Americanah: a complexidade das discussões de raça e gênero na obra de Chimamanda

Americanah: a complexidade das discussões de raça e gênero na obra de Chimamanda

Americanah, eleito como um dos melhores livros de 2013 pela New York Times Review e vencedor do National Book Critics Circle Award, foi escrito pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, cujos discursos viralizaram na internet, sobretudo sua conferência no TED, e cujas palavras inclusive ganharam destaque nas músicas de Beyoncé. Publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras, Americanah aborda questões sociais contemporâneas, tais como raça, feminismo e imperialismo e constitui, certamente, uma obra rica em reflexões.

A protagonista é Ifemelu, uma nigeriana que se muda para os Estados Unidos, onde conhecerá o conceito de raças. A narrativa não é inteiramente linear e, embora o narrador seja em 3ª pessoa, divide-se em dois pontos de vista. Assim, a obra se inicia com a decisão de Ifemelu de retornar ao seu país de origem após mais de 10 anos nos Estados Unidos; ela retorna e retrata sua história desde a infância até o período posterior ao seu retorno, apresentando também a perspectiva de Obinze, seu namorado da adolescência. Há o contraste, assim, de duas experiências distintas: da relação com a cultura nigeriana e com o choque de raças do mundo ocidental dito “desenvolvido”.

Ifemelu é negra, mas só foi se descobrir como negra quando colocou os pés em um país em que a negritude é vista com olhos estranhos. Antes disso, era, como todos os seus colegas, apenas uma nigeriana, filha de uma cultura fortemente conectada com a religiosidade e de um país politicamente instável.

A protagonista cresce sob os cuidados de uma mãe que entrega seu corpo e seus hábitos aos dogmas de uma religião rigorosa. Do mesmo modo que tantas outras mulheres do país, cala-se diante de opressão mascarada pelo discurso divino, o que gera incompreensão na jovem Ifemelu, que não concorda com a hipocrisia a que é submetida.

Do mesmo modo, Ifemelu não se vê seguindo os passos da tia Uju, uma mulher forte, que por muito tempo foi a imagem de mulher independente a ser perseguida, mas que se deixou ser podada pela relação com um general. Resumida a uma amante, como várias das amigas de Ifemelu também seriam, tia Uju forneceu os contrastes da submissão, e enfrentou as consequências da submissão, definindo-se por vontades masculinas durante anos de sua vida.

Americanah
A autora, Chimamanda Ngozi Adichie

É durante a adolescência que ela conhece Obinze. Ninguém esperava que o rapaz bonito e popular fosse escolher ficar com a menina de personalidade forte. Porém, ambos encontraram no outro aspirações e compreensões que não conseguiam suprir com as demais pessoas, vivenciando um amor que resistiria ao tempo e à separação. Filho de uma professora universitária, Obinze ajudou na construção de um desejo por algo maior de Ifemelu, naturalmente curiosa e vívida. A mãe do personagem também é essencial à trajetória da protagonista, pois a inspira a perseguir suas ambições profissionais e a fugir das limitações socialmente impostas às mulheres da Nigéria.

Ele disse: ‘Ifemelu é linda, mas dá trabalho demais. Sabe discutir. Sabe falar. Nunca concorda com ninguém'”

Quando a liberdade é ainda mais cerceada por uma ditadura em um país de condições consideradas precárias quando em comparação aos países ricos do Ocidente, Ifemelu encontra na vida acadêmica nos Estados Unidos uma forma de fuga. Todavia, ao chegar lá, descobre que o sonho vendido a pessoas como ela nem sempre se concretizam.

“[…] Todos entendiam o que era fugir de uma guerra, do tipo de pobreza que esmagava a alma das pessoas, mas não conseguiam entender a necessidade de escapar da letargia opressiva da falta de escolha. Não conseguiam entender por que pessoas como ele, criadas com todo o necessário para satisfazer suas necessidades básicas, mas chafurdando na insatisfação, condicionadas desde o nascimento a olhar para outro lugar, eternamente convencidas de que a vida real acontecia nesse outro lugar, agora estavam resolvidas a fazer coisas perigosas, ilegais, para poder ir embora, sem estar passando fome, ter sido estupradas nem estar fugindo de aldeias em chamas. Apenas famintas por escolha e certeza.”

Se na Nigéria seu maior questionamento era em relação ao tratamento das mulheres, nos Estados Unidos é a raça que ganha prevalência. Isto porque o racismo foi abolido objetivamente, mas não subjetivamente. As práticas continuam a demonstrar que os brancos exercem poder sobre as demais raças, e uma luta por classificações raciais se desenvolve, sempre com os negros na camada mais baixa. Mas mesmo entre os negros existem diferenças de lutas. Ifemelu não é herdeira da escravidão como os negros americanos, não viveu o racismo do mesmo modo que eles, o que não significa que ela seja imune ao sistema. Pelo contrário, experimenta todas as dores de ser negra num país de racismo velado.

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Enquanto negra e mulher, Ifemelu tem de enfrentar situações dolorosas para sobreviver e é levada a conhecer problemas que não eram discutidos na Nigéria, como a depressão. Esta situação a afasta de Obinze, que vive paralelamente seus próprios conflitos de raça, enquanto tenta fugir do regime nigeriano através da Europa.

A história de Ifemelu é uma história de luta e reflexão. Ela tem consciência de que apesar de todos os infortúnios pelo que passou em função do seu sexo e da sua cor, ainda foi uma pessoa de “sorte”, dadas as condições em que tantas outras pessoas com origens semelhantes se encontravam. Ainda assim, sua trajetória não é fácil e fornece importantes contrastes não somente entre a Nigéria da década de 90, a Nigéria da atualidade e os Estados Unidos, como entre a própria realidade brasileira.

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie

A leitura de Americanah demanda um constante exercício de empatia e é importante para a compreensão das dores que a cultura ocidental ainda impõe aos indivíduos ao mesmo tempo em que vende a ideia de progresso e igualdade. Apesar de todos os luxos que Ifemelu não possuía na Nigéria, era lá que ela encontrava compreensão. Era naquele país, que ela se reconhecia como uma igual. E é por essa razão que, mesmo possuindo um blog de sucesso sobre questões raciais e um relacionamento estável, ela decide retornar à Nigéria.

Americanah é uma história espetacular e concede a sensação de um livro completo. Mescla entretenimento com reflexão e crítica social, não obstante desenvolva personagens distintos e ricos também isoladamente. A história de Ifemelu não é apenas dela, mas é a história de Obinze, de tia Uju, de seu primo Dike, dos nigerianos, dos negros americanos e não americanos, dos brancos e dos não-brancos – inclusive os latinos – e suas relações com os negros, das mulheres negras e das mulheres como um todo.  Complexo, o livro gera discussões imprescindíveis à contemporaneidade.

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AmericanahAmericanah

Autora: Chimamanda Ngozi Adichie

Companhia das Letras

516 páginas

Onde comprar: Amazon

Este livro foi cedido pela editora para resenha.

Escrito por:

135 Textos

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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