Explosão Feminista: Um ensaio sobre a pluralidade do feminismo brasileiro

Explosão Feminista: Um ensaio sobre a pluralidade do feminismo brasileiro

Este é um livro-ocupação”. A primeira frase na orelha de “Explosão Feminista – arte, cultura, política e universidade” não poderia ser mais certeira. Ao reunir tantos relatos de mulheres diferentes em suas origens, áreas de atuação e até gerações, Heloisa Buarque de Hollanda conta a história da quarta onda feminista no Brasil, sem deixar de revisitar o passado do feminismo.

A obra, publicada pela Companhia das Letras, convida a leitora a repensar o significado do movimento de mulheres e olhar para suas nuances com outra perspectiva, pois o feminismo que conhecemos está longe de ser único – ou uno. É um feminismo plural, com as dimensões de um país como o Brasil. E a cada página de “Explosão Feminista”, somos instigadas também a refletir sobre nosso dever de ampliar as vozes destas diferentes mulheres que lutam por direitos há muito tempo, cotidianamente, ainda que tão silenciadas por nossa sociedade.

Explosão Feminista

A nova geração política

A primeira parte de “Explosão Feminista” traz um panorama sobre a quarta onda do feminismo no Brasil, que a partir de 2013 tomou conta das ruas, das redes e da política. E emociona logo no primeiro depoimento, da estudante secundarista Isabella Dias:

“Eu vejo muita gente hoje negligenciando a importância das jornadas de junho de 2013. Acho que todas essas pessoas que foram pra rua, de todos os posicionamentos políticos, descobriram uma força incrível que antes não conheciam. Para os movimentos das minorias isso é muito importante. O feminismo teve um boom depois de 2013, o movimento negro também. Eu vejo que a nossa juventude está caminhando no sentido de incluir a política nas nossas relações, no dia-a-dia. Então por isso é que sofremos essa guinada conservadora, ela é uma resposta a esse processo de conscientização pelo qual estamos passando.”

Essa juventude que tem feito a diferença de forma tão engajada, além de revigorante é a tônica do capítulo. A obra explicita como a Primavera Feminista tem acontecido nas ruas, onde geram muita visibilidade midiática para as suas pautas, mas também no ambiente virtual. É inegável, hoje, como a internet tem sido um espaço para aglutinar demandas femininas tão diversas. Seja através de hashtags no Twitter, grupos no Facebook ou perfis no Instagram, por exemplo, nestes pontos de encontro mulheres passaram a sentir-se mais seguras para falar e se mobilizar.

“Explosão Feminista” mostra também que, cada vez mais, há mulheres ocupando espaços políticos, antes relegados apenas aos homens. No subcapítulo Política Representativa, é difícil não se emocionar com o retrospecto da história recente de mulheres nas câmaras legislativas, com depoimentos de Manuela D’Ávila, Talíria Petrone e Marielle Franco, covardemente assassinada em 14 de março de 2018. É, de fato, um recorte que escancara a difícil luta diária pela representatividade feminina em instâncias governamentais, mas é também fonte de esperança e inspiração.

Explosão Feminista
Imagem: Delirium Nerd.

Palavra Forte

O segundo capítulo trata do poder das vozes femininas nas artes, na poesia, no cinema, no teatro e na música. “Explosão Feminista” aborda como a produção artística feminina, ainda que sem intenção feminista, acaba vista como ativismo. De fato, a arte não precisa ser militante, mas parece que o fato da mulher assumir a posição de “produtora de arte” é, por si só, uma transgressão.

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Independente da mídia usada para a arte florescer e desabrochar, transbordando o que precisa ser dito sobre a luta de artistas tão diversas, são muitas as críticas sobre a produção de mulheres. O denominador comum gira em torno da utilização do corpo feminino como plataforma e do desejo feminino como inspiração, o que apenas reflete como mulheres que não desejam o posto de musas, mas sim de artistas, incomodam o patriarcado.

Um outro tema abordado neste capítulo refere-se ao movimento feminista na academia. “Explosão Feminista” revela que, apesar de sermos a maioria como alunas, professoras e funcionárias, ainda não temos representatividade nem ocupamos cargos de poder no meio acadêmico. Apesar das mobilizações frequentes por mais direitos nas universidades, as pesquisadoras feministas encontraram espaço em ações pontuais, em coletivos de mulheres e em projetos de extensão – mas isso não é, nem de longe, suficiente.

“Como professora, eu já senti muitas vezes a discriminação; por exemplo, agora, quando eu publiquei um livro sobre história do Brasil com a professora Heloisa Starling, Brasil, uma biografia. Não foi um ou dois, foram vários jornalistas que me perguntavam como eu me sentia enquanto mulher escrevendo um livro de interpretação do Brasil. E eu respondi se eles fariam essa mesma pergunta para um homem, como é que um homem se sentiria escrevendo um livro sobre história do Brasil”.

Como sugere este depoimento da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, apesar de maioria e há tanto tempo desenvolvendo um trabalho primoroso, mulheres na ciência continuam silenciadas e esse é somente mais um desafio que precisamos superar no meio acadêmico.

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Os feminismos das diferenças

A terceira parte, talvez a mais importante, traz à tona a pluralidade de muitos feminismos, como explica Heloisa Buarque de Hollanda em um trecho na introdução do capítulo:

“Assim, convidamos integrantes dos movimentos feministas de várias cores, crenças e gêneros para assumir seu ‘lugar de fala’ de forma aberta e pessoalizada. Raffaella* foi responsável ainda pelo desenvolvimento do debate levantado pelas feministas entrevistadas, em relação a léxico de exclusão e o eurocentrismo dos discursos acadêmicos, do qual, historicamente, as feministas brancas fazem ou faziam parte.”

Como uma luz nesta empreitada que é pensar um feminismo que dialogue com mulheres tão diferentes, o compilado de relatos pessoais resume a necessidade de uma nova abordagem. Pois a luta da mulher negra não é a de outras “minorias”, como a da mulher indígena, focada no combate à violência contra a mulher em um contexto de demarcação e recuperação de terras indígenas. Ainda é diferente da luta da mulher asiática, contra a xenofobia e a fetichização dos corpos femininos asiáticos. Ou ainda da mulher trans, que não encontra espaço e acolhimento dentro do movimento, que questiona e não legitima o corpo trans. É também diferente do feminismo lésbico, do feminismo protestante e ainda do tão estereotipado feminismo radical. Estas “minorias” não podem continuar silenciadas e invisibilizadas, e “Explosão Feminista” prova que o feminismo como conhecemos, branco, cis, heteronormativo e eurocêntrico, precisa reconhecer e legitimar estas outras demandas.

*Raffaella Fernandez é pesquisadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ e “peça fundamental na pesquisa, elaboração dos depoimentos e na definição do escopo desta parte”, segundo a autora.

Explosão Feminista
Imagem: Delirium Nerd.

As veteranas ou um sinal de alerta sobre uma memória não escrita

“Esta parte não fala da explosão feminista, não fala de internet, não fala de formas jovens de militância. Traz apenas o depoimento de algumas veteranas desta história: mulheres militantes e acadêmicas de um movimento vital do feminismo no Brasil, que foi o período de 1975 até a virada do século. Sinaliza uma memória riquíssima ainda só registrada em fragmentos, estudos focais e documentos esparsos. Esta parte é apenas um sinal de alerta.”

O quarto e último capítulo começa com este recado de Heloisa Buarque de Holanda, que além de reiterar a produção colaborativa da obra, alerta sobre o apagamento de nossa história. Mostra também que o feminismo no Brasil não é de hoje, apesar de tão evidente somente agora, e o quanto é importante ampliar a voz destas mulheres que construíram o feminismo brasileiro. Os relatos que compõem este capítulo, e que encerram a obra de forma tão brilhante e emotiva, são de Bila Sorj, Sueli Carneiro, Jacqueline Pitanguy, Malu Heilborn, Schuma Schumaher, Maria Betânia Ávila e Branca Moreira Alves.

Explosão Feminista – arte, cultura, política e diversidade” é uma aula sobre o atual feminismo brasileiro e também uma visita à história das brasileiras. Perpassa as diferenças que tornam o movimento tão plural e pontua a necessidade constante de diálogo, respeito e visibilidade para pautas alheias, mas igualmente importantes. O slogan “juntas somos mais fortes” continua verdadeiro, mas é preciso entender e se solidarizar com as peculiaridades de cada grupo, praticando assim a tão falada sororidade. “Explosão Feminista” é uma aula, mas também é um sopro de esperança para quem está na estrada há tanto tempo e para quem começa a caminhada agora.

Explosão Feminista
Foto: Chico Cerchiaro (reprodução).

Heloisa Buarque de Hollanda, nascida em Ribeirão Preto (SP) em 1939, é escritora e professora de teoria crítica da cultura na UFRJ, onde também coordena o Programa Avançado de Cultura Contemporânea, o projeto Universidade das Quebradas e o Fórum Mulher & Universidade. Explosão Feminista conta com a colaboração de Maria Bogado, Cristiane Costa, Antonia Pellegrino, Duda Kuhnert, Julia Klien, Érica Sarmet, Marina Cavalcanti Tedesco, Julia de Cunto, Andrea Moraes, Patrícia Silveira de Farias, Cidinha da Silva, Stephanie Ribeiro, Marize Vieira de Oliveira, Caroline Rica Lee, Gabriela Akemi Shimabuko, Laís Miwa Higa, Helena Vieira, Bia Pagliarini Bagali, Eloisa Samy e Lília Dias Mariano.

Imagem destacada: Foto de Marcelo Correa (reprodução)


Explosão FeministaExplosão Feminista: arte, cultura, política e universidade

Heloisa Buarque de Hollanda

536 páginas

Companhia das Letras

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