Legalmente Loira: as qualidades que tornam este filme surpreendentemente feminista

Legalmente Loira: as qualidades que tornam este filme surpreendentemente feminista

Em Legalmente Loira (Legally Blonde, 2001), Elle Woods (Reese Witherspoon) é uma estudante de moda no último ano da faculdade. Além de ser uma excelente aluna, sua área de estudo e seu visual completamente estereotipado (roupas cor de rosa estilo Barbie e um longo cabelo loiro) a fazem ser menosprezada por seu namorado, Warner (Matthew Davis). Ele, por sinal, está prestes a ingressar na pós graduação de Direito em Harvard, e acha que precisa de uma namorada que pareça “séria” o suficiente para favorecer sua imagem em sua futura carreira política.

Quando Elle acha que Warner está prestes a pedi-la em casamento, ele, na verdade, termina o namoro. Indignada, Elle resolve se inscrever também no curso de Direito de Harvard, na esperança de provar para Warner que ela é inteligente, e assim reconquistá-lo.

Elle Woods (Reese Witherspoon) em Legalmente Loira
Elle Woods chegando em Harvard. (Imagem: reprodução)

Como a mídia caracteriza o personagem pela aparência

O tipo de narrativa mais comum em filmes parecidos com Legalmente Loira é o que faz a personagem mudar seu visual para se adequar a sua “nova personalidade”. O que costumaríamos esperar, portanto, seria ver Elle Woods abandonando aos poucos sua aparência de patricinha, e adotando um visual mais sóbrio, para simbolizar a descoberta de sua inteligência.

Somos bombardeadas todos os dias com a ideia de que a aparência simboliza a personalidade das pessoas. Em reality shows de makeover, seja tanto os que transformam mulheres (Esquadrão da Moda), quanto os que transformam homens (Queer Eye), a mensagem que tentam nos vender é a mesma. Não é que você precisa mudar a sua personalidade, você já é digno e perfeito por dentro.

No entanto, a forma como você se veste atualmente não está revelando pras pessoas essa sua grande personalidade. Você precisa passar a usar roupas que mostrem quem você realmente é para o mundo (mas claro que essas roupas são sempre escolhidas pelos “gurus” dos programas, e não pelos próprios participantes.)

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Os filmes também reproduzem frequentemente essa mensagem. Para revelar sua real personalidade e potencial, você tem que se vestir de forma que deixe isso visível. Inúmeras obras demarcam uma mudança na vida de seus personagens com uma transformação em suas aparências.

Cena de O Diário da Princesa.
O filme Diário da Princesa é um dos exemplos.

O mundo comercial sempre aprende a se adequar rapidamente às mudanças de pensamento da sociedade. Se antes era possível impor regras rígidas e excluir ou ridicularizar quem não as seguisse, hoje isso não é mais tão aceitável. A sociedade já começou a internalizar um discurso de que diversidade é importante, e que todos são especiais à sua maneira. Dessa forma, o mercado se apropriou desse discurso e passou a vender o slogan de que “você já é perfeito por dentro, só precisa começar a mostrar essa perfeição para o mundo usando roupa tal e tal”, e assim por diante.

Quando o feminismo passou a ser algo mais popular e aceitável, o mercado começou a tentar vender a ideia de que produtos podem empoderar as mulheres, mesmo que sejam produtos que sempre fizeram parte de uma ideia rígida de feminilidade padrão. A “livre escolha” é usada como o grande álibi desse discurso, e o feminismo acaba reduzido apenas a uma questão de consumo.

Como Legalmente Loira subverte tropos de forma eficaz

É uma boa surpresa constatar que, felizmente, Legalmente Loira foge desse vínculo entre personalidade e visual, e permite que Elle mantenha sua aparência da mesma forma durante o filme inteiro. No início, o filme faz piada de vários estereótipos, mostrando a sororidade que Elle participa na faculdade de forma extremamente exagerada e “hiperfeminina”, e também caracterizando os alunos de Direito de Harvard com vestimentas conservadoras e atitude arrogante. Mas, depois, o longa mostra que as pessoas de ambos grupos são muito mais do que apenas tais estereótipos, e que podem aprender a se respeitar e se unir.

Também é muito positivo, simbolicamente, que Elle possa solucionar o caso jurídico que está defendendo como estagiária com seus conhecimentos sobre moda. Apesar de antes ter sido ridicularizada por isso, ela prova que há valor sim em sua área de estudo, mesmo nos ambientes mais improváveis.

Seus conhecimentos sobre moda fazem com que Elle Woods solucione o caso.
Seus conhecimentos sobre moda fazem com que Elle solucione o caso. (Imagem: reprodução)

As mulheres do filme aprendem a se admirar e a se unir

Também é notável como, no início, as mulheres do filme são super competitivas entre si. A nova namorada de Warner, Vivian (Selma Blair) revira os olhos de forma super caricata toda vez que encontra Elle. Porém, ao longo do longa ela vai conhecendo Elle melhor e aprendendo a se desfazer de certos preconceitos que tinha.

Uma cena crucial é quando Vivian avista o professor de Direito, que contrata vários dos alunos como estagiários, dando em cima de Elle em sua sala particular. Vivian logo supõe que Elle está usando sua sexualidade para avançar na carreira, e a julga antes que possa realmente saber do desfecho real: Elle se indigna, rejeita o professor e pede demissão. Quando descobre a verdade, Vivian percebe o erro que cometeu em julgar o caráter de Elle de forma precipitada.

Vivian (Selma Blair) em Legalmente Loira
Vivian em cena de Legalmente Loira. Imagem: reprodução

Há também outra cena em que Vivian começa a admirar a atitude de Elle em não revelar um segredo que descobriu da cliente do escritório, simplesmente por ter prometido a ela. Enquanto Warner, que também é estagiário, aconselha Elle a pensar apenas em si mesma e revelar o que sabe para avançar na carreira, Elle se mantém firme em sua convicção ética, e isso chama a atenção de Vivian positivamente.

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Outras duas mulheres também começam hostis com Elle, e terminam amigáveis. O primeiro exemplo é a professora Stromwell (Holand Taylor). Inicialmente sisuda e exigente na aula, a professora humilha Elle por não estar preparada o suficiente para responder as questões perguntadas. Ao final, ela tem uma breve cena em que incentiva Elle a não desistir da faculdade por um conflito com outro professor.

A segunda mulher é Enid (Meredith Scott Lynn), que primeiramente julga que Elle será preconceituosa com ela, mas que ao final parece se tornar mais amigável, embora o filme deixe isso mais implícito que explícito. Enid, infelizmente, é um dos poucos estereótipos no filme que não realmente subvertidos. Ela é caracterizada como a feminista militante hostil, que problematiza tudo e todos de forma caricata e irracional.

Por fim, temos Paulette (Jennifer Coolidge) e as amigas da sororidade, Margot e Serena, que são amigáveis desde o início e permanecem apoiando e incentivando Elle até o final. Elle também apoia Paulette, que passou por uma situação de traição e abandono, e a ajuda a buscar uma certa reparação, resgatando o cachorro que ficou com o cruel ex-marido.

Paulette confrontando o ex-marido em Legalmente Loira
Paulette confrontando o ex-marido. Imagem: reprodução

Legalmente Loira identifica a fonte real do machismo

Uma das coisas mais fundamentais, mas que às vezes passa batido para os filmes que pretendem falar de empoderamento feminino, é identificar a fonte real de machismo na sociedade. Legalmente Loira felizmente reconhece que esse não é um problema só das mulheres, mas sim algo criado e reforçado principalmente por homens. As mulheres do filme também reproduzem machismo, julgando as outras e competindo entre si, mas o filme deixa claro como elas fazem isso porque são impelidas e instruídas a se encaixarem nesse mundo formulado por homens.

No decorrer da trama, tais mulheres também acabam confessando seus incômodos em situações desconfortáveis pelas quais passam. Vivian, por exemplo, reclama em um momento que o professor sempre pede a ela para trazer café para ele no escritório, mas nunca pede a Warner, mesmo ambos sendo igualmente estagiários. Já Elle fica revoltada e decepcionada ao perceber que o professor elogiava sua performance e prometia uma promoção apenas como forma de obter favores sexuais dela.

Legalmente Loira identifica a fonte real do machismo
Cena de Legalmente Loira. Imagem: reprodução

Aliás, o professor é tão machista que nem sequer acredita na inocência da cliente que o procura para defendê-la no tribunal em uma acusação criminal. Elle é a única que acredita na cliente logo de cara. A atitude de Elle de acreditar na bondade das pessoas é vista como imaturidade e inexperiência pelos demais advogados. Mas ela acaba provando que, em certos casos, há bons motivos para se manter essa visão positiva e otimista do mundo, tanto que acaba ganhando o caso na corte se mantendo fiel a essas convicções.

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Warner, que tanto julgava Elle como uma pessoa não-séria e pouco inteligente, acaba se revelando alguém bem menos competente que ela. Vivian conta para Elle que Warner não foi aceito de primeira em Harvard. Ele ficou na lista de espera, e só entrou porque seu pai, com influência política, ligou para a administração da universidade e arranjou a entrada do filho. Ao final, o filme diz que Warner permaneceu um aluno medíocre e se formou sem honras nem propostas de emprego.

Warner termina como um aluno medíocre em Legalmente Loira
Warner termina como um aluno medíocre em Legalmente Loira. (Imagem: reprodução)

Por outro lado, Emmett (Luke Wilson), que também trabalha no escritório do professor Callahan, é tratado de forma bastante realista e nuançada. Ele é um rapaz mais bondoso que os demais, mas não está isento de reproduzir machismo também. Elle tem algumas conversas com ele e confronta algumas de suas opiniões sobre o caso que estão defendendo.

A diferença é que Emmett tem menos resistência em reconhecer o talento e inteligência de Elle, e logo enxerga que ela tem razão em suas ideias de como melhor solucionar o caso. Seu apoio acaba se mostrando fundamental para que Elle possa assumir o caso depois que a cliente demite o professor Callahan, o que mostra como homens podem fazer a diferença sendo aliados e apoiando mulheres em suas jornadas.

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Ao final, o filme mostra Emmett como um par romântico mais digno que Warner. Embora Elle tenha ido para Harvard em busca de uma idealização romântica ilusória, ela acaba decidindo continuar no curso por descobrir que tem real talento na área jurídica. O par romântico, portanto, acaba virando mais um bônus do que um objetivo primordial. Mais importante ainda, Elle se dá conta de que, se é para ter um par romântico, ela merece estar com alguém que realmente a respeite, como Emmett faz.

Emmett aprende a confiar em Elle Woods
Emmett aprende a confiar em Elle. (Imagem: reprodução)

Nem todas as representações são positivas, infelizmente

Apesar de vários pontos positivos, infelizmente o filme representa homens gays de forma bastante reducionista e ultrapassada. Em uma das sessões na corte, Elle interroga o jardineiro de sua cliente, uma das testemunhas do caso. Ele diz ser amante da cliente, mas, no intervalo da sessão, faz um comentário sobre a exata marca do sapato que Elle está usando. Com isso, Elle supõe que o jardineiro só pode ser gay, pois homens hétero “não entendem nada de moda”.

Estereótipos reducionistas em Legalmente Loira.
Estereótipos reducionistas em Legalmente Loira. Imagem: reprodução

Portanto, a conclusão que ela chega é de que o jardineiro está mentido sobre ter um caso com a cliente, pois só um homem gay saberia identificar um sapato de marca, e homens gays não teriam casos com mulheres. O filme recompensa essa visão estereotipada, mostrando que Elle estava certa em sua suposição e a testemunha estava realmente mentindo.

Há também uma cena num salão de beleza que mostra alguns cabeleireiros gays, algo que existe na realidade, mas que no filme são apenas figurantes compondo um cenário. Mesmo em 2001, já havia passado do tempo de representar homens gays apenas como acessórios de mulheres hétero, e interessados apenas em coisas desse universo, como moda, beleza e consumismo. Infelizmente, Legalmente Loira é mais um filme que traz essa representação.

No fim das contas, o saldo do filme é bastante positivo

Legalmente Loira traz lições bastante valiosas sobre como podemos nos livrar de vários preconceitos sobre o estereótipo da feminilidade padrão. O filme, para efeitos cômicos, exagera bastante no modo como alguns personagens agem, e várias cenas são caricatas e nada realistas. Mas, dentro da proposta do longa, essas representações acabam sendo subvertidas e colocadas em uma luz bastante positiva. Este é um filme que certamente ainda se mantém válido como um bom exemplo a se seguir nos dias de hoje.

Legalmente Loira está disponível no streaming do Telecine.

Legalmente Loira: as qualidades que tornam este filme surpreendentemente feminista
Cena de Legalmente Loira. Imagem: reprodução

Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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