Mindhunter: mais do que “só mais uma série sobre serial killers”

Mindhunter: mais do que “só mais uma série sobre serial killers”

Mindhunter (2017), criada por Joe Penhall e dirigida alternadamente por David Fincher, Andrew Douglas, Asif Kapadia e Tobias Lindholm, é muito mais que apenas mais uma série sobre serial killers. Ambientada na década de 70, a história acompanha o jovem agente do FBI, Holden Ford, na sua saga por respostas a perguntas que até então sequer eram feitas dentro da polícia: como entender a mente de um “louco”? Em outras palavras, qual a lógica por trás de crimes “sem sentido” e que não seguem as motivações tradicionais e facilmente dedutíveis por fatos e provas?

Baseada em fatos reais, Mindhunter mostra o começo da inserção da psicologia e das pesquisas comportamentais relacionadas à crimes em série que envolviam indivíduos com comportamentos “desviados” ou “perturbados”, e que na sua maioria a violência estava atrelada a questões sexuais.

A filosofia, a psicologia e a sociologia, da perspectiva acadêmica, já vinham há algum tempo desenvolvendo suas teorias a respeito da criminalidade, a loucura e o lugar da sociedade e das instituições no meio disso tudo, mas infelizmente as instituições, mais especificamente a polícia, demoraram para implementar alguns desses pensamentos nas suas práticas, quanto mais desenvolver seus próprios estudos.

É aí que entra a equipe de Holden Ford (Jonathan Groff), Bill Tench (Holt McCallany) e a Dra. Wendy Carr (Anna Torv), ou na vida real, John Douglas, Robert Ressler e Dra. Ann Burgess. Juntos eles irão conduzir, dentro do FBI em Quantico, a pesquisa que busca encontrar padrões comportamentais nesses indivíduos, a partir de entrevistas com condenados a equipe conseguiu criar uma categorização dos crimes, criando assim um modelo para traçar o perfil psicológico desses criminosos.

Dra. Wendy Carr (Anna Torv)
Mindhunter (2017), 1ª temporada, episódio 04.

Se afastando um pouco do fato de Mindhunter ser baseado em histórias reais, tanto da pesquisa desenvolvida pelo FBI quanto a dos assassinos retratados, a série levanta questionamentos que extrapolam o estereótipo das obras sobre serial killers. Há, é claro, todo o suspense do drama policial inserido na narrativa (afinal, estamos falando de algo que tem uma pontinha do David Fincher), o que é feito de forma muito eficiente nas sequências alternadas em cada episódio para apresentar a figura do homem misterioso de Kansas (que corresponde na vida real a Denis Rades, também conhecido como assassino BLK “Bind, Torture, Kill”).

Mas ainda assim há um equilíbrio entre o desenvolvimento do suspense em conjunto com discussões relevantes a serem pensadas sobre esse universo sombrio e violento de pessoas que cometem crimes inimaginavelmente cruéis. Eles nascem assim? Ou foram construídos pela sociedade? Qual a relação entre a prática sexual e esses atos violentos?

Fica evidente que esses crimes extrapolam a prática sexual como forma de prazer, o sexo é entendido ali como forma de poder e humilhação. A escolha das vítimas, quase sempre mulheres, as formas de tortura e a prática de necrofilia, são acompanhadas de discursos como o de Kemper: “as mulheres nascem com um buraco entre as pernas onde todos os homens do mundo querem enfiar algo, e são mais fracas que os homens, então aprendem estratégias, elas usam a mente e o sexo e aprendem intuitivamente a humilhar”. Nesses casos, o sexo é um atestado de poder em parte flexionada devido a fatores sociais e psicológicos de opressão institucional (família/sociedade) nestes indivíduos, e em parte também reflete o que acontece quando as premissas machistas encontram a psicopatia.

Alimentados por uma mídia que explora o corpo da mulher, por uma sociedade que entende a mulher como objeto, que subjuga a figura feminina, temos como resultado homens como Brudos (Happy Anderson), por exemplo, obcecado por sapatos femininos. Ele tirava fotos das mulheres que matava (segundo ele todas mulheres querem ser modelo), sendo que algumas dessas fotos imitavam fotos e poses de publicidade de revistas.

Ao mesmo tempo vemos em Mindhunter uma metacrítica, tanto na forma como a violência é retratada na mídia, nas séries policiais, quanto ao fascínio de muitos espectadores com esse gênero. Inclusive, Kemper se mostra um grande fã também, e chega até a conceber os filmes policiais de uma forma pedagógica, aprendendo através deles como não ser pego pela polícia, por exemplo.

Então Mindhunter não é uma série só sobre serial killers, é uma série sobre como os assassinos/psicopatas pensam também. A melhor forma de compreender a série é vê-la como sendo a transformação de um personagem: Holden é um jovem agente do FBI que se vê fascinado por um campo totalmente novo, do contrário dos seus colegas na agência, ele é curioso, aberto, sensível, questionador, mas também carrega uma moralidade definida (ainda que se apresente mais à frente algo flexível). Ele termina a primeira temporada cheio de razão, imprevisível, prepotente e moralmente perdido, como isso aconteceu?

Na série, Holden é quem tem a ideia de começar a entrevistar assassinos condenados em busca de respostas. A sua motivação e a curiosidade no início é, ao que ele mesmo diz, na tentativa de prevenir ou melhor resolver futuros crimes, no entanto vemos na sua expressão e nas suas reações, na medida que a sua pesquisa se desenvolve (como quando ele consegue a visita para ver Kemper, por exemplo), o entusiasmo e fascínio de alguém que vê o desenrolar de um filme, de uma história. Mesmo ao se deparar com informações que fariam qualquer pessoa expressar algum tipo de emoção, Holden sempre permanece profissional, centrado no seu objetivo, não deixando transparecer nada.

Uma forma de pensar sobre isso é que Holden, ao entrar em contato com esses assassinos, acabou absorvendo alguns traços das personalidades desses indivíduos. Mindhunter, assim como muitas outras séries e filmes que retratam serial killers, mostra como essas pessoas aparentam ser pessoas totalmente normais.

Ed Kemper (Cameron Britton)
Mindhunter (2017), 1ª temporada, episódio 02.

Ed Kemper (Cameron Britton), por exemplo, é um homem muito articulado, com um vocabulário impecável, e se não fosse o fato dele ter matado um monte de mulheres (inclusive sua avó e sua mãe), você diria até que ele é um cara legal. Além disso, ele se mostra como alguém inteligente o suficiente para entender seus próprios problemas, por vezes parecendo ser seu próprio terapeuta, ele aparenta estar consciente do que ele é e porque ele (segundo ele mesmo) é do jeito que é.

No entanto, ao mesmo tempo que ele tem consciência dessas coisas, ele não consegue enxergar seus atos como errados, não sente remorso em os ter cometido, o que deste ponto de vista faz parecer (para ele) razoável matar sua mãe para fazer com que ela cale a boca e depois faça sexo com o seu pescoço por que ela havia dito que, por culpa do seu filho assassino ela não fazia sexo há 7 anos. “Aí, agora você fez sexo”, diz Kemper a Holden quando está narrando seu crime ao agente.

Além de ser bem articulado e, de certa forma, inteligente, Kemper consegue ser persuasivo. A escolha das suas palavras, a forma como ele interage com Holden e o tipo de relação que os dois acabam estabelecendo influencia a forma como o próprio agente do FBI conduz seu trabalho. Essa relação entre os dois, que mais tarde vai surtir efeitos nos métodos de entrevista que Holden aplica com os outros presos, se desenvolve a partir da abordagem do agente com Kemper, de falar como ele para desenvolver uma relação mais “aberta” e que transmita uma espécie de intimidade.

Não entrando no mérito cientifico dessa forma de interação, que é questionada mais de uma vez pela Dra. Carr, mas quando Holden adquire essa postura diante de Kemper, ele acaba permitindo (indiretamente) que o próprio criminoso exerça de forma mais branda estratégias de manipulação, que até acabam algumas vezes sendo apontadas por seu parceiro Bill.

Não é à toa que algumas situações experienciadas por Holden nas entrevistas ecoam na sua vida fora do FBI, como quando ele coincidentemente resolve comer sanduíche de ovo depois da entrevista com Kemper (que, adivinhe, pediu para a cantina da prisão fazer um para ele e o agente), ou quando Debbie (Hannah Gross) usa o sapato que uma das vítimas de Brudos estava usando. Isso só mostra que não há separação entre o que é trabalho para Holden, e o que não é, não há fronteiras entre a vida profissional e sua vida pessoal.

Holden Ford (Jonathan Groff)
Mindhunter (2017), 1ª temporada, episódio 01.

É também por essa razão que seu relacionamento com Debbie se desenvolve, parte do interesse de Holden por Debbie, quando os dois se conhecem, acontece porque ele estava cheio de perguntas sem respostas e conhece uma menina, estudante de mestrado em sociologia que fala sobre criminalidade, desvio criminoso e Durkheim, não tem como não se apaixonar. Todos os encontros entre os dois acabam, de alguma forma, girando em torno do que Holden está pesquisando ou investigando, o que demonstra não um imenso foco no seu objetivo, mas sim o caráter egocêntrico do personagem.

A medida que Holden ganha mais experiência e segurança no trabalho, ele se permite arriscar mais (mais de uma vez ele menciona que deve seguir seu “instinto” para resolver as coisas), e também vai perdendo alguns limites éticos e morais, que irão desencadear toda a confusão envolvendo a entrevista com o criminoso Richard Speck no último episódio. Inclusive, a própria inserção do personagem de Gregg Smith (Joe Tuttle) serve como regulador moral para compararmos com a conduta de Holden, o que justifica a necessidade de Gregg em “fazer a coisa certa” e não conseguir mentir para seu superior do FBI.

Fica claro que Holden é influenciado indiretamente pelo seu objeto de estudo, mas também é perceptível que há nele traços em comum com esses psicopatas. O que não quer dizer, necessariamente, que ele seja um. Holden está mais para um sociopata do que para um psicopata, sendo que ele até é comparado por alguns policiais com Sherlock Holmes, “um sociopata altamente produtivo” (segundo o próprio Holmes na série britânica). Mas o que talvez fique claro para nós, Holden parece só se dar conta quando é questionado por Kemper do motivo pelo qual ele foi o visitar no hospital.

Em um misto de medo de ser estrangulado por Kemper no hospital (e sabe lá Deus o que ele pode fazer com o pescoço do Holden depois), confusão pelo caminho que as coisas tomaram (o processo contra ele no FBI e o término do namoro com Debbie), Holden sai tombando corredor a fora, passando mal e ouvindo as vozes dos seus colegas ecoando na cabeça “sua postura vai derrubar você”, “seu comportamento não manterá você aqui”, e por fim a voz de Kemper “somos amigos, Holden?”.

Holden Ford
Mindhunter (2017), 1ª temporada, episódio 10.

Afinal, por que quando todas as coisas pareciam estar desmoronando em sua vida o primeiro lugar que Holden vai é à procura de Kemper? O ataque de Holden é fruto da culpa por ter assumido uma postura errada diante de certas situações? Ou porque ele se deu conta que essa ligação com Kemper pode significar algo mais profundo sobre sua personalidade?

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Deixando um gancho cheio de suspense, Mindhunter é uma das produções mais relevantes da Netflix neste ano, conseguindo trazer algo novo para um gênero saturado com mais do mesmo. E ainda que seja ambientada na década de 70, Mindhunter traz problematizações bem atuais para pensar, por exemplo, o papel das instituições diante da psicopatia, ou também, a responsabilidade da mídia, e da sociedade como um todo, na objetificação da mulher. Misturando realidade e ficção na medida certa, sabemos que a próxima temporada irá desenvolver o caso de Denis Rader. Agora o que nos resta é, ansiosamente, esperar pelos novos episódios.

A série é baseada no livro de “Mindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano”, de John Douglas e Olshaker Mark. A obra foi lançada em outubro pela editora Intrínseca.


MindhunterMindhunter: O Primeiro Caçador de Serial Killers Americano

Autores: John Douglas e Olshaker Mark

Editora Intrínseca

384 páginas

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Publicitária, mestranda em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP, feminista, apaixonada por arte e vivendo um caso particular de amor com o cinema.
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