Comédias Românticas: onde elas foram parar?

Comédias Românticas: onde elas foram parar?

Deitada no sofá alternando entre banners de filmes, séries e shows na Netflix, sempre acabo voltando para checar se há algo de novo na categoria de Comédias Românticas. Conheço bem a reputação um tanto quanto controversa do gênero mas simplesmente não posso evitar, sou uma amante incorrigível das Comédias Românticas, não resisto a uma história de amor que possa me aquecer o coração.

Nos últimos tempos porém tenho observado que está cada vez mais difícil achar algo na categoria, só encontro filmes incríveis vistos e revistos milhões de vezes, ou opções com um qualidade claramente duvidosa. Abatida por tal estado de coisas, resolvi investigar os razões por trás da minha dificuldade. Onde foram parar as comédias românticas?

comédias românticas
“O Amor não Tira Férias” (Imagem: reprodução)

Durante os anos 1990 era comum as comédia românticas alcançarem performance acima da média na venda de ingressos. Nesta década foram lançados filmes como “Uma Linda Mulher” (1990), “Sintonia de Amor” (1993) e “O Casamento do Meu Melhor Amigo” (1997), todos figurando entre as dez maiores bilheterias dos seus respectivos anos. Estrelas como Julia Roberts, Hugh Grant e Robert Downey Jr., começaram suas carreiras no gênero e obtiveram enorme sucesso. Nos últimos dez anos, porém, houve uma drástica queda para o gênero. Em 2019, as Comédias Românticas representam uma fatia de mercado menor que 3% de todos os  ingressos de cinema vendidos.

O amor romântico 

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“Bonequinha de Luxo” (Imagem: reprodução)

Como qualquer outro gênero cinematográfico, a comédia romântica reflete o humor e os costumes de seu tempo. Como bem coloca Bill Johnson em the Art of the Romantic Comedy, é possível observar a mudança no papel social das mulheres e homens, e sua abordagem nos relacionamentos amorosos através da história. O autor elenca três pontos dramáticos comuns ao gênero:

  1. O amor verdadeiro existe;

  2. existe uma pessoa certa para cada um de nós e se formos capazes de encontrar essa pessoa, então poderemos experienciar o amor verdadeiro;

  3. o romance pode superar todos os obstáculos.

Objetivamente, não parece haver nada de errado com os pontos supracitados, e de modo geral os seres humanos esperam que o amor seja uma experiência essencialmente boa em suas vidas. É normal que as pessoas cultivem crenças sobre como os relacionamentos amoroso devem ser, mas é necessário salientar que tais crenças afetam diretamente a capacidade de engatar e manter um relacionamento saudável.

A mídia de massa tem papel considerável na formação dessas crenças, segundo um estudo conduzido por Julia R. Lippman, em 2014, após entrevistar 625 estudantes universitários sobre a influência da mídia nas crenças românticas dos indivíduos, 94% dos entrevistados afirmaram que procuravam exemplos de amor romântico na TV e nos filmes.

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“O Casamento do Meu Melhor Amigo” (Imagem: reprodução)

O retrato do amor irreal, no entanto, não é criação nem exclusividade do cinema e da TV. O conceito do amor romântico no ocidente remonta a uma época anterior a existência das comédias românticas e mesmo do cinema.  Ana Freitas, em um texto de 2016 publicado no Nexo, aponta que a ideia se originou no movimento do Romantismo deflagrado pelos ideais da Revolução Francesa.

O amor, o sexo, a felicidade e o casamento que antes eram instituições independentes, passaram a ser vistas como elementos intrínsecos. Daí surge a ideia do amor avassalador, reforçada na literatura por peças de Shakespeare como “Romeu e Julieta”, uma tragédia, mas também muito popular quando associado a comédia como em “Muito Barulho por Nada” ou “Sonhos de uma Noite de Verão”.

As comédias românticas na história do cinema

Screwball Comedy
Cena do filme “Aconteceu Naquela Noite” (1934), um dos filmes mais conhecidos do gênero Screwball Comedy, dirigido por Frank Capra, com Clark Gable Claudette Colbert no elenco. Imagem: divulgação

Tendo suas origens na literatura, a representação do romance no cinema veio tão cedo quanto se pode esperar e data do ano de 1896, tem aproximadamente 20 segundos e pode ser assistido na íntegra no Youtube,  “The May Irwin Kiss” foi o filme mais popular daquele ano. Logo o cinema se tornou uma potência como mídia de massa e teve papel fundamental no processo de idealização do amor entre homem e mulher no mundo ocidental. Histórias de amores trágicos como o de “E o vento levou” (1939) e “Casablanca” (1942), foram sucesso absoluto, mas também as comédias alcançaram grande sucesso; “Sherlock Jr.” (1924) e “Girl Shy” (1924) são os primeiros filmes classificados como comédias românticas.

Durante a Grande Depressão, evidenciando um cansaço e desdém da sociedade pela representação dos valores tradicionais, surgiram as Screwball Comedy, um subgênero da Comédia Romântica marcada principalmente por um grau de inversão no papel feminino. Nessas comédias muitas vezes a mulher era a figura dominante na relação, e até mesmo a heroína da história os principais filmes do gênero são “Aconteceu Naquela Noite” (1936), “Levada da Breca” (1938), “A Noiva era Dele” (1949). Katharine Hepburn, talvez a mais famosa atriz desse período, permanece ainda nos dias de hoje como um ícone feminista, uma mulher independente, impávida e espirituosa, dentro e fora das telas.

Katharine Hepburn (GIF: Giphy)

Com o fim das Comédias Screwball, as comédias românticas que enfatizavam as diferenças entre homens e mulheres e um final tradicionalmente feliz, tiveram seu lugar ao sol, principalmente sobre à luz do duro Código Hays, que censurava a exibição de cenas e temas considerados sensíveis aos valores e conservadores.

A revolução sexual dos anos 1960,  trouxe o que foi refletido no cinema. As comédias românticas da década de 1970 e 1980 passaram a ser mais abertas na discussão sobre o sexo, traziam também um certo cinismo sobre a real existência do amor, além de questionar o final feliz, geralmente, associado às comédias românticas tradicionais. Os principais expoentes desse período são “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977) e “Harry e Sally” (1989).

“Harry e Sally: feitos um para o outro” (Imagem: reprodução)

Nos anos 1990 houve uma espécie de retorno ao tradicional. O sexo ainda é retratado, mas de uma forma muito mais romântica e reservada. E no geral os casais sempre são capazes de superar os obstáculos e ter um final feliz. Após o final dos anos 1990, no entanto, essa fórmula tem entrado em colapso. Mesmo os sucessos de filmes como “Casamento Grego” (2002) e “Hitch: O Conselheiro Amoroso” (2005) não foram o suficiente para evitar a decadência e seu quase desaparecimento dos grandes circuitos comerciais nos dias atuais. Grandes estúdios não estão mais interessados em lançar Comédias Românticas de orçamento médio com grandes estrelas, devido ao grande risco de fracasso nas bilheterias.

A reinvenção das Comédias Românticas

“Juno” (Imagem: reprodução)

Agora, retornando a pergunta do início, as comédias românticas morreram, ou não temos mais interesses nelas? E a resposta deve ser: nenhum dos dois. Ao observar o percurso histórico do gênero no cinema percebemos que houve períodos cíclicos de transformação das relações entre homens e mulheres, alguns mais tradicionais, outros mais vanguardistas. Isso só é possível porque a relação entre a assimilação do entretenimento e as mudanças sociais e políticas são uma via de mão dupla.

Estamos vivendo em uma época que da expansão do empoderamento e representação das mulheres na sociedade como um todo, embora muito trabalho ainda tenha que ser feito, o público consumidor de mídia de massa mudou e perdeu o interesse em consumir peças de entretenimento que retratam de maneira limitada suas experiências.

Mas isso não significa que a Comédia Romântica morreu, apenas não é a mesma, como muito corretamente apontou Jen Chaney em artigo para o site The Vulture em 2017. Sucessos de filmes como “Juno” (2007), “500 Dias Com Ela” (2009), “Missão Madrinha de Casamento” (2011), “Doentes de Amor” (2017), revelam que o interesse ainda existe. Esses filmes se diferem dos hits tradicionais da década de 1990, porque refletem sobre os efeitos dessa longa exposição a histórias de amor povoadas com pessoas perfeitas e finais felizes, mostrando as dificuldades reais causadas pelas expectativas equivocadas de um relacionamento perfeito, e buscam um retrato um pouco mais honesto dos encontros e desencontros dos personagens.

“Descompensada” (Imagem: reprodução)

A Comédia Romântica (provavelmente) não morrerá, continuará em transformação na esteira da sociedade. O relacionamento amoroso é parte importante da vida dos seres humanos e um aspecto muito difícil de equacionar perante nossos medos e fragilidades. Não por acidentes este gênero perdura junto com o cinema a mais de 200 anos.

A expectativa é que para a nova onda de comédias românticas surjam cada vez mais obras que reflitam os percalços e pontos altos de se relacionar numa sociedade marcada pelo distanciamento e exposição, capazes de inspirar expectativas realistas e saudáveis em mulheres e homens. Contudo, da minha parte, continuarei uma amante incorrigível das comédias românticas.

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Bibliotecária, tão fã de filmes quanto dos dramas dos bastidores. Comédias românticas são seu ponto fraco, mas dá chance para filmes de quaisquer gêneros.
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