As bruxas que não queremos ser: como os contos de fadas influenciam o nosso imaginário
As bruxas que não queremos ser: como os contos de fadas influenciam o nosso imaginário

As bruxas que não queremos ser: como os contos de fadas influenciam o nosso imaginário

Quem nunca teve medo de bruxa quando era criança? Quem nunca ouviu histórias aterrorizantes de mulheres malvadas que sequestravam os pequeninos para fazer fazer algum tipo de magia? Os contos de fadas infantis também contribuíram consideravelmente para cimentar essa ideia, no imaginário infantil, de que as bruxas são más e que precisamos ser princesas. Mas, será que isso é bem verdade?

Tenho várias amigas que se consideram bruxas. Na concepção delas, estão conectadas com elementos da natureza de forma mais intensa e elas deixam-se guiar pela intuição. Além disso, são independentes e poderosas. Na Espanha, algumas moças gostam de camisetas com dizeres: “Somos las nietas de todas las brujas que nunca pudiste quemar”, uma clara afirmação de resistência feminina contra a opressão sofrida pelas mulheres, especialmente na cruel Idade Média e que se perpetua, de certa forma, até os dias de hoje.

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Imagem: Reprodução

Nessa época antiga, as consideradas bruxas destoavam dos conceitos elaborados pelos senhores homens de poder que determinavam como as pessoas deveriam comportar-se. Por isso, foram expulsas do cristianismo e muitas delas queimadas em fogueiras.

Assim, as bruxas eram consideradas um símbolo do mau, da feiura, da perversidade. No entanto, a real identidade dessas mulheres, na Idade Média, é que elas não tinham a mesma disposição para o ofício doméstico como os governantes desejavam; conheciam como ninguém as plantas e podiam curar doenças usando a própria sabedoria, o que contrariava o poder masculino da medicina enquanto ciência. Essas mulheres eram consideradas curandeiras e também utilizavam o que sabiam para ter prazer, ou seja, as chamadas bruxas tinham orgasmos. Ao estar tão fora dos padrões exigidos, logo foram marginalizadas, mal faladas, culpadas de todo o mau e assim permaneceram no imaginário: bruxas são do mal, um símbolo do capeta.

De uma certa forma, essa ideia ainda é infiltrada na mente das crianças através das bruxas dos contos de fadas. Elas sempre são malvadas e nenhuma menina quer identificar-se com elas. O mundo dos contos de fadas é povoado por seres fantasiosos/as e alguns personagens são recorrentes: reis, rainhas, príncipes, princesas e bruxas, que, em geral, são representadas como mulheres mais velhas, que vivem em lugares escuros, têm poderes malignos e com aspecto fora do padrão de beleza estipulado. É o caso, por exemplo, de Úrsula de A Pequena Sereia (Ron Clements e John Musker, 1989).

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É através das bruxas e das madrastas que a feminilidade maligna entra no imaginário infantil, um tipo de mulher que não é socialmente desejada, que não deveria existir, ou seja, uma mulher que não é submissa ao homem, possui poder e é ativa. Esse também é o caso de Malévola, de A Bela Adormecida (Les Clark, Erik Larson e Wolfgang Reitherman, 1959). Nesse conto, a princesa Aurora representa a mulher ideal: indefesa, ingênua, sonhadora, passiva, submissa, frágil e bonita que espera ao príncipe encantado para dar sentido a sua vida. Tudo o que uma sociedade dominada por homens espera que uma mulher seja.

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Em um terceiro exemplo, podemos notar outro tipo de bruxa, imortalizado pela história da Branca de Neve e os Sete Anões (David Hand, 1937): a madrasta, que tenta de tudo para livrar-se de sua inimiga, a filha de seu ex-marido. Na primeira parte do conto, a madrasta ainda aparece como uma mulher altiva, mas, bonita, que quer manter-se jovem. Mas, logo, para conseguir realizar os planos de destruir a menina que seria mais bela que ela própria, a senhora transforma-se no estereotipo da bruxa: má, velha, com uma verruga no nariz, desdentada, vestida de preto e assim consegue enganar a mocinha dando uma maçã envenenada para ela. Dessa forma, no imaginário coletivo da família perfeita, a madrasta é considerada uma mulher má que rouba o lugar da mãe, a boazinha da história. Essas madrastas-bruxas passam a não ter a aceitação das filhas e são consideradas inimigas. E todos esses imaginários ainda persistem até hoje.

No entanto, já existe uma representação das bruxas que fogem um pouco de todo este estigma. São seres mais humanizados, às vezes, até têm um lado cômico. Alguns exemplos em ordem cronológica são A Feiticeira (Sol Saks, 1964-1972), onde a protagonista Samantha Stephens/Serena (Elizabeth Montgomery) casa-se com um mortal e tenta levar uma vida “humana”, inclusive faz algum esforço para deixar de praticar a magia e adaptar-se.

Já nos anos 90, na série Jovens Bruxas (Constance M. Burge, 1998-2006), as irmãs Halliwell: Prudence (Shannen Doherty), Piper (Holly Marie Combs) e Phoebe (Alyssa Milano) lutam contra os demônios para proteger pessoas inocentes e pagar suas contas.

Já Willow Rosenberg (Alyson Hanniggan), de Buffy, a Caça Vampiros, combate o mal através da magia branca. Mas, ela também precisa superar as más notas na escola, além de ter que lidar com sua sexualidade. Willow começa a namorar uma outra menina, Tara Maclay (Amber Benson) a partir da quarta temporada.

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Esses são novos ingredientes que começam a ser utilizados na representação das mulheres e das bruxas no audiovisual. É muito mais fácil para uma criança ou adolescente identificar-se com esse tipo de personagem do que com as velhas representações das bruxas malvadas e feias.

E parece que hoje em dia precisamos muito mais de bruxas do que de princesas, ou seja, mulheres fortes, independentes e donas do poder, não frágeis, passivas e medrosas. Precisamos de mais ingredientes para completar nossa poção mágica. Ainda bem que nem todas as bruxas foram queimadas nas fogueiras da inquisição. Estamos por aí!

Fontes:
1. Araújo, Érica Daniela de e Agustini, Carmen Lúcia H. (2009). A leitura não-verbal nos filmes infantis  e a educação moral. In Anais do Congresso de Leitura do Brasil, 17, 1-12. Campinas, SP: UNICAMP.
2. Sánchez Morillas, Carmen María (2013). Crisis del personaje. La bruja en la era tecnológica. Tejuelo, 17, 56-66.
3. Zordam, Paola Basso Menna Barreto Gomes (2005). Bruxas: figuras de poder. Revista Estudos Feministas, 2(3), 331-341.

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Apaixonada por tudo relacionado ao cinema e ao audiovisual. Gosta principalmente de ver mulheres fortes e felizes nas telonas e nas telinhas. Por isso, depois de trabalhar muitos anos em televisão, decidiu estudar mais sobre o assunto e fez um doutorado no tema pra ajudar na reflexão do papel da mulher no cinema, e poder dividir opiniões e pensamentos com mais apaixonadas/os como ela.
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