A importância de Halle Bailey como a Pequena Sereia nos cinemas

A importância de Halle Bailey como a Pequena Sereia nos cinemas

No último dia 3 de julho foi anunciado que a cantora e atriz Halle Bailey da dupla Chole x Halle e da série “Grown-ish” será Ariel no filme live action da Pequena Sereia, animação clássica do final do anos 1980 da Disney. Após o anúncio as redes sociais foram inundadas por duas reações a alegria dos fãs que receberam muito bem a ideia de uma sereia negra, no entanto, a jovem e talentosa artista não escapou do racismo disfarçado de preocupação com a representação do material original.

Antes de entrarmos no centro da questão do racismo, vamos contextualizar um pouco as coisas para vocês entenderem porque ela é a melhor escolha para a personagem.

Quem é Halle Bailey?

Halle Bailey se tornou sensação na internet, em 2013, ao lado de sua irmã Chloe, fazendo covers da cantora Beyoncé, então a própria rainha Beyoncé descobriu o talento das duas, em 2015, e elas assinaram com o selo da diva, lançando o primeiro álbum do duo, The Kids Are Alright (2018), pelo selo Parkwood.

A dupla também fez parte do Lemonade tour, turnê da cantora Beyoncé de seu aclamado sexto álbum. Elas também participaram do álbum visual de Lemonade ao lado de Zendaya e das irmãs gêmeas da dupla Ibeyi, no vídeo da música “Freedom”. Além de Lemonade, elas também estão no elenco da série “Grown-ish” e também fizeram a música tema do filme “Uma Dobra no Tempo”.

Seu álbum de estreia foi indicado ao Grammy 2019 na categoria Melhor Álbum de Música Urbana Contemporânea e a dupla recebeu também indicação na categoria Artista Revelação. Uma série de trabalhos sólidos para quem tem poucos anos de carreira. Além sua mentora Beyoncé, Halle é admirada por outras mulheres icônicas como Michelle Obama.

Lemonade
Halle Bailey no vídeo de Lemonade ao lado de Beyoncé. (Imagem: reprodução)

Halle comemorou em seu Instagram a escalação para o filme com uma publicação que mostrava a sereia Ariel em sua pose mais famosa, com a pele negra e cabelos escuros. Após anunciarem a escolha de Halle, muitos chegaram a confundi-la com a atriz Halle Berry, que também se manifestou em suas redes sociais:

“In case you needed a reminder… Halles get it DONE. Congratulations @chloexhalle on this amazing opportunity, we can’t wait to see what you do! #TheLittleMermaid#HalleBaileypic.twitter.com/z0Rik2nxRe

— Halle Berry (@halleberry) 3 de julho de 2019

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O diretor do filme Rob Marshal também revelou porquê ela foi escolhida para o papel: “Depois de uma longa busca, ficou abundantemente claro que Halle tem aquela rara combinação de espírito, coração, juventude, inocência e substância – além de uma voz gloriosa – todas qualidades intrínsecas necessárias para atuar neste papel icônico”.

Dito isso por que muitos se incomodaram com a escolha dela para o papel da sereia Ariel, criando até uma hashtag #notmyariel em protesto?

Não existe sereia negra e outras bobagens racistas

Um dos principais argumentos de quem foi contra a escalação de Halle Bailey é que não existiriam sereias negras na Dinamarca, onde a história se passa, mas na verdade sereias não existem em lugar nenhum.

A história original da pequena sereia foi criada pelo autor dinamarquês Hans Christian Andersen e é muito diferente da versão apresentada nos cinemas pela Disney, em 1989, que suavizou bastante o desfecho da protagonista. Muitos até acreditam que a história da Pequena Sereia se passe no caribe devido ao sotaque jamaicano do caranguejo Sebastião, na dublagem original.

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O mito da sereia não é algo exclusivo dos países europeus, temos essas representações de divindades das águas em outras culturas africanas, como a Iemanjá na cultura Iorubá e a Kianda da cultura angolana. Além da lenda da Iara no folclore indígena aqui no Brasil. Portanto o argumento de que só existem sereias brancas na mitologia é outra besteira infundada que só serve pra revelar o racismo de quem fala isso.

O ódio do mundo nerd as mulheres negras

São muitos os casos de mulheres negras sendo escaladas para papéis de personagens em que a raça não muda em nada a essência da personagem, nem da história, e mesmo assim sofrendo todo tipo de ataque por parte do público, principalmente de homens brancos de meia idade frustrados que escondem o seu racismo com a desculpa de fidelidade pela história original.

A atriz Anna Diop sofreu horrores quando foi anunciada para o papel de Estelar, uma alienígena laranja, na série “Titãs”; mesmo que nos primórdios da personagem ela tenha sido criada baseada em uma mulher negra e depois foi sendo embanquecida ao longo das décadas.

Anna Diop
Anna Diop como Starfire. (Imagem: reprodução)

Na versão para o teatro de Harry Porter ocorreu algo parecido com a personagem Hermione, interpretada pela atriz Noma Dumezweni. Legiões de racistas se uniram para atacar a atriz expressar o seu racismo disfarçado de preocupação com a obra original. O engraçado é que o mesmo não ocorre quando um personagem que era originalmente negro ou de outra etnia é interpretado por atores brancos.

A desculpa de que eles deveriam então criar um personagem novo ao invés de alterar um “original” também não cola. Quando o canal Cartoon Network anunciou que as Meninas Super Poderosas teriam uma irmã mais velha e negra, os comentários racistas brotaram de todos os lugares. O que fica evidente é que os nerds odeiam mulheres, principalmente negras, mas eles vão ter que se acostumar com um mundo que não gira em torno do umbigo racista deles.

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A indústria está mudando?

Há trinta anos atrás as discussões que temos hoje em dia sobre representatividade não eram tão fortes na grande mídia e as histórias consideradas universais eram feitas pensando no indivíduo branco como centro da narrativa. Qualquer produção que não fosse protagonizada por uma pessoa branca seria considerada um filme de nicho que não alcançaria todos os públicos e não faria dinheiro para os estúdios. Mas três décadas depois as coisas evoluíram (ainda que pouco) e aqui estamos, presenciando essa mudança na forma como a mídia entende as pessoas não-brancas e protagonistas que não são homens brancos heterossexuais.

Pantera Negra
Cena do filme “Pantera Negra”. Imagem: reprodução

Em 2018 o filme do “Pantera Negra foi lançado e bateu recordes de bilheteria no mundo todo, fazendo sucesso em mercados como o da Ásia e ficando em primeiro lugar nos EUA. Um filme de herói com o elenco em sua maioria negra e com a direção e produção de pessoas negras, se tornou a primeira obra da categoria a vencer três Oscars e ser indicado na categoria Melhor Filme na premiação do Oscar 2019. Pantera Negra foi um cala boca em quem dizia que produções desse tipo não fazem dinheiro.

A indústria não ficaria alheia a isso, e seguindo uma onda que pede mais representatividade nas obras da cultura pop um live action da Pequena Sereia, com uma atriz negra, é algo muito bem vindo nos tempos em que vivemos. E ele é só mais um exemplo de que a indústria entende que protagonistas não-brancos também geram dinheiro. Um desses exemplos é a recente adaptação do filme do “Aladdin”, filme protagonizado por atores não-brancos que se tornou sucesso de bilheteria. E, em breve, a nova animação do “Rei Leão” também chegará ao cinemas, com um elenco de dubladores em sua maioria negros.

Representatividade importa e muito!

Quem foi uma criança negra antes dos anos 2010 dificilmente se via representada em grandes produções da cultura pop, que invariavelmente formavam a identidade delas. Crianças negras não tinham uma representante no time de princesas da Disney, no máximo a Pocahontas como exemplo mais próximo, mas ainda assim distante. Aliás, crianças negras nunca tiveram muita coisa para se espelhar, fazendo-as crescer se sentindo inferiores ou menos interessantes que as meninas brancas, que podiam ser princesas.

Para as crianças brancas é uma boa forma de encontrar beleza em pessoas que não são como elas e entenderem que elas não são os sujeitos universais do mundo. As histórias universais deveriam ser sobre as coisas que nos tornam humanos e não sobre o tom da pele de alguém.

Só em 2009 a Disney resolveu fazer um filme com uma protagonista negra, a Tiana do filme “A Princesa e o Sapo”, e ainda assim uma escolha fraca levando em consideração que a protagonista passa boa parte do filme na pele de um sapo interagindo com animais. Demorou mais dez anos para o estúdio resolver investir em outra protagonista negra.

Brandy Cinderella
Brandy e Paolo Montalban em cena do filme Cinderella. Imagem: reprodução

Halle Bailey será apenas a segunda atriz negra a interpretar uma princesa que era originalmente branca. A primeira foi Brandy interpretando Cinderella no filme de 1997, com Whitney Houston como a sua Fada Madrinha e Paolo Montalban como o príncipe.

As crianças que vão crescer tendo novos modelos como exemplos poderão sonhar em ser o que quiserem, sereias ou guerreiras, sem sentirem que aquilo não é pra elas. Esse filme não foi feito para a geração de millennials de trinta e poucos anos que cresceram com a imagem da Ariel ruiva e branca, ele é para uma geração de crianças que estão crescendo com séries animadas com exemplos saudáveis de diversidade e respeito, como Steven Universo e She-Ra.

A força de uma criança negra se ver na tela dos cinemas como protagonista importa muito e só vamos entender essa mudança no futuro, como diz a música da dupla Chloe X Halle: “As crianças estão bem”.

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Formada em artes visuais e apaixonada por arte, música, livros e HQs. Atualmente pesquisa sobre mulheres negras no rock. Seu site é o Sopa Alternativa.
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