O protagonismo e a força de Ellen Ripley na franquia “Alien”

O protagonismo e a força de Ellen Ripley na franquia “Alien”

Para entender a importância de Ellen Ripley na franquia Alien, basta perguntar à grande maioria das pessoas o que elas acham da atriz norte-americana Sigourney Weaver. Automaticamente a resposta virá com uma pergunta: “Quem?”. E você, que já esperava essa reação, explica: “Aquela do Alien…”. Imediatamente alguém dirá: “Ah, sei! Adoro esse filme!”.

Com uma franquia que compreende seis filmes e dois spin-offs, Sigourney dá vida a Ellen Ripley, protagonista da franquia Alien nos quatro primeiros filmes. Podemos dizer então que ela é tão famosa quanto a saga e muito possivelmente esse seja seu trabalho mais popular. A atriz já conquistou o Globo de Ouro de Melhor Atriz, por “A Montanha dos Gorilas” (1988) e Melhor Atriz Coadjuvante, por Working Girl (1988), além do Bafta de Melhor Atriz Coadjuvante, por “Tempestade de Gelo” (1997), além de outros prêmios.

Ellen Ripley
Alien o 8 passageiro (1979), Alien o Resgate (1986), Alien 3 (1992) e Alien a Ressurreição (1997)

Muitos podem ser os motivos para o sucesso do filme com o público, afinal, tirando um ou outro vacilo entre as sequências da série, de modo geral a franquia é incrível. Porém, para nós, feministas, que matamos um leão por dia na luta pela desconstrução dos estereótipos de gênero, Ripley representa a conquista de um espaço literalmente destinado até então aos homens.

O primeiro filme da saga, “Alien – o 8º passageiro”, se passa em 2122, quando o rebocador espacial Nostromo recebe um pedido de socorro vindo do planeta deserto LV-426. Os sete tripulantes do rebocador – tenente Ellen Ripley (Sigourney Weaver), Capitão Dallas (Tom Skerritt), Lambert (Verônica Catwrigth), Brett (Harry Dean Stanton), Kane (John Hurt), Ash (Ian Holm) e Parker (Yaphet Kotto) – trabalham para a empresa Weyland-Yutani e viajam de Thedus à Terra levando um carregamento com toneladas de minério. A tripulação decide atender ao chamado de socorro e lá ocorre o primeiro contato com um xenomorfo (alien), fato que muda o curso de vida da equipe e dá início a toda sequência dos filmes que virão.

Apesar de serem minoria no Nostromo, Ellen e Lambert (a outra personagem feminina do filme) ocupam um espaço de igualdade entre os homens. Tripulantes são retratados quase de forma assexuada e sem gênero, e não parece haver interesse sexual entre os membros da aeronave, que se tratam como uma equipe de pessoas cujo objetivo profissional precisa ser cumprido e está acima de interesses pessoais.

Ellen Ripley

Além da falta de apelo sexual, evidente nos filmes da série, mesmo quando Ripley se envolve sexualmente com personagens masculinos, em nenhum momento vemos algum tipo de objetificação de sua imagem, tampouco a vemos seguindo o estereótipo da mulher fragilizada e assustada, muito ao contrário.

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Nas cenas em que ela demonstra atração ou se envolve com alguém, é sempre de forma natural, quase como uma necessidade física. Ela escolhe seu parceiro e desfruta de seu sexo sem manifestar em seu desejo qualquer afetividade, apenas a necessidade de estar fisicamente com alguém. Além da personagem de Ripley não ter comportamentos estereotipados e sua jornada não se basear naquilo que um homem determina, muitos outros aspectos da luta feminista estão presentes na série.

No primeiro filme, depois que toda tripulação acorda de sua hibernação, ocorre uma cena bem interessante no refeitório enquanto todos estão comendo. Os dois mecânicos da nave reclamam: “Todo mundo ganha mais dinheiro do que nós“. Isso inclui as duas tripulantes mulheres da Nostromo. Vale ressaltar que esse filme foi lançado em 1979, período em que as mulheres ganhavam salários anuais que chegavam a apenas 60% dos salários dos homens.

Ellen Ripley

Os marcos de pautas feministas não param por aí. No filme, homens e mulheres trabalham em funções semelhantes, com distribuição de trabalho igualitário. Apesar de identificarmos a existência de um comando, ele não aparece de cima para baixo e não faz distinção de gêneros quando dispõe tarefas ou determina ordens.

Outro aspecto interessante é o fato de todos integrantes do rebocador serem chamados pelo sobrenome, suprimindo mais uma vez identificações de gênero. No meio desse cenário, que parece sugerir um futuro onde homens e mulheres enfim alcançaram um lugar de igualdade e respeito, a personagem de Sigourney assume o papel de heroína quase que naturalmente na saga, mas sem o uso dos clichês comuns aos filmes de heróis. Ellen Ripley é uma heroína ao acaso, uma figura andrógina que está decidida a sobreviver ao ataque mortal do ser alienígena que encontraram quando atenderam ao chamado de socorro do planeta LV-426.

Ripley quer sobreviver e encontrará forças para de forma inteligente e intuitiva voltar à casa sã e salva. O uso da força física raramente aparece, afinal Ellen não é uma guerreira, muito menos uma soldada, mas sim uma pessoa com grande instinto de sobrevivência. Dessa forma, ao acaso e espontaneamente, Ripley cresce como indivíduo e se transforma ao longo da franquia. De simples tripulante da Nostromo, pouco a pouco ela vai se transformando em uma caçadora de aliens.

Ellen Ripley

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Existem várias análises acadêmicas a respeito da franquia Alien. Algumas delas baseiam-se em teorias psicanalíticas, feministas e até marxistas. O fato é que ao acompanharmos toda a sequência dos filmes, vemos que se desenvolve um elo entre Ripley e o xenomorfo. Ambos querem sobreviver. O alien, porque necessita evoluir e garantir a continuação de sua espécie, e Ripley, por uma necessidade instintiva de lutar por sua vida.

Os aliens necessitam de seres vivos para serem incubados e se desenvolverem. Eles dominam os corpos hospedeiros e os fecundam, para num breve período depois serem “paridos” de forma violenta, rasgando suas barrigas e saindo em busca de outros seres vivos para repetirem todo esse ciclo. Inclusive existe uma teoria que se apoia na ideia de que a saga Alien explora a castração masculina.

No texto “Reavaliando Alien: Sexualidade e a Ansiedade dos Homens” (2012), Jason Hanggstrom aponta: “Nessa sociedade sexualmente confusa, onde o pênis não é mais o objeto do poder masculino, revela-se o medo inconsciente do feminismo final: a diferença sexual será eliminada juntamente com o gênero, levando à distribuição igual dos direitos reprodutivos, independentemente do sexo. Os homens terão que compartilhar o fardo da gravidez e do parto. Essa ansiedade em relação ao feminismo baseia-se na noção de que, com a abolição dos papéis de gênero e a divisão do trabalho, o papel da mãe diminuirá, a menos que possa ser compartilhado igualmente entre os dois sexos”.

Ellen Ripley

Ellen Ripley impõe a presença feminina na franquia Alien apenas por se comportar como indivíduo inteligente e firme, no propósito de sobreviver ao fim iminente. Em detrimento de muitos filmes de terror e ficção científica, ela não cai, não precisa ser resgatada e tampouco foge de forma irracional e histérica do vilão que quer atacá-la e usar seu corpo para a perpetuação de sua espécie (isso nos parece bem familiar). Não! Ela luta como uma mulher! Usando inteligência, astúcia e estratégia, ela sabe que sua vida está em risco e está disposta a derrotar a criatura alienígena e retornar à Terra, cumprindo a missão que foi incumbida de executar.

“A maioria dos filmes de ficção científica e fantasia retratam a mulher como a companheira do homem, e ela é mais frequentemente que um obstáculo no momento crucial em que o protagonista está tentando escapar ou derrotar os vilões e monstros… Quantas vezes vimos a heroína viajar e cair enquanto o casal foge de seus perseguidores, e quantas vezes o herói foi forçado a voltar e ajudá-la a ficar de pé para literalmente levá-la do perigo?”.

Rebecca Bell-Meterreau

Em toda saga Alien presenciamos o inverso. O que assistimos é uma mulher assumindo um espaço destinado aos homens (o comando da nave, o planejamento e o ataque ao monstro alienígena e, por fim, o êxito) e lutando por sua vida sem depender nem esperar que o “herói” venha salvá-la.

Ellen Ripley

Em dado momento, o alienígena e Ripley compreendem que essa é muito mais do que uma luta pela sobrevivência um do outro. Ambos se dão conta de que a batalha que estão travando diz respeito ao futuro da humanidade e à evolução da espécie humana. Alienígena e Ripley se encaram de igual para igual, quase como duas mães que protegem sua prole. De um lado, seres extraterrenos sedentos por se multiplicarem, do outro, seres humanos tentando garantir uma sociedade justa e igual independente de seu gênero. Ellen Ripley é, sem dúvida, uma grande porta-voz do feminismo na ficção científica.

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Mulher, mãe, profissional e devoradora de filmes. Graduada em Psicologia pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhando com Gestão de Patrocínios e Parceiras. Geniosa por natureza e determinada por opção.
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