A Princesa Prometida: a ausência das mulheres na fantasia dos anos 80

A Princesa Prometida: a ausência das mulheres na fantasia dos anos 80

Assim como diversos outros filmes do diretor Rob Reiner, como Conta Comigo e Harry e Sally – Feitos um para o Outro, A Princesa Prometida (The Princess Bride, 1987) é considerado um clássico dos anos 80.

Baseado no livro homônimo de William Goldman, o filme é facilmente encontrado em coletâneas como 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer e teve duas versões realizadas durante a pandemia do novo coronavírus: a primeira contou com nomes como Sophie Turner, Diego Luna e Hugh Jackman reencenando a trama em suas casas para arrecadar dinheiro para a organização de caridade World Central Kitchen, ao passo que a segunda reuniu os atores do longa original em uma leitura de roteiro virtual em prol do Partido Democrata de Winsconsin.

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Contudo, o filme ainda é pouco conhecido no Brasil, talvez por não ter sido um dos queridinhos da Sessão da Tarde nos anos 90. O que é uma pena! Empolgante, divertido e cheio de diálogos memoráveis, A Princesa Prometida é uma ótima escolha para quem quer desanuviar no meio do desespero que é ser brasileira, hoje em dia. E, para combinar com o clima de pandemia que não vai embora, a história principal tem como moldura um avô (Peter Falk) lendo um livro para o neto doente (Fred Savage).

Fred Savage e Peter Falk em A Princesa Prometida
Fred Savage e Peter Falk em A Princesa Prometida. (Imagem: Reprodução)

Porém, o filme também pode ser um pouquinho incômodo para o público contemporâneo. A história de amor entre Buttercup (Robin Wright) e Westley (Cary Elwes) é cheia de vícios comuns aos filmes de aventura dos anos 80, como a falta de protagonismo feminino e a repetição de tropes como o da donzela em perigo. Isso se deve em grande parte ao fato de o filme não ter sido feito com meninas e mulheres em mente. Pela forma como a história é contada, fica subentendido que se trata de um romance para meninos.

Mais do que uma crítica direta ao filme, tudo que se diz sobre A Princesa Prometida deve ser entendido como um comentário a respeito de uma época. Os anos 80 foram um período riquíssimo para filmes de aventura e fantasia para crianças e adolescentes. Pouquíssimos tinham meninas ou mulheres como protagonistas. As personagens femininas da década eram, em grande parte, interesses românticos ou mocinhas desprotegidas. A Princesa Prometida não foge à regra.

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Buttercup (Robin Wright) e Westley (Cary Elwes).
Buttercup (Robin Wright) e Westley (Cary Elwes). (Imagem: Reprodução)

Das páginas para as telas

Publicado em 2018, no Brasil, pela Intrínseca, o livro de William Goldman teve sua primeira edição em 1973. Logo em seguida, começaram os planos para levar a história para o cinema. Cineastas renomados, como Robert Redford e François Truffaut, se interessaram pelo projeto, que nunca saía do papel. Goldman chegou a comprar os direitos do filme de volta e só tornou a cedê-los quando recebeu a proposta de Reiner.

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Roteirista de filmes como Butch Cassidy e Todos os Homens do Presidente, Goldman ficou responsável por adaptar o texto da própria obra para o cinema. No filme, Buttercup é uma jovem que tem como principal passatempo atormentar Westley, empregado da fazenda de seus pais. A implicância aos poucos se transforma em amor. Para conseguir dinheiro para se casar com Buttercup, Westley parte em uma viagem e é dado como morto após seu navio ser atacado pelo Infame Pirata Roberts. Desolada, Buttercup jura nunca mais amar novamente.

fantasia dos anos 80
O príncipe Humperdinck (Chris Sarandon) e sua corte. (Imagem: Reprodução)

Porém, o mundo da jovem vira de ponta-cabeça quando ela é prometida em casamento ao Príncipe Humperdinck (Chris Sarandon), do país fictício de Florin. Buttercup se muda para a corte e, pouco depois, é sequestrada por um bando comandado pelo presunçoso Vizzini (William Shaw). A futura princesa é resgatada por ninguém mais, ninguém menos do que Westley, que assumiu a identidade do pirata acusado de matá-lo.

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Embora as escolhas acertadas de Goldman a respeito do que preservar da obra original e o timing cômico impecável sejam essenciais para fazer do filme o que ele é, grande parte do sucesso da adaptação se deve ao elenco. Wright e Elwes estão ótimos como o casal protagonista, mas todos os membros do elenco possuem um carisma impossível de resistir.

O maior destaque é certamente Mandy Patinkin como o espadachim Inigo Montoya, que busca vingança contra o homem de seis dedos que matou seu pai. A cena em que Montoya luta contra seu adversário (Christopher Guest), repetindo a frase “Olá, meu nome é Inigo Montoya, você matou meu pai, prepare-se para morrer” é a mais memorável de todas. O embate é principal inspiração para a luta entre Oberyn Martell (Pedro Pascal) e Gregor Clegane (Hafþór Júlíus Björnsson) na quarta temporada de Game of Thrones.

Inigo Montoya (Mandy Patinkin) em A Princesa Prometida
Inigo Montoya (Mandy Patinkin) luta contra o assassino de seu pai. (Imagem: Reprodução)

Uma história dentro de outra

Diversos detalhes foram deixados de fora da adaptação de A Princesa Prometida para o cinema. Porém, a parte central da história de Westley e Buttercup continua lá. A principal diferença entre o livro e o filme é a narrativa que serve de moldura para a trama. Enquanto, no filme, um garoto doente ouve uma história contada por seu avô, no original, somos apresentadas a uma versão fictícia de Goldman que tenta relançar um livro que seu pai lia para ele quando criança.

De autoria do escritor fictício S. Morgenstern, o “verdadeiro” A Princesa Prometida é cheio de comentários sobre a política europeia da época em que teria sido escrito. O pai de Goldman, porém, lia para o filho apenas as “partes boas”. E foi essa leitura que transformou o garoto apaixonado por beisebol em um aspirante a escritor. Mais do que isso, Goldman quer compartilhar com o mundo – e, principalmente, com o filho – seu livro preferido.

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filmes de fantasia dos anos 80
Inigo Montoya, Vizzini (William Shaw) e Fezzik (André the Giant). Imagem: Reprodução

Entretanto, a versão ficcionalizada de Goldman é um personagem difícil de engolir. O autor imaginário gasta parágrafos inteiros reclamando do relacionamento com a esposa e do filho que não se interessa por esportes. Muitas vezes, os comentários resvalam no machismo e na gordofobia. Logo, foi mais do que uma boa ideia trocar a moldura original por outra.

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Contudo, permanece a ideia do garoto que se apaixona por uma história ouvindo apenas as “partes boas”. O problema é quais são essas partes boas no filme: qualquer coisa que não seja romance. Ao fim do filme, o menino sem nome interpretado por Fred Savage aprende a aceitar as cenas de beijo lidas pelo avô. No começo, porém, só se interessa pelo livro porque acredita que ele falará de esportes.

Buttercup (Robin Wright), a donzela em perigo, em A Princesa Prometida.
Uma das temidas cenas de beijo do filme. (Imagem: Reprodução)

O recurso da moldura demarca qual é o público-alvo do filme: meninos pré-adolescentes, o mesmo de Os Goonies e Karatê Kid. Partindo do pressuposto de que meninas podem gostar de histórias para meninos, mas que nenhum garoto jamais se identificará com uma protagonista feminina, o filme se coloca como universal, mas não é bem assim. O personagem de Savage poderia não ter problemas com cenas de beijo. Ou poderia ainda ser uma menina que pede para o avô pular as cenas violentas. Ou uma menina que prefere lutas de espada a romance. Mas não é.

Uma princesa, vários resgates

O recorte de público e o entendimento a respeito de quem deve ser o protagonista de uma história também faz com que as poucas personagens femininas da trama sejam jogadas para escanteio. Além de Buttercup, apenas outras duas mulheres tem alguma relevância para a história: a mãe do menino doente (Betsy Brantley) e Valerie (Carol Kane), esposa do curandeiro Max Milagroso (Billy Crystal). Todavia, ambas não fazem muita coisa além de favorecer a ação dos personagens masculinos.

E com Buttercup não é diferente. A princesa do título passa quase todos os 98 minutos do filme precisando ser resgatada. Primeiro, é Westley que a salva do bando de Vizzini. Depois, são os homens de Humperdinck que a salvam a contragosto de Westley. Por fim, são Westley, Inigo e Fezzik (André the Giant) que a resgatam de Humperdinck, que pretende usar a noiva em um plano para declarar guerra a um país vizinho

Valerie (Carol Kane), uma das poucas personagens femininas do filme, e Max Milagroso (Billy Crystal).
Valerie (Carol Kane), uma das poucas personagens femininas do filme, e Max Milagroso (Billy Crystal). (Imagem: Reprodução)

Há apenas dois momentos em que Buttercup faz algo para mudar o próprio destino: quando tenta afastar um roedor gigante com um pedaço de pau e quando ameaça se suicidar.

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Porém, a cena em que a ameaça está prestes a se concretizar é uma das mais fáceis de criticar. Ao longo tanto do livro quanto do filme, Buttercup não é definida por nenhuma característica além da beleza. Ela é a mulher mais bela do mundo, e só. Quando coloca um punhal contra o coração, a princesa é interrompida por Westley, que diz: “Há poucos seios perfeitos no mundo. Seria uma pena danificar os seus”. É uma fala descabida, que já virou meme entre os fãs do filme.

A Princesa Prometida, meme
“Nããão não se mate vc é tão sexy aha” (Imagem: useless-bisaster/Reprodução)

Contudo, nada disso anula as qualidades de A Princesa Prometida, que parodia e homenageia o universo dos contos de fada na mesma medida com maestria. Mas é impossível não ficar com uma pulguinha atrás da orelha: apenas dois anos depois, a Disney daria início à sua Renascença com o lançamento de A Pequena Sereia, abrindo caminho para diversos filmes que, embora sejam criticáveis em vários pontos, são carregados nas costas por protagonistas femininas.

Por último, será que realmente não era possível para Reiner e Goldman dar para as meninas e meninos dos anos 80 (e 90, e 2000…) uma princesa capaz de fazer um pouco mais do que morrer por amor?


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Autora:

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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