She-Ra e As Princesas do Poder: uma atualização bem-vinda e necessária

She-Ra e As Princesas do Poder: uma atualização bem-vinda e necessária

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Em novembro de 2018 a Netflix disponibilizou para o público a animação She-Ra e As Princesas do Poder (no original: She-Ra and the Princesses of Power). Feita em parceria com a DreamWorks Animation e dividida em treze capítulos de aproximadamente vinte de cinco minutos cada um, a primeira temporada possui seus méritos. Atenção: O texto a seguir contém pequenos spoilers.

Assim como na versão original, Adora faz parte do exército da Horda, um grupo militar que ao longo dos anos tem tentado expandir seus domínios sobre o planeta Ethéria. Criada e treinada desde criança pela misteriosa Sombria, acredita que os inimigos de Hordak, líder da Horda, são criminosos perigosos, sobretudo as Princesas do Poder e, por isso, precisam ser destruídos.

She-Ra

Um dia, junto com sua inseparável amiga Felina, entra escondida na Floresta do Sussurro e encontra uma espada misteriosa. A partir daí a energia mística contida na espada a chama e a seduz e, por meio da magia, a jovem se transforma na lendária She-Ra. Com o avançar dos episódios, Adora percebe que havia sido manipulada durante seu treinamento e unindo-se a dois dos líderes da força rebelde, Arqueiro e Cintilante, passa a combater os exércitos da Horda em busca de equilíbrio para Ethéria.

A valorização do trabalho em equipe é um dos pontos altos da série. Adora, Arqueiro e Cintilante não estão sozinhos. Outros se juntam a rebelião e She-Ra não é a única que precisa se sacrificar para defender o povo de Ethéria. A cada episódio, uma nova princesa é apresentada ao público.

She-Ra

Inicialmente, elas estão interessadas apenas em defender seu próprio reino, porém, a presença de She-Ra é inspiradora e, após um breve conflito com a Horda, cada uma aceita fazer parte da chamada Aliança da Princesa. Diferentemente do que comumente vemos em história com mulheres, as princesas não compete entre si, são parceiras. Quando um pedido de socorro é emitido, elas aparecem para ajudar, fugindo do estereótipo da fragilidade feminina.

Além disso, apesar das alegações de alguns fãs da primeira versão do desenho, dizendo que as personagens estão masculinas demais, podemos dizer que a forma como cada princesa foi desenhada também enriquece o trabalho como um todo. Seus biótipos são diferentes, algumas são mais magras, outras mais gordas, algumas são negras, outras são brancas e, justamente por isso, estão próximos do real, permitindo que a espectadora, no caso, a criança que assistir (afinal, a animação foi feita para elas) se reconheça. E, o melhor de tudo, as princesas são pessoas normais, nada estereotipadas. A gordinha não fica o tempo todo comendo, a magrinha não fica o tempo todo diante do espelho. Elas têm vida, personalidade e propósito. É algo bastante sutil, porém, tremendamente eficaz e belo.

Lamentável perceber que um dos pontos que melhora a produção é, justamente, criticado por alguns. Recentemente, um levantamento feito pelo site IMDb mostra que homens com idade acima dos trinta anos têm avaliado a animação de forma negativa, pois a caracterização física dos personagens, voltado para o público infanto-juvenil não está agradando. Os homens esperavam por algo mais sensual, semelhante ao que era exibido na série predecessora da atual. Se você faz parte do grupo dos que esperavam uma She-Ra sexy, lamentamos dizer, mas a animação não foi feita pensando em agradar o público adulto, sedento por conteúdo de cunho sexual. Ela foi feita e pensada para crianças. Ponto final.

Voltando a falar das sutilezas presentes no enredo, pois a temporada está cheia delas. Primeiramente, temos a questão da sensibilidade presente na solução de conflitos. A luta é sempre o último recurso. Adora não hesita ao erguer a espada, mas, antes de fazê-lo, ela tenta convencer seus adversários a mudar de lado, a desistir, a se entregar. A jovem She-Ra busca conhecer seus adversários, entretanto, sem a intenção de destruí-los. Ela quer, sobretudo, regenerá-los.

Mais um fato interessante, também abordado de forma sutil, diz respeito à fuga de uma abordagem maniqueísta. No roteiro, não veremos rebeldes completamente virtuosos ou membros da Horda absurdamente malignos. As motivações de cada elemento dos grupos variam e as escolhas de cada um elucida um fato simples, contudo, novo para as crianças pequenas: ninguém é perfeito, nem mesmo os heróis.

Outra questão relevante é a sutil introdução de elementos da cultura queer na narrativa. A orientação sexual dos personagens não é evidenciada, embora a amizade entre Adora e Felina muitas vezes pareça com um namoro e, também, o personagem Arqueiro dê a impressão de ser bissexual. Esse é um exemplo positivo de como o tema possa ser tratado para as crianças, com beleza e naturalidade, mostrando que diferentes formas de amar são válidas.

She-Ra

Além disso, a separação a história de She-Ra das aventuras de He-Man é outro ganho. Na versão original, Adora é apresentada como a irmã perdida de Adam e, infelizmente, nos anos 80, a série “She-Ra: Princesa do Poder” (1985) era apenas um derivado da série “He-Man e os Mestres do Universo” (1983). O segundo, mas não mesmo importante, diz respeito à introdução de personagens femininas fortes.

Entretanto, mesmo com tantos elogios a serem feitos, She-Ra e As Princesas do Poder tem seus problemas, como, por exemplo, a falta de aprofundamento no passado de Adora e na trajetória política da Horda e da Rebelião. Ainda assim, esperamos que uma nova temporada seja produzida. Afinal, para a construção de um mundo melhor é importante que as crianças aprendam a valorizar a amizade, a cooperação, a coragem e a fazer escolhas corretas.


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Nerd, pedagoga, escritora, leitora, gamer, integrante da casa de Lufa-lufa, amante de ficção científica (Star Trek, Star Wars e Doctor Who) e literatura fantástica. Deseja ardentemente que o outro lado da vida seja uma grande Biblioteca.
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