De Quem é esta História – Feminismos para os Tempos Atuais: um livro necessário?

De Quem é esta História – Feminismos para os Tempos Atuais: um livro necessário?

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Rebecca Solnit, historiadora e ativista feminista norte-americana, finalmente está de volta ao Brasil com seu novo livro De Quem é esta História – Feminismos para os Tempos Atuais, lançamento publicado pela Companhia das Letras. Após o grande sucesso de Os Homens Explicam Tudo para Mim e de A Mãe de Todas as Perguntas, ambos já resenhados pelo Delirium, a autora retorna com um livro recheado de ensaios sobre a participação política das mulheres, e a necessidade de representatividade na nomeação de monumentos e de ruas/bairros de nossas cidades. Além disso, a obra também aborda algumas decisões judiciais importantes no que diz respeito ao abuso e assédio sexual nos Estados Unidos, refletindo sobre o que é ser mulher em nossa sociedade e como precisamos nos munir da história e da memória e assumir controle de nossas narrativas.

No livro, composto por 20 ensaios de diferentes temáticas, a autora parte tanto de vivências pessoais, de figuras públicas importantes nos Estados Unidos, como também de amigas e pessoas próximas para reverberar as vivências das múltiplas categorias de mulheres em nossa sociedade, e ponderar, assim, sobre como o machismo e o patriarcado age diretamente em nossas vidas, mesmo que de forma inconsciente.

De Quem é esta História - Feminismos para os Tempos Atuais um livro necessário (resenha)

Mesmo se tratando de um livro que aborda temas e assuntos tão delicados, a obra é escrita de uma forma leve e direta, em que o leitor ou leitora parece participar de uma conversa, se conectando facilmente com aquilo que a autora quer transmitir. Entretanto, no meio de tantas publicações com temática feminista e com o urge de diversas vertentes e vivências, ele é um livro necessário para se ter na estante?

“Um lugar que homenageia apenas os homens define as mulheres como não sendo ninguém”: a cidadania da mulher está limitada pela falta de representatividade

Uma das temáticas mais significativas de Feminismos para os Tempos Atuais, e que está presente em quase todos os ensaios reunidos, é a relação simbiótica entre a representatividade e a cidadania. A autora parte da reflexão de que quase todas as cidades estão repletas de nomes de homens. Isto é, em nossas ruas, bairros, instituições, nomes estes que marcam quem detém o poder ao longo da história e quem, assim, a escreveu de maneira oficial. São nomes que foram propagados por aqueles que possuíam fortunas e que deveriam ser lembrados por seus “grandes feitos”. Enquanto isso, as mulheres foram pessoas anônimas, que durante suas vidas trocavam o nome do pai pelo do marido quando se casavam, e que viviam uma vida majoritariamente privada, dentro de seus lares e famílias, e por isso eram relativamente esquecidas na história, com algumas poucas exceções.

Entretanto, por mais que parte desse raciocínio esteja correto, precisamos tomar alguns cuidados ao refletir sobre. De fato, quando nos debruçamos sobre as figuras que são homenageadas onde moramos, percebemos que quase não existem mulheres. Por conta da dicotomia do público/privado, estas são conduzidas para o cuidado do lar e do espaço privado. Ou seja, as figuras de seus pais, maridos e filhos são direcionadas para o sustento da família através do trabalho e da participação no espaço público. Porém, essa narrativa, por mais que estrutural e estruturante de nossas vidas, não é totalizante. 

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Apesar das mulheres serem dotadas, mesmo que impostas, da responsabilidade e da obrigação com os lares, além de subordinadas a uma figura masculina, elas forçaram e foram além das barreiras e muros construídos. Durante toda a história houve organizações femininas dentro de suas comunidades. Estas questionaram o papel e o poder do patriarcado, insurgiram e se revoltaram desde maneiras grandiosas até pequenos gestos dentro de seus lares. Tais mulheres fizeram história, mudando a lógica do poder. nNo entanto, essas trajetórias são apagadas. O problema não está na falta dessas histórias, mas sim em como elas são invisibilizadas para que certas narrativas e figuras de poder, de homens brancos héteros cis, pudessem ser construídas. 

Além disso, essa lógica de que as mulheres viviam uma vida majoritariamente privada é um fundamento ligado às mulheres brancas de classe média alta. Mulheres negras, trabalhadoras, de classes mais baixas sempre estiveram na lógica do mundo público, trabalhando fora de suas casas, sendo figuras importantes em suas família e, em muitos momentos, não sendo consideradas inclusive mulheres, por não serem dotadas da “mística feminina”, da feminilidade pretensamente natural que eram construídas para as mulheres brancas de classe média alta. Essas mulheres, fora de seus lares, ou inclusive dentro deles, fizeram história, mas as memórias de suas vidas extraordinárias foram apagadas por aqueles que detém o poder de quem narra a história, e isso se reflete diretamente em quem são as pessoas homenageadas por nossa sociedade.

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A autora relata que não consegue imaginar como poderia conceber a si mesma e às suas possibilidades se, em seus anos de formação, tivesse caminhado por uma cidade onde a maioria das coisas tivesse o nome de mulheres e muitos monumentos fossem homenagens de mulheres poderosas e bem sucedidas. Aliás, isso é palpável de maneira cruel. Nós não somos referenciadas e por isso acreditamos que aqueles espaços não são nossos. A divisão sexual do trabalho e a dicotomia do público e do privado são refletidas inclusive em nossos monumentos, nossas ruas, bairros e cidades. A forma como não conhecemos mulheres revolucionárias e que foram importantes em momentos históricos, é um aspecto perverso do patriarcado. Aspecto que tenta nos silenciar e nos apagar, além de fazer com que acreditemos que não podemos ocupar espaços em instituições que vão desde o trabalho até os espaços de poder dentro do congresso nacional.

As estátuas de mulheres não são raras, mas são alegorias e não são ninguém. São mães, musas, objetos de cena, mas não são presidentes. Nós podemos ser objetos de admiração desde que não incomode a relação de poder. Podemos ser homenageadas desde que não se incitem questionamentos e revoltas de outras mulheres. Não podemos ser referências de poder. Não podemos ser revolucionárias ou referência de luta. Porém, a sociedade não será transformada pela mera mudança do nome dos espaços.

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Como bem reflete Solnit: “As estátuas e os nomes não são, em si mesmos, direitos humanos ou acesso igual, tampouco um substituto para eles. Mas são partes cruciais do ambiente construído, que nos dizem quem é importante e quem será lembrado. Elas fornecem imagens concretas para a nossa imaginação e definem a percepção do passado que evocamos para definir qual futuro vamos escolher e quem desejamos valorizar e ouvir no presente”. As homenagens e os nomes dos espaços não são o fim em si mesmo, mas refletem lógicas de poder. São, antes de tudo, um símbolo para que nossa sociedade seja transformada.

E isso inclusive é refletido no Brasil, de maneira ainda mais urgente quando pensamos na quantidade de espaços que são homenageados por meio de pessoas que estiveram no poder na época da ditadura militar, sobretudo torturadores e assassinos. Dessa forma, precisamos pensar na importância da nossa memória e da verdade na história, levantando vozes e narrativas que foram historicamente apagadas e silenciadas. E isso perpassa também pelo nome das instituições e dos lugares que ocupamos. 

A história e a memória nos fornecem linhas de bases sociais e políticas. Quando nos distanciamos delas não nos inserimos nos espaços políticos e públicos, repetindo a mesma trajetória de que homens brancos héteros e cis irão continuar nas instâncias de poder. Refletir sobre o passado, através dessas figuras relevantes que quebraram as barreiras de classe, gênero e raça, também implica demarcar como a nossa sociedade está em constante transformação e, inclusive, serve de esperança para diversos coletivos.

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Entretanto, por mais que seja uma temática necessária e relevante, principalmente no contexto sociopolítico que vivenciamos no Brasil hoje, o assunto é tratado de maneira simplista e até mesmo ingênua por parte da autora, que não demarca o apagamento dessas vozes, nem as variações de raça e classe que se impõem. Todas as reflexões obtidas ao ler os ensaios que tratam dessa temática, vieram de leituras anteriores e complementares, pois caso lesse apenas essas passagens se tornaria difícil a observação das críticas e das variantes que devem existir a partir do assunto.

“Companheira me ajude que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”: a necessidade de coletividade

Um outro assunto retratado no livro que surpreende positivamente é a delimitação de que as mudanças sociais positivas somente se concretizam a partir de uma coletividade organizada, e não através da formação de heróis ou de pessoas que individualizam as pautas em si. No ensaio nomeado “O Herói é um Grande Desastre”, a autora desconstrói as figuras heroicas e rompe com a imagem falseada de que grandes líderes agem por si só. 

A autora menciona que as narrativas sobre heróis solitários empurram uma única figura para o olhar do público, mas puxam todos os outros de volta à vida privada, ou pelo menos à vida passiva. Porém, isso representa um paradoxo social. Ao mesmo tempo em que esses líderes e figuras de luta, como Malala, Harriet Tubman ou até mesmo a Greta Thunberg, nos inspiram a agir e suas homenagens fazem com que os espaços públicos sejam para os grupos minoritários um espaço de maior conforto, eles também nos colocam em espaços passivos por centralizarem figuras, escondendo, dessa forma, a necessidade de movimentos, coalizões, uniões, organizações, pois não há libertação sem a coletividade.

A representação por si só, portanto, não é chave para a mudança. Ela é importante, não entendam mal, porém a inclusão das mulheres não acontece através de heróis solitários e soluções únicas. Precisamos dessas referências históricas para inclusive compreender a história mundial de maneira mais material e concreta, levando em consideração que as narrativas universais que nos são contadas apenas refletem a vivência de um sujeito em específico, homens, brancos, de classe média/alta, héteros e cis.

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O que parece neutro, objetivo e universal, na verdade é completamente subjetivo. Porém não podemos esgotar nossas pretensões nisso, ou pelo menos focalizar de que as mulheres somente conquistaram seus direitos através dessas únicas figuras. Na realidade, trata-se de uma grande coalizão de diversos movimentos e, inclusive, de diversas vertentes. Faz-se necessário uma reflexão bem mais profunda do que aquelas que nos são vendidas em camisetas de Frida Kahlo.

Poucos livros em destaque no mercado colocam esse compromisso da união, da coletividade e da organização como pontos chave para a libertação das mulheres, porém, assim como outros temas retratados, Feminismos para os Tempos Atuais acaba pecando pela superficialidade e às vezes até pela contradição da autora. Ao mesmo tempo que ela critica a formação de heróis, ao longo de todo o livro reforça-os, como no ensaio dedicados completamente a Greta Thunberg ou Christine Blasey Ford

O feminismo “pop”, “mainstream” ou “liberal” procura a todo momento reduzir nossas lutas por essa pretensa inclusão de que nosso sistema trará a partir da representatividade. E mais uma vez reforçamos o quanto essa circunstância é importante e essencial para redefinir padrões, para transformar as instâncias de poder, apesar de não ser a finalidade. Não queremos apenas ser incluídas nas instâncias de poder, queremos redefini-las, transformá-las e derrubá-las. Essa perspectiva de que a representatividade é um fim em si mesmo, acaba por legitimar situações proferidas por mulheres conservadoras, que são contra os direitos das mulheres, banalizando, por exemplo, situações de violência doméstica no Congresso Nacional. Ou seja, a representatividade feminina no Congresso não significa a concretização de pautas feministas.

E isso leva a outra particularidade do texto de Rebecca Solnit.

Onde está a radicalidade de seus discursos?

Por mais que o livro toque em assuntos relevantes, desde o direito ao aborto seguro e legal até as questões de representatividade e cidadania, percebe-se que a autora se coloca em posições confortáveis, construindo seus discursos sem tocar em assuntos dolorosos ou polêmicos para o movimento feminista. Mas, para além disso, a superficialidade de sua obra chama bastante atenção. Por mais que a autora – quase – que mencione a relevância da interseccionalidade ao citar raça e classe como pontos importantes, inclusive nomeando um de seus ensaios de “O Problema do Sexo é o Capitalismo”, em nenhum momento ela tenta se aprofundar nos temas ou demonstra ser conhecedora de dados e informações relevantes para o leitor ou leitora.

Nós não precisamos, mais uma vez, sermos informadas de que tais problemas existem ou meramente que se repita uma discussão que já vem sido feita nos últimos 50 anos. Precisamos de uma pensadora que realmente alavanque as discussões e tenha a prerrogativa de transformar algo. É claro que Solnit menciona muitas perspectivas atuais, inclusive citando o movimento #MeToo algumas vezes, porém, por mais que esse movimento tenha muitos ganhos, essa ótica esperançosa e ingênua da autora chega a incomodar, principalmente se estamos falando de leitores e leitoras brasileiros que estão vivenciando um retrocesso e um ataque aos direitos das mulheres de forma intensa e perversa.

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Rebecca Solnit parece, a partir desse livro, ser da categoria de autoras feministas com livros extremamente populares, que bombam no Instagram e em outras redes sociais, tais como O Mito da Beleza, da Naomi Woolf ou Sejamos Todos Feministas, da Chimamanda Ngozi Adichie, mas que são pouco realmente agitadores, inovadores ou revolucionários. E a partir desses livros, com feministas liberais que se apropriam de um feminismo comercial, mainstream, provém, então, uma alternativa fácil de participação no movimento de mulheres, que é cheio de contradições. Basta postar uma foto lendo o livro na piscina, sem qualquer reflexão, crítica ou qualquer prática efetiva que o ativismo estaria concretizado. Com essa prática, que é bastante recorrente hoje, diz-se que ao ler esses livros populares há um certo ativismo, uma mudança ou uma inspiração, mas essa abordagem realmente nos levará ao progresso?

Mesmo dentro de redes sociais, as discussões que devem ser feitas em torno dessas temáticas não poderão mais ser feitas de maneira superficial e ingênua. Precisamos de radicalidade e de contribuições fortes para lidar com o que estamos vivenciando hoje. E essa não é a proposta da autora, que inclusive menciona as retaliações, retrocessos e raiva de figuras como Trump, como uma reação natural ao fim de uma era, o fim da era do homem branco.

Fim de uma era? Vivenciamos há pouco tempo o escândalo do direito ao aborto de uma criança de 10 anos, que fora estuprada por membros de sua família e que, inclusive, seu direito estava previsto legalmente. Vivenciamos um ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que é completamente conservador, que ataca diretamente as discussões feministas de gênero, e que continua com um discurso totalizante e perverso de “azul é para menino e rosa é para menina”.

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Sim, a colocação dessas pautas reacionárias demonstra uma reação raivosa à todas as política públicas e discussões transformadoras no sentido de alavancar os direitos das mulheres, porém não é somente uma mera reação, é mais do que isso. A continuidade de questionamentos ao direito ao aborto, não apenas nos Estados Unidos, que é mencionado pela autora, mas principalmente no Brasil, é uma questão de saúde pública, é uma questão de vida ou morte para milhares de mulheres. 

A autora menciona seus temas e histórias de uma maneira bem repetitiva e superficial, e para brasileiros e brasileiras o livro acaba sendo um pouco distante. Toda a repetição de grandes nomes e movimentos de feministas norte-americanas acaba por nos distanciar. A nossa realidade na América Latina, permeada de uma história cheia de ditaduras, onde o direito ao aborto seguro e legal é uma pauta monstruosa e o assédio sexual é a regra, se assusta com a esperança e a positividade da autora. 

Ao me deparar com a pergunta se esse é um livro necessário, a primeira reação que tive é dizer que não é necessário. Mas o livro pode funcionar para uma leitura fluida e sem muitas pretensões. No entanto, não o leia esperando grandes reflexões que irão mudar a sua vida, ele não é sobre isso. A obra pode ser interessante para adolescentes que não tenham qualquer contato com leituras mais profundas. Por fim, apesar de não ser um livro ruim, a leitura de De Quem é esta História – Feminismos para os Tempos Atuais deve ser feita com críticas e reflexões. 


De quem é esta história?: Feminismos para os tempos atuais

Rebecca Solnit

Tradutora: Isa Mara Lando

Companhia das Letras

304 páginas

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Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Autora

Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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