[LIVROS] A Estrada Verde: O padecer da maternidade está longe de ser um paraíso (Resenha)

[LIVROS] A Estrada Verde: O padecer da maternidade está longe de ser um paraíso (Resenha)

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Qualquer um que tenha crescido em uma família numerosa vai ser capaz de se identificar com os irmãos Madigan e sua controversa mãe Rosaleen na obra A Estrada Verde. A autora irlandesa Anne Enright, vencedora do Prêmio Rooney, Prêmio Man Booker, finalista do Prêmio Irish Times/Aer Lingus Irish Literature, e vencedora do Prêmio The Royal Society of Authors Encore nos leva para a casa dessa conturbada família e também para a nossa. Contando com maestria uma história, dessas que engasgam um pouco na alma, capaz de criar reflexões profundas abusando apenas da simplicidade de palavras.

Sinopse: Irlanda, 1980. Quando Dan anuncia que pretende ser padre, a jovem Hanna assiste a agonia de sua mãe. Nos anos seguintes, todos os filhos da família Madigan vão deixar a casa da matriarca Rosaleen. Dan parte para o frenesi de Nova York, e precisa lidar com o fantasma da Aids. Constance se vê em um hospital em Limerick, com uma possível tragédia de grandes proporções. Emmet percorre o continente africano e encontra o amor em Mali. E Hanna atravessa o cotidiano da maternidade na moderna Dublin. Quando eles se reúnem para o Natal, segredos e conflitos do passado virão à tona, e toda família precisará encontrar seu caminho de volta para casa. Um livro profundamente impactante sobre laços familiares, A estrada verde é Anne Enright em sua melhor forma.

Quando conhecemos a todos no início de A Estrada Verde através dos olhos de Hanna, temos um vislumbre da infância dos irmãos. Através dos olhos da filha caçula criamos uma percepção otimista e talvez irreal sobre a personalidade e os problemas que já permeiam o convívio da família. Deixando no ar apenas uma pista de como as coisas irão se desenrolar no futuro.

A escrita de Enright é quase visceral, deixando que o texto e os ambientes falem mais sobre seus personagens do que eles mesmos em seus diálogos. Conseguimos conhecer de forma profunda e objetiva a psiquê dos irmãos Madigan e sua mãe Rosaleen e torcer para que no fim das contas todos se resolvam de alguma forma.

A Estrada Verde é um romance que também proporciona reflexões importantes sobre o papel da mulher enquanto mãe. Enright nos coloca ora contra ela, ora contra os filhos, no que parece um debate sobre até onde a mulher que nos gerou é capaz de moldar a pessoas que somos, mesmo que esteja a centenas de quilômetros de distância. Rosaleen não esconde seu descontentamento com o destino dos filhos, o que por sua vez os afasta cada vez mais dela ao longo dos anos. Quando enfim consegue juntá-los sob um mesmo teto novamente, já é uma senhora de setenta e seis anos.

A Estrada Verde

Enright se aventura pelos desafios diários da maternidade, quase que discretamente, e principalmente, sem floreios. Enquanto Hanna vive uma gravidez não desejada em meio a um casamento conturbado, problemas pessoais e uma carreira frustrada, a filha mais velha Constance já é mãe de filhos crescidos e vive num intenso corre corre em função deles e de seu marido. Preocupada com todos, menos consigo mesma, é forçada a parar e reavaliar sua vida quando descobre um pequeno nódulo no seio. Enquanto isso, o ponto chave da luta de Dan e Emmet está em aceitar o amor que eles mesmos sentem por seus parceiros e por sua mãe para poderem seguir em frente com suas vidas.

Este trecho particularmente interessante ilustra bem o rítimo da escrita de Enright e nos monstra um pouco da rotina e os problemas da filha caçula Hanna:

“E Hanna – é claro! – correu de um lado para o outro fazendo um milhão de coisas pelo bebê: chupeta, colherinhas, cobertas, livros, paracetamol, lenços umedecidos, meias, reservas de tudo, chapéu reserva, creme de lanolina, creme sem lanolina, porque Hanna amava o bebê. Amava, amava, amava. Cuidava, cuidava, cuidava. Se preocupava e se martirizava e era encarregada do bebê. Porque, ah, se o bebê perdesse a chupeta, se o bebê perdesse o chapéu reserva, um buraco se abriria no universo e Hanna cairia no buraco e se perderia para sempre. (…) empurrando o carrinho sob o sol, achava que poderiam todos coexistir, Hanna e o chapéu reserva e o chapéu perdido, e o bebê, que olhava para ela, e também o buraco no universo. Poderia mantê-los todos em cantos diferentes da cabeça, e a tensão entre eles agradável. Poderia fazer tudo isso cantar.”

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Com as festas de fim de ano se aproximando e inevitavelmente intensas reuniões familiares a caminho, ler A Estrada Verde pode se tornar uma experiência muito enriquecedora. Quando finalmente chegamos ao fim desta trama familiar somos deixados com com várias perguntas e talvez uma única certeza, a importância que nossos entes queridos têm em nossas vidas. Nunca é tarde demais para reavivar laços esquecidos e aprender a perdoar as falhas daqueles que amamos.


A Estrada VerdeA Estrada Verde

Autora: Anne Enright 

Editora Alfaguara

272 páginas

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Autora

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Estudante de Administração, cozinheira e confeiteira, que nas horas vagas ainda encontra um tempo pra se dedicar à escrita. Ama frio, livros de ficção, bons vinhos, bons restaurantes e filmes de época. Sonha em se tornar uma autora publicada e conhecer os quatro cantos do mundo.
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