Conversas entre amigos: a mulher nos relacionamentos modernos

Conversas entre amigos: a mulher nos relacionamentos modernos

“O que significa uma relação ‘dar certo’?”. Em torno dessa pergunta gira o enredo da obra de estreia de Sally Rooney. A escritora irlandesa desconstrói em Conversas Entre Amigos a ideia dos relacionamentos na era capitalista. Constrói, em seu romance, uma discussão sobre a heteronormatividade e a monogamia. E, acima de tudo, disseca relacionamentos de paixão e amizade em um livro comparado à tetralogia napolitana de Elena Ferrante.

Frances e Bobbi possuem apenas vinte e um anos e carregam consigo todas as dúvidas e pretensões de uma juventude rebelde. Em sua roda de amigos proferem palavras contra o capitalismo e os padrões sociais. Ignoram, contudo, o quanto estão inseridas no sistema de que tentam fugir. Bobbi, por exemplo, apesar de sua irreverência, vive do dinheiro de seus ricos pais. Frances, por sua vez, apesar de não proveniente de uma família abastada, manifesta sempre o desejo de possuir aquilo que não lhe foi oferecido pela vida.

Homoafetividade e amizade: os relacionamentos na atualidade

As duas amigas se conheceram durante o ensino médio, período no qual mantiveram um namoro. Mesmo após Bobbi ter encerrado o relacionamento, elas mantiveram sua amizade. E anos depois, apresentam-se juntas por Dublin, recitando os poemas escritos por Frances. É durante uma de suas apresentações que elas conhecem Melissa.

Aos 37 anos, Melissa é uma fotógrafa e jornalista bem sucedida. Possui uma casa linda – o que, claro, contraria os ideais comunistas da protagonista Frances. Reúne-se com indivíduos diversos de uma elite cultural de Dublin. Aceita a sua sexualidade sem, aparentemente, se limitar a padrões. E, por fim, exibe de troféu, o lindo, porém mal sucedido ator, Nick. Tudo isso contribui para o leve incômodo manifestado por Frances. Talvez o problema seja a ameaça de dividir Bobbi, que constantemente flerta com Melissa. Talvez seja o romance que inicia com Nick. Ou talvez Frances veja em Melissa tudo o que desejava possuir.

Sally Ronney constrói, aos poucos, os rumos da interação entre esses quatro indivíduos. Coloca em sua narrativa a restrição da liberdade da imposição monogâmica, mas também aborda os sentimentos envolvidos nesses relacionamentos, vivenciados por pessoas inseridas num modelo. Afinal, embora seja uma crítica às imposições da sociedade, é a protagonista Frances também integrante de um modelo. Existe a possibilidade de romper integralmente com as imposições culturais absorvidas por toda uma vida?

A desconstrução das aparências no mundo da perfeição

Apesar de ser narrado por Frances, é possível perceber as nuances na personalidade dos principais personagens. As barreiras da aparência são rompidas na medida em que os relacionamentos são aprofundados, sobretudo o relacionamento extraconjugal de Nick e Frances, o qual desencadeia reações diversas em todos os afetados.

Em um primeiro momento todos os personagens, com exceção de Frances, parecem em equilíbrio. Bobbi é a extrovertida, o suporte às fraquezas de Frances. Melissa é o modelo de mulher que Frances deseja ser. E Nick é o homem aparentemente fiel, bonito, que não se importa com a força de sua mulher.

Na medida em que o relacionamento de Frances e Nick se aprofunda, as perfeições desaparecem. Bobbi não é tão certa quanto gosta de aparentar, e também tem seus defeitos. Como todo ser humano, ela se prova capaz de machucar propositalmente, de apontar as imperfeições alheias para ocultar as próprias. Melissa vive uma vida de fachadas. Sua força é determinada pelo fraqueza de Nick, em uma codependência difícil de ser rompida. E a beleza de Nick esconde não apenas as doenças psicológicas que ele enfrenta, mas também as atitudes machistas que mesmo homens supostamente desconstruídos parecem não perceber.

Conversas entre amigos (resenha)

Submissão, silenciamento e a despersonalização da mulher

Frances não está mais perto da plenitude do que eles. A todo instante é assombrada pelo medo de descobrir quem é no mundo. A ausência de uma personalidade marcante coloca em cheque a sua própria existência. Em um mundo dominado por padrões, ser apenas você pode significar não ser nada. E as dúvidas se intensificam quando se é mulher.

“Bobbi disse que não achava que eu tinha uma ‘personalidade verdadeira’, mas declarou que não se tratava de um elogio. De modo geral, eu concorava com a avaliação. A qualquer instante sentia que poderia fazer ou dizer qualquer coisa, e só depois pensar: ah, então sou esse tipo de pessoa”.

No sociedade dominada por estereótipos, é preciso anular-se para se enquadrar. No caso das mulheres, é preciso anular-se para atender às expectativas impostas. Muitas vezes, também para sobreviver. Durante anos, Frances apagou sua personalidade para suportar o alcoolismo do pai e a conivência da mãe. O silêncio experimentado por si e pelo exemplo da mãe culminaram em uma dificuldade para revelar sentimentos e se manifestar.

O papel da mulher na sociedade contemporânea

O sentimento de inexistência é agravado pelo contraste com Melissa e Bobbi. Enquanto Frances permanece ausente, Bobbi e Melissa se expandem. Preenchem o que Frances considera um ideal de ser mulher, sem considerar os problemas individuais das personagens. Ambas são extrovertidas, aparentemente seguras de sua sexualidade e indiferentes às críticas. E é assim que Frances deseja ser.

Apesar de Frances apoiar as ideias feministas, não consegue se enxergar em um patamar de mulher dotada de personalidade. Não contribui para seu quadro o relacionamento com Nick, em que assume o papel da “outra”. Racionalmente, Frances sabe o que está errado na relação. Ela tem 21 anos; ele tem 32. Todos apontam o fato de ele ser mais velho e não dever flertar com ela, principalmente por ser casado. Mas Frances sabe disso e nem deseja que ele se divorcie. No fundo, ela deseja vivenciar o que acha que Melissa vivenciava, preenchendo o vazio com sentimentos que nem ela sabe definir – e sem perceber que se afunda em contradições com o que defende.

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Mas é preciso definir? Existe a possibilidade de que o papel da “outra” seja apenas uma dos vários estereótipos impostos socialmente. Em um mundo ideal, Frances não precisaria se definir hétero, homo ou bissexual, nem se adequar à ordem econômica capitalista. Em um mundo ideal, não precisaria justificar a sua escolha de manter relações com um homem casado. E nem Melissa precisaria justificar os casos que mantém ou a aceitação do caso de Nick. Afinal, a monogamia também é uma imposição. E pode ser que um caso extraconjugal, nesse mundo, não fosse tão carregado de um caráter machista. O problema é que esse mundo ainda não existe.

A figura feminina nos rumos da desconstrução

Conversas Entre Amigos é como uma conversa sobre todos esses aspectos, além de também abordar as consequências psicológicas e físicas do mundo em desconstrução – entre elas, doenças que afetam as mulheres, como a endometriose. É preciso ter consciência de que romper com as imposições intrínsecas não é fácil. O questionamento de um cenário implica o questionamento de si dentro desse cenário. E quando se rompe internamente com barreiras externas, sem romper totalmente as barreiras externas, é preciso lidar com as consequências – psicológicas e físicas – que isso pode gerar.

Como em uma conversa, o livro não apresenta respostas. Apresenta problemas e questionamentos que precisam ser discutidos. Homoafetividade, monogamia, assédio, doenças no sistema reprodutivo feminino, entre tantos outros. E, principalmente, a posição das mulheres em mundo em desconstrução.

“[…] o reconhecimento também pareceu fazer parte da apresentação em si, a melhor parte, e a mais pura expressão do que eu estava tentando fazer, que era me transformar nesse tipo de pessoa: alguém digna de elogios, digna de amor”.


Conversas entre amigos

Sally Rooney

264 páginas

Editora Alfaguara

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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