta – de Chapeuzinho Vermelho, deixando a garota assustada. Ademais, menções a filmes famosos como Mary Poppins, atrizes e celebridades como Judy Garland e Marilyn Monroe, passando pelos brinquedos Barbie e Ken e músicas como Dream a Little Dream of Me, de Doris Day, Sweet Dreams (Are Made of This), da Eurythmics e These Boots Are Made for Walkin’, de Nancy Sinatra, são algumas das diversas referências que aparecem ao longo dos três primeiros arcos de Sandman.

Sandman apresenta nos detalhes e em sua intertextualidade, minimamente pensados por Neil Gaiman, toda a sua genialidade, importância e relevância até os dias de hoje, sendo uma obra atemporal e que, dentre outros temas importantes, conversa diretamente com os apaixonados por História e pelas Artes, no geral.

Fontes/créditos:
  • CAMPBELL, H. A Arte de Neil Gaiman. 1. ed. São Paulo: Mythos, 2015.
  • ROCHA, L.F. As Linhas Intertextuais no Imaginário Contemporâneo de Neil Gaiman: Um passeio pelas Dreamlands do autor de Sandman. Scribd, 2014. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/373552557/As-Linhas-Intertextuais-no-Imaginario-Contemporaneo-de-Neil-Gaiman>. Acesso em 27 de abr. de 2022.
  • Ilustrações do quadrinho: Sam Kieth, Mike Dringenberg, Chris Bachalo, Michael Zulli, Kelley Jones, Charles Vess, Colleen Doran, Malcom Jones III e Steve Parkhouse. Capas por Dave McKean e Robbie Busch.

Absolute Sandman – Volume 1: Edição Definitiva

Autor: Neil Gaiman

616 páginas

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Autora:

92 textos

Formada em Letras, pós-graduada em Produção Editorial, tradutora, revisora textual e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.
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