O Diário de Nisha: partição da Índia e a resistência de uma menina refugiada

O Diário de Nisha: partição da Índia e a resistência de uma menina refugiada

Compartilhe

Sempre haverá alguém resistindo em algum lugar, em busca de uma vida melhor para si ou para sua família. Entre conflitos políticos, religiosos e territoriais, os refugiados e imigrantes sempre existiram e resistiram na história mundial. Independente da origem do conflito, as pessoas sempre estarão à procura de um lugar seguro. Este é o assunto principal do livro “O Diário de Nisha“, da autora Veera Hiranandani, lançado no Brasil pela Darkside Books. Nesta obra, a autora retrata a história da Partição da Índia pelos olhos de uma menina tímida e observadora.

Em “O Diário de Nisha” temos um romance epistolar. A narrativa é apresentada através do cotidiano escrito pela jovem Nisha em seu diário. Com 12 anos de idade, Nisha vive na Índia com seu pai, avó, o irmão mais novo e o empregado da família. Primeiramente, a garota tenta compreender os acontecimentos ao seu redor a partir dos questionamentos com a mãe – as páginas do diário parecem cartas destinadas para a mãe – já falecida. Nisha observa, por exemplo, a quietude e a falta de afeto e carinho do pai, assim como os conflitos ocorridos no momento pré e pós Partição da Índia, como se procurasse respostas através da figura forte daquela que lhe trouxe vida. 

Diário de Nisha
A edição de “O Diário de Nisha” da Darkside Books foi inspirado no próprio diário da menina. Imagem: Darkside Books (reprodução)

Antes da Partição da Índia – que ocorreu em 1947 e apresenta seus reflexos até os dias atuais – hindus, muçulmanos e sikhs conviviam tranquilamente na região. Com a Partição houve a criação de dois estados independentes do governo britânico: a Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana. Nisha é parte hindu e parte muçulmana, portanto, no decorrer de “O Diário de Nisha” ela viverá diversos conflitos causados por tal divisão, onde ela e sua família serão obrigados a atravessar a fronteira e buscar refúgio no Paquistão. Tal travessia causou, na vida real, a morte de mais de 14 milhões de pessoas inocentes.

Simultaneamente, “O Diário de Nisha” também mostra como a culinária tem um fator essencial para união familiar. É na cozinha, reunindo-se com empregado da família, Kazi, que a Nisha consegue se expressar para além das páginas de seu diário. Numa relação muito bonita de amizade com Kazi (foi ele que deu diário para Nisha e a incentivou a escrever), a autora também não deixa de refletir sobre os privilégios entre classes sociais na obra.

Bem como, a autora Veera Hiranandani mostra, através do olhar inocente e empático da garota, o processo da implementação do preconceito, que ocorre gradativamente através do medo e ódio às diferenças culturais e religiosas. Com relatos imersivos, a jovem Nisha questiona o porquê de toda intolerância às diferenças, ao mesmo tempo que descobre revelações sobre sua ancestralidade. 

Delirium Nerd entrevista Veera Hiranandani

Tivemos a oportunidade de conversar com a autora Veera Hiranandani, onde a história de sua família a inspirou a escrever esse conflito. Na entrevista, ela comentou alguns aspectos do processo de escrita de “O Diário de Nisha” e também trouxe uma reflexão sobre a Crise dos Refugidos nos dias atuais.

Veera Hiranandani
A autora Veera Hiranandani (Imagem: Darkside Books / reprodução)

DN – Nisha é uma garota quieta e tímida, que gosta mais de ouvir e observar do que falar. Assim como Nisha, você também disse que era uma menina tímida e observadora, e que por ter crescido com a influência de duas culturas diferentes, tais elementos contribuíram para a sua carreira de escritora. Dentro de um mundo barulhento e comunicativo como o nosso, você acha que os adultos poderiam ser mais silenciosos e observadores assim como a jovem Nisha?

Essa é uma questão interessante. Eu acho que, pelo menos nos EUA, os aspectos positivos de ser quieto e observador são frequentemente negligenciados. Eu gostaria que pudéssemos ser mais equilibrados como sociedade. Como uma criança quieta, sempre me disseram para falar mais, mas acho que há algo muito valioso na observação silenciosa. Eu gostaria que as escolas pudessem dar uma atenção mais positiva a essa característica em crianças e pessoas em geral.

DN – Ao longo da leitura nós percebemos o quanto a garota admira o seu irmão Amil, dizendo que gostaria de ser como ele. O irmão de Nisha foi baseado em alguma pessoa que você conheceu e admirava? Se não, quais foram suas inspirações para a criação do personagem?

Eu acho que todos os meus personagens são uma combinação de diferentes lados de mim mesma, de pessoas que conheço e de pura imaginação. É sempre uma mistura, mas meu filho e minha filha definitivamente influenciaram tanto Nisha quanto Amil.

Darkside Books
Foto: Isabelle Simões / Delirium Nerd

DN – Tem uma parte muito tocante em “O Diário de Nisha” onde você menciona que o amor está nos pequenos gestos e que nem sempre nós enxergamos esse amor no momento que se manifesta. Se no início nós enxergamos o pai de Nisha como uma pessoa distante e pouco amorosa com os filhos, essa impressão se modifica no decorrer da história. A autora Svetlana Aleksiévitch, que escreve sobre conflitos e guerras sob a perspectiva dos sobreviventes, disse que é mais difícil escrever sobre o amor nos tempos atuais do que sobre a guerra e a violência dos homens. Você também acredita que é mais difícil escrever sobre o amor? Ainda mais através da perspectiva de uma garota?

Obrigada. Eu acho que o amor sempre foi um tema difícil de escrever, porque as pessoas demonstram amor de muitas maneiras diferentes. O pai de Nisha é complicado, mas ele expressa seu amor cuidando de sua família. É assim que ele foi ensinado a demonstrar o amor por sua família, como muitos homens de sua geração e de dos tempos atuais também acreditam. Mas as experiências em O Diário de Nisha forçam todos os membros da família a estarem mais próximos e menos cautelosos até o final. Acho que isso acontece quando a perspectiva de perder aqueles que você ama se torna muito presente e real. Eu não acho que é mais difícil escrever sobre o amor do ponto de vista de uma garota. É complicado e com nuances de qualquer perspectiva.

O Diário de Nisha
Foto: Isabelle Simões / Delirium Nerd
Leia também:
>> Livros e quadrinhos LGBTQ+ “impróprios” que o Delirium Nerd aprova
>> Úrsula: literatura brasileira, romance, escravidão e abordagem sensível
>> Tabitha King: “aprendi muito cedo que, o que quer que eu fizesse, o problema estava em ser mulher”

DN – O ato de cozinhar e reunir a família na hora da alimentação é um momento muito importante para Nisha. E são momentos simples como esse que você retrata a perspectiva de uma sobrevivente para além da sua condição de refugiada, onde conhecemos a importância da sua cultura e quem ela era antes da perda de sua inocência, após vivenciar inúmeras atrocidades e questionar as decisões dos homens poderosos do governo. Você acredita que é mais fácil conscientizar uma criança sobre preconceitos raciais e religiosos do que um adulto?

Cozinhar é uma maneira de Nisha se expressar além da fala. E isso também a conecta a Kazi. Eu acho que os adultos seguem seus caminhos e é difícil para as pessoas realmente mudarem se estiverem acostumadas a um certo sistema de crenças. Acho que é mais fácil ensinar as crianças a ter a mente aberta, mas às vezes nos esquecemos de que é preciso ensinar ativamente as crianças a não serem preconceituosas. Eu acho que as crianças são profundamente influenciadas pelo ambiente.

Veera Hiranandani

Darkside Books
Fotos: Isabelle Simões / Delirium Nerd

DN – O personagem muçulmano Kazi, empregado da família por quem Nisha sente muito afeto e carinho, tem um papel fundamental no início dos questionamentos da garota. A protagonista passa a refletir sobre o ódio atribuído aos conflitos entre muçulmanos e hindus com a Partição da Índia. Pelo olhar dela, antes da divisão todos conviviam na Índia de forma pacífica e amigável. Se você pudesse dizer algo aos poderosos no governo que perpetuam a Crise de Refugiados nos dias atuais, o que você diria?

Eu escrevi este livro na esperança de manter as lições da Partição vivas. Há tanto que podemos aprender com essa história sobre como nos dividimos ou somos prejudicados em relação aos outros, com base na religião, raça, sexualidade, etc., e os perigos que resultam. Em última análise, no entanto, como diz Papa, que é cirurgião, no livro: “Quando abro um corpo, vejo o sangue, os músculos, os ossos, todos iguais em todas as pessoas“.

Darkside Books
Foto: Isabelle Simões / Delirium Nerd

Refugiados escapam de conflitos desde sempre. Assim como conhecemos o relato história da jovem Myriam, na Guerra da Síria; dos migrantes na França retratados pela quadrinista francesa Kate Evans; atualmente o mundo vive a maior Crise de Refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Conflitos causados por diferenças culturais e religiosas continuam ferindo inocentes, seja através da miséria, da perda da dignidade, ou da morte causada pelas travessias de fronteiras e pela intolerância dos muros erguidos através da motivação ódio e do preconceito humano. Por isso, histórias sensíveis e imersivas como as de Nisha são importantes para refletirmos sobre empatia, afeto e solidariedade. As pessoas precisam perder o costume de olhar de cima para baixo e passar a olhar ao redor;  aprender com as diferenças e não desprezá-las.


O Diário de Nisha

Veera Hiranandani (Autora), Débora Isidoro (Tradutora)

Darkside Books

288 páginas

Onde comprar: Amazon ou na Loja da Darkside – por aqui você ganha um marcador exclusivo

O Delirium Nerd é integrante do programa de associados da Amazon e do Lomadee. Comprando através de qualquer um dos links acima, ganhamos uma pequena comissão e você ainda ajuda a manter o site no ar, além de ganhar nossa eterna gratidão por apoiar o nosso trabalho!


Compartilhe

Autora

287 Posts

Fundadora e editora-chefe do Delirium Nerd. Revisora. Apaixonada por gatos, café, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas. Ouve muito Harry Styles e cantoras melancólicas.
Veja todos os textos
Follow Me :