“Pessoas Normais” e a capacidade de se comunicar com a nova geração

“Pessoas Normais” e a capacidade de se comunicar com a nova geração

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Sally Rooney nasceu na Irlanda, em 1991, e hoje é uma das autoras mais prestigiadas do país. Mencionada como a “Salinger para a geração Snapchat”, a autora nos apresenta em “Pessoas Normais“, publicado em 2019 pela editora Companhia das Letras, a relação conturbada e peculiar entre Marianne e Connell, durante o final do ensino médio e suas vivências na universidade.  

Após se consagrar como uma referência de autora milennial ou que agrade os milennials, muito a partir da publicação de seu primeiro romance, “Conversas entre amigos”, Rooney explora em “Pessoas Normais” uma história de amor que vai muito além do romance romântico. Sarcástico, com consciência de classe, abordando assuntos tão dolorosos e que são pouco falados, como o abuso familiar, problemas psicológicos, o machismo e a maternidade solo, a obra dá um novo ar para as velhas histórias românticas envolvendo adolescentes e adultos.  

Uma nova forma de fazer literatura jovem

A autora, consciente do momento em que vive e de seu papel na literatura jovem, mostra ao longo da história assuntos que, por muito tempo, foram considerados tabus nesse gênero. Antes, até mesmo em paralelo com a fórmula clássica dos filmes coming of age ou dos romances adolescentes, víamos como ponto central das histórias apenas a relação amorosa entre dois personagens. O grande clímax do filme girava em torno dos personagens permanecerem juntos (ou não) no final.

No entanto, em “Pessoas Normais” (e através de outros autores novos como a Rainbow Rowell) vemos que esses clichês que foram construídos tomam um outro caminho, uma nova forma de abordar os relacionamentos. O que é dito “comum” nessas narrativas é reformulado e reinventado. 

Dessa maneira, mesmo tratando de uma história dentro do ensino médio de uma maneira inicial, que parece tão lugar-comum de filmes e livros, Sally Rooney faz com que o leitor fique imerso na história e traz à tona a discussão de diversos temas complexos e essenciais.  

“Todos os colegas de Marianne parecem gostar muito da escola e achar isso normal. Usar o mesmo uniforme todo dia, acatar regras arbitrárias o tempo inteiro, ser examinados e monitorados em busca de mau comportamento, isso tudo é normal para eles. Não percebem a escola como um ambiente opressivo.
Marianne teve uma briga com o professor de história, o sr. Kerrigan, no ano anterior, porque ele a pegara olhando pela janela durante a aula, e ninguém da sala ficou do lado dela.
Para ela, parecia tão obviamente insano que precisasse vestir uma fantasia todas as manhãs e fosse arrebanhada dentro de um prédio enorme todos os dias, e que não tivesse permissão nem para desviar os olhos para onde quisessem (…).”

As Personas que criamos socialmente e como nosso psicológico é afetado

Através do comportamento de Connell, que a todo momento procura ser uma pessoa “boa” para com os outros e, principalmente, popular, a autora aborda essa falsa necessidade que sentimos de criar máscaras e verdadeiras personas para agradar a todos ao seu redor, muitas vezes adequando-as a cada momento em específico. Isso reflete diretamente como vivenciamos as redes sociais hoje, pois esse complexo se intensifica ainda mais. Para além disso, vemos que essa necessidade do personagem ser popular e estimado pelo corpo social, seja da escola ou seja da universidade, reflete muito uma condição de classe.

A família de Connell é pobre e possui diversos históricos de reputações ruins e problemas com a sociedade como um todo. Por isso, Connell sempre procura fugir desse estigma que carrega, seja tentando ser um astro dos esportes na escola, tirando notas boas, relacionando-se com pessoas de classes superiores economicamente. Ele, principalmente, tenta não se envolver com uma pessoa vista como “inferior” socialmente, como a Marianne na época da escola.

Sall Rooney
A autora Sally Rooney (Imagem: reprodução)
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Ademais, essa é uma escolha muito inteligente da autora, pois ao transicionar entre escola/faculdade vemos que esses papéis hierárquicos transformam-se. São tirados dos lugares. Marianne, agora, é tida como popular, estimada socialmente, enquanto Connell não. A mudança de seu papel o impacta profundamente, sobretudo na forma como ele se enxerga e lida com os seus sentimentos. Essa metamorfose ocorre em concomitância à mudanças sociais em suas vidas: há um processo de desenraizamento em relação ao interior/cidade grande e o local onde moravam/onde moram. Na história, há também outro ponto relevantíssimo: a abordagem de problemas psicológicos.

Por muito tempo, a situação de pessoas neuroatípicas era considerado como caso clínico de internamento e de afastamento da sociedade, inclusive refletindo-se em tratamentos manicomiais. Porém, com o passar dos anos e muito graças a forma como a internet aborda seus temas, tais problemas estão sendo cada vez mais tratados com a seriedade, apesar de ser uma evolução lenta e gradual. Isso se reflete em como a Sally Rooney aborda tais condições dentro da história, de uma maneira natural e, acima de tudo, séria, relevante, ainda mais quando pensamos em seu tratamento sobre o abuso familiar que Marianne sofre diariamente, e nas consequências que isso tem à seu psicológico e na sua personalidade. 

“Pessoas Normais” é um livro que vale a pena

A narrativa é construída predominantemente em forma de diálogos, o que faz com o que a obra seja fluida e leve. Portanto, é muito difícil alguém considerá-lo maçante ou até mesmo difícil de compreender. Dessa maneira, se torna mais compreensível entender os dilemas e impasses dos personagens que nos são apresentados. Além disso, “Pessoas Normais” traz alusões à história mundial, mencionando Edward Snowden e Gaza de uma maneira original e única, sempre permeando esses acontecimentos em conjunto a construção da identidade e dos relacionamentos dos personagens principais e secundários.

Acima de tudo, trata-se de um livro que vale a pena ser lido e até mesmo relido em outros momentos de sua vida. A relação do leitor com os personagens vai se transformando conforme sua vida também muda. Apesar de ser uma obra com um enredo relativamente simples, é relevante e importante, principalmente se você quer dar aquele presente maravilhoso para uma pessoa que gosta desse gênero. 

Foi mencionado anteriormente que Sally Rooney é reconhecida por muitos como “autora milennial”, entretanto, categorizá-la assim é bastante reducionista. Apesar de ser voltado ao público jovem, sua escrita toca em assuntos relevantes para todos os públicos. Isso torna a leitura imprescindível para os tempos atuais, principalmente para nós, brasileiras, que estamos passando por uma situação política e social conturbada e difícil.

Em “Pessoas Normais”, as reflexões que se passam dentro das mentes dos personagens são para além de intrigantes, pois mexem verdadeiramente com o leitor. Com temas como amor-próprio, bullying, suicídio, problemas psicológicos, Sally Rooney consegue transformar um gênero tão clichê em algo original.


Pessoas Normais

Sally Rooney

264 páginas

Companhia das Letras

Esse livro foi fornecido pela editora para resenha

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Edição por Isabelle Simões e revisão por Mariana Teixeira.


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Autora

Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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