Mindhunter: o mundo definitivamente não é um lugar seguro para mulheres

Mindhunter: o mundo definitivamente não é um lugar seguro para mulheres

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Mindhunter é um livro assustador e brutal, e os casos abordados na obra podem assombrar sua mente por semanas. Portanto, antes de começar a nossa resenha, fica um importante aviso de gatilho: a obra trata de assassinato, estupro, abuso, violência e contém descrições detalhadas de crimes reais.

Em Mindhunter conhecemos a vida e o trabalho de John Douglas, “fundador e chefe da Unidade de Apoio Investigativo do FBI, criada em 1980”, segundo informações da orelha do livro – que ainda informa que John Douglas “é autor de diversos livros sobre a mente de assassinos em série e sobre os procedimentos de análise de perfis de criminosos”.

Recentemente o agente ficou conhecido por ser a pessoa que inspirou a série produzida pela Netflix que leva o mesmo nome do livro e que resenhamos AQUI. O livro foi escrito com o apoio de Mark Olshaker, escritor, roteirista e produtor que ganhou um Oscar pelo documentário “Roman City”.

AVISO: Se você já viu a série Mindhunter, não encontrará muitos spoilers nesta resenha. Mas caso desconheça a adaptação, fica o aviso: spoilers abaixo!

Mindhunter pode ser dividido em duas partes. Na primeira parte, que tem pouco mais de 100 páginas, conhecemos John Douglas, de sua infância até a entrada no FBI. O tom autobiográfico desta parte pode ser um tanto quanto enfadonho para algumas leitoras; afinal não se trata de uma celebridade ou algo do tipo e, portanto, a leitura pode causar certo desinteresse. Some-se a isso a falta de modéstia e uma certa prepotência por parte do autor, e fica mais desinteressante ainda. Mas esta parte tem sua importância: ao falar de sua vida, o autor contextualiza a época: entendemos que na época o racismo e o machismo, além da ignorância e preconceito contra a psicologia eram coisas comuns (e não mudou muito,né?). Conhecemos também o ambiente político e cultural dos Estados Unidos, além da história do FBI.

Então Douglas entra no FBI e a leitura ganha novo fôlego. Ao começar a aplicar psicologia e a estudar casos de assassinatos com esse embasamento, ele consegue dissecar a mente de criminosos: seus motivos, seus traumas e tudo o mais. Além de analisar casos específicos, ele passa a entrevistar diversos assassinos de massa e assassinos em série, como parte de suas pesquisas.

Grande parte dessas entrevistas constam no livro e permitem uma melhor compreensão do que motivou diversas atrocidades. Coisas que hoje parecem até óbvias quando falamos desses assassinos foram descobertas por John Douglas, como a constatação de que assassinos em série, quando crianças, urinam na cama, ateiam fogo a coisas e machucam animais; ou algo que o trecho abaixo mostra bem:

“Descobrimos que as três motivações mais recorrentes de estupradores e assassinos em série eram dominação, manipulação e controle.”

No mesmo parágrafo, o autor vai além e toca em um ponto polêmico e que pode justificar, pelo menos em parte, a violência institucionalizada praticada pela polícia militar: “Se considerarmos que a maioria desses caras são inúteis e fracassados raivosos que se sentem prejudicados na vida, e que a maioria deles sofreu algum abuso físico ou emocional […], não é de surpreender que uma de suas principais aspirações fantasiosas seja se tornar policial (p. 110).”

Mesclando teorias com as entrevistas e com casos investigados, o autor nos apresenta à ciência da vitimologia, com ênfase em seu campo de atuação, que é a psicologia. O senso comum diz que quem comete assassinatos em série ou em massa é uma pessoa doente, um pária. Mas vemos que isso não é verdade. Em talvez o que seja o caso mais famoso abordado, o de Ed Kemper, um gigante que matava e estuprava jovens mulheres e que tinha um QI de gênio, isso fica explícito.

Kemper era uma pessoa tida como normal, um gigante gentil e tímido. Muitos de seus amigos eram policiais. Ele oferecia caronas a jovens universitárias e as matava. Após matar a mãe, decepá-la e fazer coisas que preferimos nem comentar aqui, ele se entregou para a polícia. Ao ligar e confessar os crimes, os policiais chegaram a pensar que se tratava de uma brincadeira. 

Sua história é uma tragédia só: filho de pais separados, a mãe era uma alcoólatra abusiva e controladora. Ela chegou a manter Kemper trancado no porão por várias horas por dia, com medo de que ele abusasse da irmã. Logo, ela o mandou morar com os avós em uma fazenda. Kemper matou os dois – isso aos 15 anos. Anos depois, após diversas sessões com psiquiatras, ele foi considerado uma pessoa normal e teve os antigos registros criminosos apagados. Um detalhe mórbido: na última sessão com o médico, quando recebeu alta, ele guardava a cabeça de uma das vítimas dentro do carro. Coisas assim provavam, por exemplo, que um criminoso inteligente poderia enganar um polígrafo (detector de mentiras), assim como se livrar de interrogatórios e se passar por uma cidadão de bem,  acima de qualquer suspeita.

Ainda sobre Kemper: ao ser entrevistado, ele mostrou ter plena consciência de todos os seus crimes. Quando perguntado sobre qual a pena achava justa, respondeu “morte por tortura”. Ele também alegou que, se tivesse tido uma mãe amorosa, sua vida teria sido totalmente diferente (para quem quiser saber mais, é possível encontrar entrevistas com ele no youtube). 

Douglas entendeu os motivos e mecanismos psicológicos motivacionais dos criminosos, reconheceu padrões e rotinas, assim como brechas para que se revelasse a verdadeira identidade desses sujeitos. Ele chega comentar que não tem problema algum em falar sobre isso em um livro, pois mesmo que algum assassino lesse e estudasse para tentar se safar, ele não conseguiria de afastar totalmente de quem realmente se tornou.

Por um lado, a leitura se torna quase prazerosa, pois acompanhamos o agente e seus colegas de trabalho em verdadeiras caçadas a assassinos, ao mesmo tempo em que conhecemos os motivos e padrões comportamentais. Há certas passagens dignas de contos de Sherlock Holmes, como quando Douglas diz, após analisar alguns crimes, que a pessoa que procuravam tinha um problema de fala. Daí ele explica como chegou a essa conclusão. A leitura, portanto, se torna viciante e mal conseguimos parar até o fim.

Por outro lado, as descrições detalhadas de crimes, principalmente do estado das vítimas, deixa qualquer pessoa normal com embrulhos no estômago. Ainda pior: praticamente todas as vítimas são mulheres e muitas são crianças. Douglas descreve graficamente estupros, mutilações genitais, atos de necrofilia, tortura e chega ao ponto de detalhar a importância de se analisar o fato do assassino ter ejaculado na vítima (e se ejaculou, em que local, de que modo, antes ou depois de morta). Essas descrições ficarão semanas em sua mente e, após a leitura, você se pegará pensando nas vítimas ao longo dos dias e se sentindo extremamente mal. Não é um livro indicado para qualquer pessoa.

John chega a comentar dois fatos interessantes a respeito dessa mórbida rotina de trabalho. Ao conviver por 25 anos com esse tipo de coisa, ele se tornou distante e frio em qualquer tipo de relacionamento, inclusive com a família. Quando chegava em casa, por exemplo, e tinha algum problema doméstico ou com as filhas para ser resolvido, ele não se importava. Pois sua cabeça estava sempre nas vítimas que sofreram tamanhas atrocidades e nos assassinos que ainda estavam soltos.

Imaginem viver 25 anos lidando com esse tipo de coisa, visitando cenas de crimes, examinando corpos, fotos e vídeos (ele chegou a lidar com cerca de 150 casos ao mesmo tempo). É impossível que algo assim não cause impacto na vida comum. Outra passagem interessante é quando o ator Scott Glenn, que interpretou Jack Crawford em “O Silêncio dos Inocentes” (obra baseada, em partes, na vida de John Douglas), foi ao escritório do FBI conhecer o agente:

“Glenn era um cara bem liberal, que tinha sentimentos bem fortes a respeito da reabilitação, da redenção e da bondade fundamental das pessoas. Mostrei para ele algumas fotos horripilantes com as quais trabalhamos todos os dias. Apresentei para ele gravações feitas por assassinos enquanto torturavam suas vítimas. Forcei-o a escutar uma gravação de duas adolescentes de Los Angeles sendo torturadas até a morte nos fundos de uma van por dois assassinos que matavam para sentir adrenalina e que tinham acabado de ser soltos da prisão. Glenn chorou ao ouvir os áudios. “Eu não tinha a menor ideia de que havia pessoas por aí capazes de fazer algo assim”, disse ele. Pai inteligente e carinhoso e pai de duas meninas, Glenn afirmou que, depois de ouvir as gravações em meu escritório, não era mais capaz de se opor à pena de morte.” (p.173)

John Douglas pode ser caracterizado como um liberal progressista. Ao longo da obra, por exemplo, ele critica o FBI, pois durante muitas décadas o Bureau não admitia negros e nem mulheres. No entanto, ele é rigoroso ao afirmar, após quase três décadas de árduo trabalho: não existe recuperação para assassinos violentos, ou mesmo assassinos de ocasião (falaremos sobre essa diferença adiante).

A solução seria prevenir os crimes. Mas nem isso não é tão simples, mesmo se tendo um perfil em mente. Talvez o exemplo que mais ilustre este impasse é o de um diretor de uma escola de ensino primário que levava, diariamente, crianças para sua sala e uma vez com elas, tirava seus sapatos e meias, aplicava cócegas em seus pés e depois lhes dava alguma moeda. A situação incomodou o corpo docente e alguns pais, que achavam a atitude muito errada e perigosa. Douglas chegou a analisar o fato, mas não havia crime nenhum ali.

O homem era um ótimo profissional, casado e sem passagens pela polícia. Ele ainda admitia as cócegas e dizia que não havia nenhuma segunda intenção no ato e que, portanto, não iria parar. Após algum tempo o diretor acabou sendo expulso. É óbvio que o homem sentia prazer ao fazer cócegas em pés de crianças, mas como ter a absoluta certeza , inclusive perante a Lei, de que um caso assim acabaria progredindo para um caso de abuso sexual infantil? Por outro lado, sujeitos propensos a se tornarem verdadeiros sociopatas e psicopatas criminosos, ao serem educados em uma família funcional e amorosa, teriam uma grande chance de se tornar cidadãos funcionais, justos e exemplares. Nada é tão simples.

Após a leitura é possível constatar algumas constantes em relação aos assassinos: são homens majoritariamente brancos e que sofreram abusos físicos e psicológicos na infância, principalmente por parte da mãe. E as vítimas são, praticamente, somente mulheres. Douglas deixa, inclusive um questionamento: se mulheres são as que mais sofrem com abusos na infância e também ao longo da vida, por que não temos milhares de mulheres assassinas em série? Várias teorias tentaram explicar isso ao longo dos anos: seria a testosterona, a cultura? É um tema que ainda não foi esgotado por profissionais que o estudam há décadas e, portanto, preferimos não emitir nenhum tipo de opinião nesse aspecto. Mas podemos ter uma ideia…

É claro que existem assassinos em série negros. Talvez o principal caso seja o do dissimulado Wayne D. Williams, matador de crianças de Atlanta. No entanto, ao investigar crimes, muitas vezes o agente tinha que passar acima de preconceitos raciais por parte da polícia.

Sobre isso, um caso interessante: uma jovem professora foi brutalmente morta no terraço de seu prédio. Ela foi espancada enquanto descia as escadas para trabalhar pela manhã, então levada até o terraço. Este é, talvez, o assassinato mais horrendo de todo o livro e evitaremos qualquer detalhe a mais aqui. Quando o corpo foi levado e analisado, descobriram um fio de cabelo crespo, que provavelmente seria de uma pessoa negra, colado ao corpo. Como o prédio em que a professora morava era habitado, em sua grande maioria, por negros e latinos, esses se tornaram os principais suspeitos.

O agente recusou essa ideia pois, após investigar o crime, constatou que seria alguém com problemas mentais e que provavelmente teria saído recentemente de um sanatório, estava desempregado e que vivia com algum parente mais velho. Dito e feito. Encontraram o culpado, um dos poucos moradores brancos e que se encaixava na descrição. Quanto ao fio de cabelo? Descobriram que o saco utilizado para carregar o corpo fora utilizado para carregar o corpo de um homem negro antes e que não havia sido devidamente lavado.

Outro caso que marca muito é o do assassinato da jovem Shari Faye Smith. O assassino, após raptar a criança, ligava constantemente para a casa da família, ameaçando e deixando mensagens (na época os mecanismos de rastreamento ainda eram um tanto quanto ineficazes). Após algumas semanas a família recebe então uma carta de adeus escrita pela menina. Semanas depois, o assassino liga e diz onde ela está. Encontram, então, o corpo já em decomposição avançada. O homem provavelmente tinha a matado logo após o sequestro, mas iludiu a família por semanas com a esperança de que ela ainda estivesse viva. A parte mais pesada, cruel e desumana desse caso é que a carta escrita pela menina foi publicada no livro, na íntegra. É algo capaz de nos fazer perder completamente a fé na humanidade e do qual não nos recuperamos com facilidade.

Mindhunter

Os dois casos acima ilustram duas condutas diferentes. No primeiro caso, o da professora morta enquanto se dirigia ao trabalho, foi um crime de ocasião. O homem não programou o crime; ele simplesmente cruzou com a jovem na escadaria do prédio e aproveitou a oportunidade. Já no segundo caso, o assassino se preparou friamente para a ocasião, depois continuou agindo de maneira cruel, calculada, desumana e fria.

Ainda sobre assassinatos, o FBI caracteriza as vítimas e locais como sendo de alto risco ou de baixo risco e, a partir disso, já é possível ter uma ideia da identidade e do tipo de assassino. Uma criança voltando da escola em uma região movimentada, por exemplo, é uma vítima de baixo risco em um local de baixo risco. Já uma prostituta que trabalha durante as noites em um local distante e inóspito, é uma vítima de alto risco em um local de alto risco.

Em Mindhunter também entendemos que muitos assassinos tentam despersonalizar as vítimas, tirar delas qualquer traço de humanidade e, principalmente, de feminilidade. Por isso, mutilações genitais e faciais são comuns em muitos dos casos abordados. Não basta torturar, estuprar e matar. É necessário destruir quaisquer aspectos físicos do ser feminino.

Há sempre um debate sobre esses tipos de assassinos. A pessoa nasceu assim? Ela se tornou assim? Como surge um assassino em série? Destacamos, sobre isso, as palavras do próprio autor:

“Durante todos os meus anos de pesquisa, lidando com criminosos violentos, nunca me deparei com um que tivesse o que eu consideraria um histórico bom e uma família funcional e solidária. Acredito que a maioria dos criminosos violentos é responsável  por seus atos, pelas escolhas que fez, e deve encarar as consequências […]. Mas 25 anos de observação também me provaram que criminosos são mais “criados” do que “nascidos assim”, o que significa quem em algum momento da vida, alguém que exerceu uma influência negativa muito forte poderia ter exercido uma influência positiva muito forte. Portanto, o que acredito de verdade é que, além de mais dinheiro, policiamento e presídios, o que mais precisamos é de amor. Não estou sendo simplista; isso faz parte do cerne das questão.” (p.372)

Mindhunter é um livro visceral, repleto de crueldade e – o pior de tudo – completamente real. Ao terminarmos a leitura, fica difícil andar com tranquilidade nas ruas – nós, que já nunca andamos com tranquilidade em momento algum. Mindhunter prova que o mundo não é, definitivamente, um lugar seguro para as mulheres. Afinal, como viver sabendo que qualquer um pode ser um assassino, sabendo que a vida pode acabar ao aceitar uma carona de um conhecido, ao voltar caminhando do trabalho, ao fazer uma inocente corrida matinal ou algo do tipo? Algumas leitoras podem pensar: “qual a necessidade de um livro assim?” Finalizamos, portanto, com as palavras do próprio autor:

“O dragão nem sempre vence e estamos fazendo o possível para que vença cada vez menos. Mas o mal que ele representa – a coisa contra a qual lutei durante toda a minha carreira – não vai embora, e alguém precisa contar a história real.” (p. 373)

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MindhunterMindhunter

Autores: John Douglas e Olshaker Mark 

Editora Intrínseca

384 páginas

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Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
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