Por que “Black Sails” é uma das séries mais importantes dos últimos anos?

Por que “Black Sails” é uma das séries mais importantes dos últimos anos?

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Quando você pensa em piratas na cultura pop, logo vem a franquia “Piratas do Caribe” na cabeça? Se a resposta for sim, é porque você ainda não navegou nas águas sombrias de “Black Sails” e não descobriu um mundo muito mais complexo e intenso da pirataria. Acredite, os piratas têm muito mais para nos ensinar do que apenas lutas, poses e piadas ultrapassadas.

Primeiramente, “Black Sails” é uma série muito subestimada, porque as pessoas não esperam muito de uma história sobre piratas, além de efeitos visuais bonitos e tiros de canhão. Antes de começar a assistir, podemos até nutrir um certo preconceito. Pensamos que vamos assistir vários homens brancos em cenas de ações aleatórias falando qualquer bobagem. Como nos enganamos e como ficamos felizes por ter nos enganado!

Para começo de conversa, “Black Sails” possui MUITA representatividade, e quando usamos o caps lock no “muita” não estamos exagerando! Contudo, vamos com calma por aqui. Antes, vamos sobre o que é exatamente a série para quem nunca ouviu falar dela. Aliás, bom avisar: vamos evitar spoilers ao longo do texto, mas se decidirmos soltar alguma coisa, pode deixar que avisaremos antes!

Muito além de uma série de piratas!

Anne (Clara Paget)
Anne (Clara Paget) em “Black Sails” (Imagem: Starz/divulgação)

Bom, “Black Sails” conta a história dos grandes piratas (alguns deles realmente são figuras históricas) que botavam medo no Reino Unido do século 18. Na trama, eles estão atrás de um galeão espanhol recheado pelos mais preciosos tesouros. A série não possui um local fixo, mas boa parte dela se passa em Nassau, que hoje em dia é a capital das Bahamas e um belo ponto turístico. Se achou o plot familiar, é porque “Black Sails” é uma “prequel” do famoso livro “A Ilha do Tesouro“, escrito por Robert Louis Stevenson.

Belas batalhas entre navios, lindas tomadas aéreas, ótimos efeitos visuais, boa edição e mixagem de som, assim como uma excelente fotografia, são apenas algumas das qualidades técnicas da produção. Inclusive, “Black Sails” já venceu 3 Emmys, dois de Edição de Som e um de Efeitos Visuais.

Mesmo assim, os atributos estéticos da série estão longe de serem os motivos que fizeram com que eu me apaixonasse de verdade pela obra televisiva. O que foi então? O fato de ela ser genuína e honesta na hora de nos oferecer seus personagens tão imprevisíveis e suas tramas cheias de crueza e inteligência. Ainda duvida? Então, vem com a gente!

Representatividade feminina em Black Sails

Black Sails
Eleanor (Hannah New), Anne (Clara Paget) e Max (Jessica Parker Kennedy) em “Black Sails” (Imagem: Starz/divulgação)

O empoderamento feminino é algo que está muito em alta nas séries e filmes, o que é excelente. No entanto, isso abre portas para aquelas falsas representações empoderadas que tantas obras andam mostrando. Sabe aquela personagem que parece realmente poderosa e badass, mas quando você para e presta atenção de fato, percebe que suas ações são feitas para homens, influenciadas por homens e em uma trama focada em homens?

Em “Black Sails“, as mulheres estão longe de serem recursos de roteiro para os homens. Pelo contrário, elas possuem suas próprias tramas, seus próprios desejos e personalidades bem complexas. Além disso, elas têm interações umas com as outras (algo que parece ser muito complicado para algumas séries fazerem). Os roteiristas estão mais preocupados em mostrar personagens realistas e complicadas do que uma simples poderosona com carão e frases de efeitos.

Max (Jessica Parker Kennedy), Eleanor (Hannah New), Miranda (Louise Barnes), Anne (Clara Paget), Madi (Zethu Dlomo) e até Idelle (Lise Slabber) são personagens que ficam guardadas na sua cabeça, seja por motivos bons ou ruins. Cada uma possui suas qualidades e defeitos, seus vícios e virtudes. Ninguém é perfeito em “Black Sails” e isso é lindo. As personagens femininas têm uma voz alta e clara, sem medo de gritar na sua cara se precisarem. Aliás, em diversos momentos, vemos como são os homens que acabam inseridos nas narrativas das mulheres e não o contrário. “Black Sails” é realmente um prato cheio de surpresas.

Questões LGBTQ+

Black Sails
Max (Jessica Parker Kennedy) e Eleanor (Hannah New) em “Black Sails” (Imagem: Starz/divulgação)

Sim, você não leu errado. Essa subestimada série de piratas que possui personagens femininas maravilhosas, também arrasa na representação de personagens LGBTQ+! Você pode até pensar “mas como que eles conseguiram colocar esse assunto no meio da pirataria?”. Ora, pessoas LGBTQ+ estavam/estão/estarão incluídas em todos os aspectos da nossa sociedade, em todos os grupos, classes, profissões, religiões, países, contextos etc. A questão é que, em muitos desses casos, eles estão escondidos e são silenciados pela maioria. Afinal, ser homossexual já foi (e em alguns países ainda é) considerado crime! “Black Sails” toca nessa questão de forma esperta e sagaz.

O fato da série colocar personagens importantíssimos sendo LGBTQ+ é algo para aplaudir de pé, pois isso ainda é muito evitado dentro do mundo da televisão (ou serviços de streaming). Você pode até pensar “mentira, existem diversos personagens LGBTQ+ nas séries”. É verdade, existem (mesmo ainda não sendo uma quantidade justa). Entretanto, é raro encontrar um personagem central homossexual em uma série cujo tema principal não tenha nada a ver com a comunidade LGBTQ+. Geralmente, na maioria das séries, os personagens LGBTQ+ são apenas coadjuvantes – as de comédia que o digam – ou são protagonistas, mas estão inseridos em uma trama específica sobre sexualidade.

Em “Black Sails“, eles incluem essa questão de forma bem natural e orgânica – como deveria ser sempre. Eles não utilizam as lésbicas como fetiche e não se apoiam na homossexualidade para se aproveitarem de clichês. As personagens femininas que são lésbicas ou bissexuais não são tratadas como objetos sexuais para cenas eróticas. Elas amam, sofrem,  choram, sorriem e não são invisíveis. Os seus sentimentos são levados em conta e tratados com respeito.

Eleanor (Hannah New) e Max (Jessica Parker Kennedy)
Eleanor (Hannah New) e Max (Jessica Parker Kennedy) em “Black Sails” (GIF: reprodução)

[SPOILER DA SEGUNDA TEMPORADA A SEGUIR, PULE O PARÁGRAFO SE NÃO QUISER SABER]

O personagem que mais reflete essa coragem da série de tocar em temas ignorados por grandes produções é o Capitão Flint (Toby Stephens). “Black Sails” não possui apenas um personagem principal, mas se precisássemos escolher um, certamente seria o Capitão James Flint (ou McGraw). Afinal, toda a trama do tesouro começa com ele. O objetivo de Flint é pegar o tesouro e reconstruir Nassau na legalidade, para que a pirataria deixe de existir e a violência diminua. Essa ideia, no entanto, não vem dele, mas sim do Lord Thomas Hamilton (Rupert Penry-Jones). Quem é esse? Bom, em poucas palavras: o amor da vida do Flint. Sim, o corajoso, poderoso, complexo e misterioso Capitão Flint está apaixonado por um homem e é capaz de qualquer coisa para realizar os planos que eles tinham antes de serem separados pela sociedade “civilizada” a qual Flint tanto odeia.

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A escravidão pelo olhar dos negros

Madi (Zethu Dlomo)
Madi (Zethu Dlomo) em “Black Sails” (Imagem: Starz/divulgação)

Algumas séries adoram usar como desculpa o ambiente ou o universo no qual a trama está inserida para evitar a representatividade negra. “Nossa série não tem personagens negros porque eles não faziam parte daquele mundo” ou “não tinha como colocar personagens negros porque a história não permitia”. “Black Sails” poderia muito bem ter usado esse mesmo blá blá blá e mostrado apenas rapidamente algum navio negreiro passando por Nassau. Contudo, a série não cai na mesmice. Ela vai muito além!

Além de explorar com vontade e cuidado a complexidade de personagens negros, ela não tem aflição ao escancarar a realidade sofrida as quais os escravos passavam. Ela aponta mesmo o dedo e cutuca a ferida da sociedade inglesa branca. Mesmo assim, esses personagens não estão na obra apenas para sofrerem ou servirem de crítica. Eles têm a sua própria força e uma importância crucial no andamento da trama. É uma união de responsabilidade e criatividade.

Black Sails” mais uma vez segue o caminho mais difícil e mais corajoso, aquele que muitos produtores e criadores evitariam percorrer para não perderem audiência. Além disso, ela consegue dar destaque e poder às mulheres negras, o que é lindo de ver e infelizmente difícil de encontrar de forma genuína nas séries – felizmente, Shonda Rhimes e outros criadores estão mudando isso.

A ressignificação de “sociedade civilizada” em Black Sails

Woodes Rogers (Luke Roberts) em “Black Sails” (Imagem: Starz/divulgação)

Se a série toca em todos esses temas, não é porque quer dar bandeirada lacradora, mas sim porque essas pessoas existiram, existem e existirão. Talvez ninguém tenha pensado nisso antes, mas faz muito sentido dar protagonismo às minorias em uma série de piratas. Afinal, os piratas representam um grupo marginalizado pela tal “sociedade civilizada’”.

Você acha que bebês nascem saqueando, invadindo territórios e matando? [AVISO: spoilers da segunda temporada no resto do parágrafo] Flint e Billy (Tom Hopper) são dois ótimos exemplos de como a marginalização os transformou nos tão temidos inimigos da coroa. Flint servia ao seu rei de forma leal, seguia todas as regras e fazia tudo direito, mas quando sua sexualidade foi descoberta, ele foi considerado um pária e assim acabou sendo expulso da marinha e exilado. Os pais do Billy eram da oposição e foram mortos, deixando uma criança sozinha no mundo. Eles foram jogados nessa vida porque não estavam dentro do que a civilização julgava como certo. O mesmo acontecia com quem não conseguia ter o que comer devido ao pesado sistema.

Bem atual, não é mesmo? Um sistema violento pode gerar uma reação violenta. Mostrar a realidade das pessoas oprimidas e expor com toda crueza o quão erradas e hipócritas eram as atitudes da tal “civilização” (e como isso está tão perto da gente, em pleno 2019) foi inteligente, necessário e corajoso. Os piratas ainda existem.

Black Sails no respeito aos fãs

John Silver (Luke Arnold) e Capitão Flint (Toby Stephens) em “Black Sails” (Imagem: Starz/divulgação)
Recomendamos o podcast: [YINCAST] Black Sails

Se tem algo que nos tira do sério é quando os produtores subestimam os fãs. Tivemos um exemplo bem recente de como a arrogância estragou o que poderia ter sido um belo final para uma jornada épica (não vamos citar a série, mas começa com Game e termina com Thrones). O mesmo aconteceu com a quarta temporada de “Sherlock“, da BBC. Mark Gatiss e Steven Moffat (os criadores) acharam que estavam fazendo algo genial, quando na verdade fizeram uma bagunça nojenta. Não é à toa que a série teve sua pior audiência, péssimas críticas e está atualmente em um hiato sem previsão de retorno. Muito que bem feito!

Black Sails” faz o oposto disso. Eles entendem que os fãs são atentos e inteligentes, então não deixam pontas soltas e nem quebram as construções de personagem. Quando a série termina, você tem uma sensação de alívio e satisfação por eles terem feito tudo tão direitinho. É difícil ficar feliz com finais, pois nós sempre achamos que algo poderia ser melhor, mas com “Black Sails” não pensamos em nada melhor. O fim nos traz esse sentimento alegre – juntamente com a saudade de não poder mais ver esses personagens tão incríveis.

São quatro temporadas planejadas de forma deliciosa. Todas elas estão disponíveis na Netflix e esperando por você. Não precisa mais ficar sofrendo por séries ruins, vai ver “Black Sails” e ser feliz, criatura!


Edição realizada por Gabriela Prado.


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Autora

Redatora, editora e experiente na arte de se apegar a personagens fictícios. Participa do podcast Yincast do Universo Yin e está sempre pronta pra tacar a real sobre temas polêmicos e também abraçar a diversidade crescente no mundo pop.
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