“Mulan” (2020) é um espetáculo visual sem substância

“Mulan” (2020) é um espetáculo visual sem substância

O que se pode dizer sobre remakes da Disney que já não foi dito? Cada um que é anunciado parece ser seguido sempre pelas mesmas perguntas: Por que esse remake é necessário? O que houve com as ideias originais? O que uma versão em live action pode acrescentar para uma obra que já foi perfeitamente executada em forma de animação?

A discussão se torna cíclica, porque é difícil esses filmes individualmente, mesmo que uma versão ou outra contenha seus méritos. Todos eles são parte de uma tendência geral que é o desespero para manter números bilionários de vendas – desespero esse que aparentemente não pode ser satisfeito com ideias originais ou arriscadas. Não: A realidade é que a nostalgia, por si só, já serve como motor para vender ingressos, e, enquanto a Disney puder explorar esse fator, os remakes continuarão vindo com poucos atributos individuais que justifiquem suas existências.

Mas recontar as mesmas histórias vem com o preço da comparação, o que levanta outra questão fundamental: Qual é o objetivo de um remake live action? Ser o mais fiel possível ao original, ao ponto de se tornar basicamente uma cópia; ou buscar novos ângulos para uma história já conhecida?

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A versão de 2020 de Mulan tinha a difícil tarefa de honrar duas versões diferentes de uma história icônica.
A versão de 2020 de Mulan tinha a difícil tarefa de honrar duas versões diferentes de uma história icônica.

Quando a versão de 2020 de Mulan foi anunciada, a narrativa era de que o filme seguiria pelo segundo caminho. E com bons motivos: A animação original, amada no ocidente, estava longe de ser uma adaptação fiel da balada tradicional chinesa que a inspirou. E a versão de 2020 prometeu ser diferente. Elementos amados da versão ocidental, como as músicas e o personagem Mushu, seriam cortados a favor de uma representação mais autêntica da lenda original.  No mínimo, isso dava ao filme uma justificativa para existir como algo além de uma pálida imitação do clássico de 1998. Em outras palavras: valia a tentativa.

Mas a promessa do estúdio se provou vazia. Mulan, dirigido por Niki Caro (o orçamento de 200 milhões tornou-o o filme mais caro já dirigido por uma mulher), é uma obra que privilegia o espetáculo sobre a substância, e, ao tentar evocar elementos da balada tradicional e da adaptação ocidental ao mesmo tempo, falha em construir uma identidade própria.

O filme como filme

O cerne da história continua o mesmo: Na China Imperial, a ameaça de uma guerra faz com que o imperador (Jet Li) ordene que cada família envie um homem para lutar. Sem filhos homens, o patriarca Hua Zhou (Tzi Ma) se compromete a atender o chamado. Sabendo que seu pai idoso e machucado tem poucas chances de sobreviver ao combate, a jovem Mulan (Liu Yifei) decide roubar sua armadura e sua espada e fugir na calada da noite para se apresentar para o exército como seu filho.

A principal singularidade desta versão é que Mulan já começa a história como uma guerreira poderosa. Com uma capacidade natural para canalizar uma força interior chamada de chi, ela é naturalmente uma acrobata com reflexos fantásticos, protagonizando inclusive uma cena de capturar xícaras de chá do ar que não deixa nada a dever ao Homem-Aranha. Porém, exercer o chi é proibido para mulheres, que, ao mostrarem esse poder, podem ser exiladas e condenadas como “bruxas”. Assim, Mulan tem que esconder os seus dons. Mas, mesmo disfarçada de homem, ela não consegue aproveitar sua capacidade completamente, já que o chi é limitado pela desonestidade.

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Na versão de 2020, Mulan já começa a história como uma guerreira poderosa.
Na versão de 2020, Mulan já começa a história como uma guerreira poderosa.

Esse elemento da trama determina o tom que a história seguirá. Mulan não é um coming of age de uma menina encontrando o seu lugar em uma sociedade patriarcal. É efetivamente um filme de ação, protagonizado por uma super heroína. Isso se reflete nas cenas de batalha, que, claramente inspiradas em técnicas clássicas de filmes de artes marciais chineses, apostam no wire fu para ilustrar as habilidades da protagonista. Essa escolha, potencialmente interessante, acaba se tornando repetitiva e cansada pela falta de criatividade que acompanha a coreografia das cenas (chutar coisas no ar, por exemplo, parece ser um dos únicos golpes que Mulan conhece).

No entanto, é impossível não se deixar seduzir, pelo menos em momentos específicos, pelo espetáculo visual de Mulan. Com belos planos de cenários majestosos e coloridos, a cinematógrafa Mandy Walker, em conjunto com a diretora, cria um mundo visualmente impressionante, sem dúvida feito para ser apreciado em uma tela de cinema.

Mas o mesmo não ocorre com as performances dos atores ou a narrativa do roteiro. Como pai de Mulan, Tzi Ma faz o possível para conferir emoção à relação mais importante da história, mas é limitado por um diálogo mecânico e sem vida. A bruxa Xianniang (Gong Li), a segunda adição mais significativa à história, parece constantemente entediada e melancólica em suas cenas, criando uma personagem rasa que parece estar no filme apenas para que este possa passar no teste de Bechdel. A bizarra decisão do roteiro de dividir o personagem Shang, da animação, em dois – Chen Honghui e Comandante Tung – faz com que nenhum tenha o tempo de tela necessário para recriar a química de Mulan com o original.

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E, finalmente, é impossível não falar de Liu Yifei, que não traz nenhum carisma à icônica protagonista. Mas é injusto culpar apenas a atriz. A decisão de transformar Mulan em uma super heroína remove a maior parte do apelo da personagem, que, neste filme, não tem nada de desajeitada ou esforçada, sendo simplesmente perfeita desde o primeiro plano da produção. O resultado é uma guerreira que, no papel, pode ser muito poderosa, mas que, como personagem, é praticamente nula.

Mulan (2020) é um filme de ação protagonizado por uma super-heroína.
Mulan (2020) é um filme de ação protagonizado por uma super-heroína.

Mulan como sombra

Ao escrever sobre o remake de um clássico, paira sempre a questão da comparação com o original. Essa comparação nem sempre é justa: Afinal, justamente por ser uma versão nova, não é de se espantar que Mulan preferisse abdicar de certos elementos amados. “Não tem o Mushu” e “não tem músicas” não precisam, necessariamente, ser pontos negativos para o filme.

No entanto, na prática, a separação da animação não é forte o suficiente para evitar comparações. E é aí que está um dos principais problemas da versão de 2020: As constantes referências e alusões a um filme muito melhor. É impossível, por exemplo, assistir a uma montagem de treinamento com parte das letras de Não Vou Desistir de Nenhum no diálogo, sem pensar que essa cena seria muito melhor com a música. E essa tendência se repete de maneira distrativa no restante da obra – Alguém Para Quem Voltar, por exemplo, é quase inteiramente transformada em diálogo, e o resultado é forçado e artificial.

Esse problema é representativo da maior falha do filme: Apesar de superficialmente tentar evocar elementos da balada tradicional chinesa, a versão de 2020 ainda está comprometida com a nostalgia. E “lembra desse outro filme que você gostava?” nunca vai ser o suficiente para sustentar uma história nova.

Mulan como representação

Finalmente, é preciso falar sobre o elefante branco na sala: Se Mulan (2020) falha em comparação com a versão animada de 98, como ele se compara com a balada original chinesa?

Pela reação do público chinês, mal. Elementos da trama como a introdução do chi como um superpoder, por exemplo, foram criticados por mostrar uma falta de entendimento do que esse conceito é para a cultura que o criou. E isso não seria um problema se uma das propostas do filme não fosse precisamente resgatar a autenticidade cultural de uma das lendas mais famosas do país.

Se Mulan (2020) falha em comparação com a versão animada de 98, como ele se compara com a balada original chinesa?
Se Mulan (2020) falha em comparação com a versão animada de 98, como ele se compara com a balada original chinesa?

É neste aspecto que Mulan pode ser usado como um estudo de caso para analisar os limites de uma “representatividade” superficial, que parece mais interessada no dinheiro de grupos marginalizados do que em retratá-los fielmente. A inclusão de pessoas chinesas na produção é puramente cosmética, limitando-se aos atores.

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É claro que não se pode aderir a uma visão essencialista sobre quem pode contar certas histórias – a capacidade de abstração e de empatia são essenciais para a construção de qualquer narrativa. Mesmo assim, não é difícil entender por que um filme com uma diretora, cinematógrafa, quatro roteiristas, e uma figurinista brancos não tem muito sucesso em evocar a autenticidade de uma lenda chinesa. No mínimo, se o interesse fosse realmente em representatividade, algumas pessoas asiáticas poderiam estar presentes no processo de criação.

Essa representatividade superficial não é nova para os remakes da Disney (basta lembrar da embaraçosa “representação” gay de A Bela e a Fera). Mas, em 2020, ela parece mais obsoleta do que nunca.

Conclusão: o filme como sintoma

Ninguém quer fazer um filme ruim. Diretores, roteiristas, atores, editores, e todas as pessoas que se envolvem na produção de um filme têm intenções criativas legítimas. A ideia é sempre fazer algo bom.

E a verdade é que Mulan (2020) está longe de ser uma tortura de assistir. É uma obra essencialmente medíocre, entregue com visuais excepcionais. O roteiro, apesar de básico, mantém a história se movendo com regularidade o suficiente para não se arrastar.

Por si só, então, não é uma obra que mereceria ser dissecada dessa forma. Mas é a sua presença como sintoma de um problema muito maior que torna o resultado mais preocupante.

Mulan (2020) está longe de ser uma tortura de assistir.
Mulan (2020) está longe de ser uma tortura de assistir.

Porque um remake da Disney não precisa ser bom. Na verdade, a cada vez mais parece que o estúdio está interessado em manter a sua tendência de filmes passáveis, que se sustentam na nostalgia para manter as pessoas interessadas. Produtos que se apropriam de conceitos importantes e complexos (como representatividade) para usá-los como boosts de venda. O resultado é uma indústria prejudicada por uma visão de túnel em busca de nada além do lucro. Ninguém quer fazer um filme ruim, mas muitos estúdios querem fazer dinheiro fácil, e a mediocridade é, inegavelmente, uma mina de ouro.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

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Formada em História, Fernanda é escritora e trabalha com tradução, legendagem e produção de conteúdo. Gosta de games, quadrinhos e filmes. Passa a maior parte do tempo falando do seu cachorro ou do MCU.
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