Fiona Apple, uma máquina extraordinária

Fiona Apple, uma máquina extraordinária

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Fiona Apple começou sua carreira musical muito cedo. Ela já costumava compor músicas desde a infância, e na adolescência passou a escrever sobre traumas pessoais. Seu álbum de estréia, Tidal, é repleto de canções fortes que consagram a cantora como uma artista marcante e que não se enquadra em nenhum nicho. 

Na verdade, a arte de Fiona Apple transcende nichos. Sua crueza para narrar assuntos íntimos impressiona desde a juventude e seu trabalho parece nunca perder a pertinência. 

Aos 42 anos, a cantora mora com sua amiga e alguns cachorros em uma casa em Venice Beach, onde também vive seu pai. O irmão de Fiona mora em uma casa nos fundos da sua, e a irmã a visita frequentemente, junto de seu bebê. 

Foi nesse contexto caseiro que Fiona Apple produziu seu último álbum, o Fetch the Bolt Cutters. O cenário está bem distante das experiências conturbadas que a cantora teve com a fama ao longo dos anos. Passando por abusos, transtornos psicológicos e traumas, ela exprimiu boa parte de seus tormentos na música.

A cantora Fiona Apple
Fiona Apple (Créditos: Kitra Cahana/Getty Images)

Tidal: uma maré de si mesma

Apple não tinha nem dezoito anos de idade ainda quando começou a adentrar no mundo da fama. Seu primeiro álbum, Tidal, tem uma maturidade sombria que parece destoar da menina que o escreveu. Desde muito jovem, Fiona foi confinada ao olhar alheio. Os efeitos negativos da fama por diversas vezes a reduziram a uma imagem de uma mulher cheia de problemas, incapaz de alcançar redenção.

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A imagem trêmula de Apple na capa de Tidal é forte, melancólica e intrigante. Ela reflete o retrato de uma mulher que, mesmo estando oscilante e desfocada, ainda revela a si mesma com a clareza de uma imagem estourada.
Capa do álbum Tidal. (Imagem: divulgação)

Ao contrário dos julgamentos que recebeu, Fiona sempre esteve à frente de seu tempo. Ao expressar os seus dilemas na música, ela paralelamente criticava a mesma sociedade que a condenava. Desde o princípio, temas relativos ao ‘’ser mulher’’ estiveram presentes em sua arte.

Por vezes tratados com melancolia, por vezes tratados com ironia, como é o caso da canção ‘’Criminal’’, uma de suas obras mais famosas. Nela, Apple canta ‘’I’ve been careless with a delicate man/ And it’s a sad, sad world/ When a girl will break a boy just because she can’’ (“Eu fui descuidada com um homem delicado/ e é um mundo tão triste/ quando uma garota quebra um garoto só porque ela pode”, em tradução livre). 

No clipe de ‘’Criminal’’, Apple aparece cantando em meio a diversas modelos desmaiadas, o clima de sensualidade é mórbido, repleto de vulnerabilidade. Some essas imagens com os problemas que a cantora enfrentou com distúrbios alimentares, e o resultado é um trabalho polêmico para a época. 

Mas ‘’Criminal’’ não é uma filha única, todas as canções do Tidal cascateiam entre a raiva, a tristeza, a culpa e a confusão. A angústia de crescer e mudar é potencializada pelos traumas que perseguiam a cantora. Em ‘’Sullen Girl’’ ela canta sobre o estupro que sofreu aos onze anos de idade, e os efeitos que essa violência deixaram nela. 

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‘’Is that why they call me a sullen girl, sullen girl

They don’t know I used to sail the deep and tranquil sea

But he washed me ashore and he took my pearl

And left an empty shell of me

And there’s too much going on

But it’s calm under the waves in the blue of my oblivion.’’

(É por isso que eles me chamam de garota taciturna,

Eles não sabem que eu costumava navegar o mar profundo e tranquilo

Mas ele me arrastou para a costa e tomou minha pérola

Deixando uma concha vazia de mim

E há muito acontecendo

Mas é calmo sob as ondas do meu esquecimento.) 

Em uma entrevista à Rolling Stone em 1998, Apple falou sobre ter desenvolvido um distúrbio alimentar após ser estuprada. Ela contou que associava o fato de seu corpo estar mudando com o motivo por ter sido violentada, e tentava ‘’se livrar da isca que estava presa ao seu corpo’’. 

Dentro de si mesma, Fiona tenta exprimir de seu mar profundo os sentimentos que compõem suas músicas. Em uma recente entrevista, a cantora refletiu sobre autoconhecimento e processo criativo e afirmou ‘’Eu TREMO quando eu tenho que pensar e escrever sobre mim mesma. É assustador ir até lá mas eu vou’’, em tradução livre.

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Apesar de entregar tanto de si em seu primeiro álbum, os anos seguintes provariam que a obra foi apenas uma maré do oceano imenso que é Fiona Apple. A maré é só o que vem com o álbum, o que ela consegue mostrar de si própria. Uma tempestade dentro de si mesma causada pelo sofrimento de quem antes conseguia navegar com tranquilidade, mas agora se sente vazia. 

A imagem trêmula de Fiona na capa de Tidal é forte, melancólica e intrigante. Ela reflete o retrato de uma mulher que, mesmo estando oscilante e desfocada, ainda revela a si mesma com a clareza de uma imagem estourada. Ela se coloca completamente na luz, e ainda assim mostra apenas uma parte de si. Não cabe em nichos, molduras ou definições. É maior que tudo isso, e em suas ondas que quebram na areia, consegue entregar um pouco de sua profundidade. E esse pouco ainda é absurdamente muito, é genial e grande demais para abarcar. 

Boa em ficar desconfortável

Fiona cresceu como a ‘’segunda família’’ de seu pai que, apesar de estar sóbrio há muitos anos, teve problemas graves com o alcoolismo durante a infância da cantora. Na vida adulta, ela viria a encarar o abuso de álcool e drogas. Embora não se considere alcoolista, Apple decidiu parar com a bebida.

Ela começou a fazer terapia aos onze anos de idade, e sofreu desde muito cedo com depressão, ansiedade e transtorno obsessivo compulsivo. A cantora enfrenta esses transtornos até hoje, e eles ainda são temas frequentes em suas músicas. Apple também passou por romances conturbados, incluindo uma relação nem um pouco saudável com o cineasta Paul Thomas Anderson

A cantora sofreu desde muito cedo com depressão, ansiedade e transtorno obsessivo compulsivo, temas frequentes em suas músicas.
Fiona Apple (Créditos: Fairchild Archive/Penske Media/Shutterstock)

Seu comportamento diante da mídia foi considerado chocante para a época em que Fiona emergiu no cenário musical. Suas críticas e opiniões fortes resultaram em uma imagem negativa diante do público. 

Apesar da imagem de uma ‘’garota problemática’’, a cantora enfrenta seus problemas pessoais com bastante seriedade. Todos os sofrimentos, aliados aos julgamentos advindos da fama, não a impediram de continuar criando, e sua arte está profundamente ligada às barreiras que ela transpõe diariamente. 

As reinvenções de Fiona Apple não são motivadas por uma pressão que a indústria musical impõe às artistas femininas. Ela não é uma imagem construída para o público, e sim uma mulher real sem medo de derramar todos os seus medos diante de quem quer que esteja ali para testemunhar. Apple se reinventa constantemente em seus álbuns porque isso faz parte da sua jornada de vida. E esses elementos que geram tanta controvérsia são os mesmo que permeiam a originalidade da cantora. 

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As reinvenções de Fiona Apple não são motivadas por uma pressão que a indústria musical impõe às artistas femininas
Fiona Apple (Créditos: Tim Mosenfelder/Getty Images)

O processo lento e diário de encarar os obstáculos de sua saúde mental resultam em álbuns extraordinários, como ela canta em ‘’Extraordinary Machine’’, ‘’I still only travel by foot, and by foot it’s a slow climb/ But I’m good at being uncomfortable/ So I can’t stop changing all the time’’ (“Eu só viajo à pé, e à pé é uma escalada lenta/ Mas eu sou boa em me sentir desconfortável/ Então eu não consigo parar de mudar o tempo todo”, em tradução livre). Ainda assim, a cantora não deixa de estar ciente dos desafios de viver com transtornos psicológicos, tampouco pára de procurar ajuda. Em nenhum momento os seus relatos pessoais romantizam os transtornos psicológicos. 

O trabalho de Fiona Apple envolve adentrar em si mesma, e transformar o que encontra pelo caminho em arte, mesmo que o processo seja aterrorizante. Da mesma forma, ela transforma o mundo ao seu redor com a sua música, independente de como esse mundo a trata. Ironicamente, Apple foi julgada várias vezes como uma mulher instável. Enquanto isso, seus álbuns relatam jornadas de crescimento, autoconhecimento e crítica à forma como o mundo trata as mulheres.

A arte de Fiona é a humanização em meio à um mundo que tentou desumanizar sua imagem, seja por conta do abuso, seja por conta do sexismo, seja por conta do julgamento alheio. ‘’Be kind to me or treat me mean/ I’ll make the most of it, I’m an extraordinary machine’’ (“Seja gentil comigo ou seja cruel/ Eu vou tirar o melhor disso, eu sou uma máquina extraordinária”, em tradução livre).

Fetch the Bolt Cutters: um grito de liberdade

O mais recente álbum de Fiona Apple, Fetch the Bolt Cutters é um grito de liberdade de muitas formas. Nele, a cantora explora muitos temas que vão desde rivalidade feminina até a necessidade de aceitação. 

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Capa do álbum Fetch the Bolt Cutters (Imagem: reprodução)

As narrativas de Fiona se convertem em um refúgio no qual as mulheres podem se encontrar. Ao mesmo tempo em que é uma mulher completamente diferente, que desde a juventude destoava de suas contemporâneas cantoras, ela também reflete dilemas e realidades com as quais outras mulheres conseguem se identificar.

Na música ‘’Ladies’’, ela lembra o quanto mulheres podem ser cruéis em suas opiniões a respeito das outras. Já ‘’For Her’’ é uma canção que narra diferentes formas de desrespeito e violência contra a mulher e que culminam numa violência sexual. Em ‘’Newspaper’’ ela conta a história de duas mulheres simultaneamente unidas e separadas pelo mesmo homem. Na canção, o eu lírico simpatiza com a atual parceira de um homem abusivo.

‘’When I learned what he did, I felt close to you

In my own way, I fell in love with you

But he’s made me a ghost to you

I watch him let go of your hand, I wanna stand between you

But it’s not what I’m supposed to do

I watch him walk over, talk over you, be mean to you

And it makes me feel close to you’’.

(Quando eu descobri o que ele fez, eu me senti próxima de você

Do meu jeito, eu me apaixonei por você

Mas ele fez de mim um fantasma para você

Eu o vi soltar da sua mão, eu queria me colocar entre vocês dois

Mas não é o que eu devo fazer

Eu vi ele passar por cima de você, te interromper, ser cruel com você

E isso me fez sentir próxima de você.)

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Já em ‘’Fetch the Bolt Cutters’’ ela canta sobre se sentir desaparecendo dentro dos julgamentos alheios, e sobre encontrar a própria voz para seguir em frente. O trecho ‘’I’ve been in here too long’’ (“Eu estive aqui por tempo demais”, em tradução livre) vale para as diferentes narrativas do álbum. Relacionamentos conturbados, sentimentos de rejeição, necessidade de aceitação, estados a serem superados após serem remoídos por tempo demais. 

‘’Fetch the Bolt Cutters’’ é um ímpeto por liberdade após diferentes confinamentos. As letras cruas de Fiona Apple instigam o ouvinte a também questionar o que o mantém preso e o que o impede de rasgar as grades ao seu redor e seguir em frente. A tensão do desconforto impulsiona Apple a extrair o melhor de si e de tudo ao seu redor no ato de criar.

Seu mais recente trabalho reflete um misto de empatia e revolta consigo mesma e com o mundo, misto que resulta em um manifesto épico sobre aceitar a dor e embarcar na mudança. Essa inquietação constante faz dela a máquina extraordinária que impressiona a cada novo álbum.


Edição e revisão por Isabelle Simões.


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Estudante do curso de Jornalismo. Gosta muito de cinema, literatura e fotografia. Embora ame escrever, é péssima com informações biográficas.
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