Mulherzinhas: a importância da mulher comum na literatura

Mulherzinhas: a importância da mulher comum na literatura

Mulherzinhas” (“Little Women”, no original) não envelheceu bem. São muitos os leitores que, pensando se tratar de uma obra abertamente feminista, encontram nas páginas do clássico uma história repleta de moral cristã e de ensinamentos sobre como ser uma boa mulher. É inegável que a autora, Louisa May Alcott, tenha bebido de águas bíblicas para construir o mundo das irmãs March, e é compreensível que nós, leitoras do século XXI, estranhemos aquelas regras tão duras e subservientes aplicadas a jovens mulheres. Entretanto, esse é somente o primeiro olhar de uma geração acostumada a séries como “Euphoria” falando. A partir do momento em que deixamos a primeira sensação de estranhamento de lado e passamos a, de fato, mergulhar na leitura – e no mundo que a autora nos apresenta -, podemos claramente perceber as influências dos ideais sufragistas de liberdade para as mulheres presentes no livro.

Menos conhecido no Brasil do que outros clássicos escritos na mesma época, “Mulherzinhas” é um livro inesquecível. Comumente chamado de romance de formação, por retratar, inicialmente, um ano na vida das jovens irmãs March ao longo de seu crescimento emocional e moral e, em sua segunda parte, o desenvolvimento da vida adulta delas, o livro poderia facilmente ser enquadrado, nos termos contemporâneos, como um Young Adult. As irmãs March são adolescentes que enfrentam a longa espera pelo retorno do pai, que está lutando na guerra, e se deparam com a pobreza e os tormentos de não se poder ter tudo em uma sociedade que valorizava especialmente o ter em detrimento ao ser. Com uma educação moralmente protestante, elas são ensinadas pela mãe para serem boas e não lamentar o que não possuem, mas agradecer pelo que têm.

Apesar da moral cristã, que permeia toda a história, existem diversos elementos que nos indicam a natureza rebelde e feminista da autora. Louisa May Alcott foi uma sufragista declarada, tendo sido, inclusive, a primeira mulher a votar em sua cidade. Ela nunca casou, sustentou a família com a sua escrita e declarava, para quem quisesse ouvir, suas opiniões políticas em defesa das mulheres e contra a escravatura. Louisa era, em suma, Jo March, uma das personagens principais de “Mulherzinhas”.

Mulherzinhas: um romance semi-autobiográfico

Inspirado na própria vida em família de Louisa, “Mulherzinhas” nos conta a história das irmãs March: Meg, a mais velha, Jo, a aspirante a escritora, Beth, a pianista e Amy, a pintora. Cada uma possui traços muito particulares e refletem uma das irmãs da própria autora, sendo ela representada na segunda irmã, Jo. Mas esse não foi um livro espontâneo. Louisa gostava de escrever ensaios políticos, abordando o sufragismo e o abolicionismo, e ganhava a vida escrevendo ficção sensacionalista sob um pseudônimo. Foi seu editor que lhe pediu para escrever um livro para jovens meninas e ela, achando que aquilo não daria certo, o fez. Ainda bem que ela decidiu fazê-lo, do contrário, poderíamos não conhecê-la.

No entanto, mulheres sempre escreveram, mas raramente foram publicadas e pouco sabemos das tantas escritoras que esse mundo teve já que grande parte dos registros foram destruídos por serem partes de diários ou coisas secretas. Alcott poderia ter seguido por esse mesmo caminho e, hoje, ser desconhecida para nós. Porém, ela nasceu numa casa frequentada por pessoas da literatura e foi estimulada a escrever e colocar suas opiniões no mundo. A vida não foi sempre boa para ela, mas suas personagens tiveram tudo. Embora o livro seja baseado em sua própria vida, em “Mulherzinhas” encontramos menos tragédias e mais amor do que podemos encontrar ao olhar para a vida de Louisa.

Não é difícil perceber por que ela escreveu o livro da forma como o fez. Apesar de inicialmente não ter ficado animada com a ideia de escrever para o público jovem, já que ela queria ser uma “escritora séria”, logo ela percebeu que criar uma história para tal público não a faria menos séria, já que ela estaria formando jovens meninas com seu enredo. Foi então que Louisa, pensando no que gostaria que sua vida tivesse sido, colocou ali seu alter-ego em Jo e criou cada uma das irmãs March de acordo com as suas próprias irmãs, dando-lhes contextos ricos em aprendizados e crescimento.

O crescimento das irmãs March

Louisa May Alcott
Louisa May Alcott

É acolhedor acompanhar a jornada de crescimento das irmãs March. A sensação ao ler o livro, na bela edição repleta de ilustrações e comentários da editora Zahar, foi a de ser abraçada pelo ambiente amoroso daquela família. A união entre as irmãs, por mais que tenham seus momentos de desentendimentos, é inspiradora, especialmente porque é padrão ver mulheres não se dando bem em obras de ficção. Infelizmente, a maioria dos livros clássicos a que temos acesso foi escrita por homens e, em geral, quando retratam mulheres, elas são seres quase mitológicos, que vivem para a beleza e não conseguem construir verdadeiras amizades femininas e relacionamentos profundos entre si. Mas, não vemos isso na obra de Louisa May Alcott. Cada irmã possui sua própria personalidade e opinião diferente da outra, mas todas são unidas pelo amor e pelo respeito. Portanto, é bonito ver mulheres discordarem e até brigarem sem que os laços de amizade sejam rompidos.

Publicado originalmente em 1868, “Mulherzinhas” é um livro delicado. Dividido em duas partes, sendo a primeira a mais conhecida aqui no Brasil, trata da vida das irmãs durante o final da Guerra Civil Americana. A primeira parte nos mostra um ano na vida das irmãs March, que aguardam o pai voltar da guerra enquanto passam por muitas necessidades financeiras. Quando eram crianças, a vida era economicamente melhor e elas desfrutavam de muitos luxos disponíveis na época, mas o pai, em um excesso de generosidade, emprestou um alto valor a um amigo e, dessa forma, caiu em pobreza.

No início do livro, vemos as meninas conversando sobre como estão tristes por serem pobres, já que o Natal está chegando e elas não podem nem ao menos comprar roupas novas. É aí que a mãe delas decide inserir em suas vidas o livro “O Peregrino”, uma história ficcional com valores cristãos que fazia sucesso na época. O clássico conta a história da viagem do Cristão à cidade Celestial, onde ele passa por muitos obstáculos até chegar ao seu destino. É estranho, como leitora da atualidade, olhar para isso e pensar que uma autora como Louisa, que era tão moderna para sua época, escolheu colocar uma fábula cristã como intertexto na primeira parte do seu livro, servindo de modelo moral e comportamento para as irmãs. Porém, não podemos esquecer que, por mais que sejamos “à frente” de nosso tempo, ainda somos produto dele e algumas noções permanecerão enraizadas conosco. De qualquer forma, a inspiração para o comportamento humilde e resiliente do Cristão resulta em momentos interessantes na história e não atrapalha a leitura. Ele é mais um livro de conforto para as irmãs do que uma bússola moral de fato.

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Não é raro que leitores digam que o livro é conservador e moralista justamente por causa dessa primeira parte. Entretanto, se formos além do olhar de leitoras de 2020, poderemos ver uma história que se propõe a mostrar como mulheres daquela época poderiam ser livres, especialmente quando focamos o olhar na segunda parte, Good Wives. Elas, ainda que restritas aos moldes de vida do século XIX, tinham muitas liberdades para a época. Por isso, “Mulherzinhas” é um tratado sobre a liberdade da mulher daquele tempo. Ela era restrita? Bastante. Mas somente o fato de termos uma mãe que diz abertamente que prefere que as filhas não se casem a vê-las casadas com homens ricos, mas sem amor, apenas para terem uma boa vida, já é algo incrível. Temos também uma adolescente que, apesar de ser cortejada por seu vizinho rico, diz a ele que não quer casar-se ou ter qualquer tipo de romance, o que quer é escrever e ser livre e encontrar seu caminho, seja ele qual for. Amy, uma das irmãs, é estimulada a seguir fazendo suas artes, descobrindo se prefere o mundo da pintura ou o da escultura e é encorajada a viajar, com uma tia, para a Europa, onde conhece museus e artes consagradas e estuda seus aspectos.

Embora seja um romance de sua época, “Mulherzinhas” está longe de ser apenas um livro moralista para jovens. A importância da escrita de Louisa May Alcott é tanta que diversas escritoras consagradas, como Simone de Beauvoir, Patti Smith e Elena Ferrante, descobriram nela o caminho para a literatura. Isso porque Louisa não somente contou uma história semi-autobiográfica sobre quatro irmãs crescendo e descobrindo o mundo, mas também deu importância à narrativa da vida cotidiana de mulheres.

Por fim, existem poucos livros em que podemos encontrar a vida cotidiana de uma mulher elevada ao patamar de arte. Enquanto há diversos protagonistas masculinos cujas vidas medíocres são estudadas ao longo dos séculos, a literatura de Louisa May Alcott permaneceu como sendo apenas para jovens mulheres, como se isso fosse algo menor. As vidas de mulheres interessam a todos porque somos pessoas deste mundo e nossas narrativas são tão válidas quanto as dos homens. Escrever sobre mulheres normais, vivendo suas vidas e descobrindo seus caminhos é eternizar a figura da mulher comum como importante. De fato, não existe nada de tão extraordinário em “Mulherzinhas”, mas é justamente isso o que faz dele um livro tão maravilhoso.


MulherzinhasMulherzinhas: edição comentada e ilustrada

Louisa May Alcott

Editora Zahar

O livro foi cedido pela editora para resenha

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Edição e revisão por Isabelle Simões.
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Autora:

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Jornalista e pessoa da internet há uma década. Analista literária, quando não está lendo, escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.
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